Atrás de flores, frutos e sementes | WWF Brasil

Atrás de flores, frutos e sementes



21 Dezembro 2010    
Dario Dantas do Amaral, pesquisador de botânica do Museu Emílio Goeldi.
Dario Dantas do Amaral, pesquisador de botânica do Museu Emílio Goeldi.
© WWF-Brasil / Adriano Gambarini
Por Ligia Paes de Barros

A III Expedição Científica à Terra do Meio, ao Parque Nacional da Serra do Pardo, contou com uma equipe de 12 pesquisadores experientes e apaixonados pelo que fazem. Eles andaram nas trilhas do Parque Nacional durante dias e noites procurando indicadores da biodiversidade local. Conheça um pouco sobre a rotina de pesquisa desses cientistas e saiba mais sobre quais plantas, aves, mamíferos, peixes, répteis e anfíbios eles encontraram durante a expedição.

O responsável pela pesquisa de botânica é Dario Dantas do Amaral, 41, pesquisador da coordenação de botânica do Museu Emílio Goeldi.

- Como é a rotina do trabalho?

Por volta das sete horas, saímos do acampamento para chegar no local de pesquisa já com uma boa claridade e fazemos o levantamento tanto quantitativo como qualitativo da vegetação. Aqui estamos fazendo análise mais qualitativa e também coleta, ou seja, identificamos quais são os elementos da flora que estão aqui. Quando estamos fazendo levantamento quantitativo, geralmente medimos o diâmetro das árvores e altura, isso depois esses dados serão importantes para gerar dados sobre análise de estrutura de vegetação, saber o volume de madeira em determinada área, e densidade de árvore.

Depois de voltar do campo, fazemos uma seleção do material coletado, jogamos no álcool para conservá-los, prensamos no jornal e levamos esse material para o laboratório. Lá no laboratório é que vamos observar e analisar o material. Quando ninguém conhece a planta, fazemos uma análise por comparação no laboratório para checar se é uma planta já identificada. Se não for, consultamos algum especialista na família da planta e o especialista diz se é novo ou não.

- Quais são os principais desafios que você enfrenta durante a pesquisa?

O fator limitante para trabalhar em florestas fechadas é a claridade. Tem que ter boa claridade para tentar identificar os elementos, que muitas vezes estão bem altos. Outro fator limitante para coleta da vegetação é que o material tem que estar fértil, ou seja, estar com flor, semente e fruto, e nunca isso é tão sistemático. Numa pesquisa com arbórea, que são as árvores, menos de 10% está fértil e quando está, muitas vezes é difícil saber, porque têm numa altura de 40 metros. Isso não contribui muito e temos que contar com a experiência do técnico paratoxonimista, que corta a árvore, cheira a madeira, identifica a seiva para descobrir a espécie arbórea.

A digital de uma planta, a sua identidade, é a flor. Então se você está vendo a flor, você sabe quem é aquele elemento. Se não tiver a flor, mas apenas a folha, só é possível saber qual o gênero da planta e muito dificilmente se descobrirá a espécie. Por isso, a experiência de pessoas antigas como os nossos técnicos aqui em campo é fundamental. Pelo conhecimento deles, podemos chegar a uma certeza de quase 90% de que é determinada espécie. 

- Quem são esses técnicos e quais as suas funções?

Somos quatro pessoas de botânica em campo. Eu caracterizo o ambiente e enquadro na tipologia, ou seja, faço análise de estrutura (a quantidade, área basal, volume de madeira), de riqueza (quantidade de espécies), e diversidade (número e quantidade de indivíduos de cada espécie) da região. O Serginho, Antonio Sergio Lima da Silva, é sistemata, que registra e escreve as características das plantas, além de especialista em leguminosas. O Carlito, Carlos da Silva Rosário, é parataxonomista, responsável pela coleta das plantas. Além disso, temos o João Batista, que é um grande conhecedor da vegetação da Amazônia, especialista em orquídeas.

- Quais as características que você encontrou no Parque Serra do Pardo?

Aqui no Parque nós encontramos três tipologias de vegetação: a vegetação rupestre, que se assemelha ao Cerrado; as florestas aluviais, que estão associadas a cursos de água sazonais e/ou perenes como o rio Pontal e rio Pardo; e Floresta Ombrófila Aberta Sub-montana, que ocorre geralmente nas encostas e topos de morros e são caracterizada pela descontinuidade do dossel da floresta com até 30 e 40 metros de altura. 

Nessas áreas encontramos cerca de 500 espécies, mas ainda não temos o número final. Entre elas, temos espécies que estão ameaçadas de extinção e algumas que podem ser novas descobertas. Porém, sobre essas novas espécies, tem que se ter prudência. O material ainda será analisado. Algumas espécies despertaram a nossa atenção, como duas Fabaceae, provavelmente do gênero Mimosa, e uma Vellozia (canela-de-ema), porém somente os especialistas, que serão contatados, podem definir. 

- Como está sendo a experiência de fazer pesquisa no Parque Nacional da Serra do Pardo?

É muito gratificante poder participar da expedição e poder estar em contato de vários grupos de pesquisa num ambiente bem específico da Amazônia e numa área tão remota que é muito especial. Boa parte da coleta de botânica já feita está perto de rios e estradas pela capacidade de coleta, por isso, quando saímos desse padrão, o que estamos fazendo aqui, a possibilidade de encontrar coisas interessantes e novas aumenta bastante.



Saiba mais sobre a Expedição Científica à Terra do Meio 2010:

Dario Dantas do Amaral, pesquisador de botânica do Museu Emílio Goeldi.
Dario Dantas do Amaral, pesquisador de botânica do Museu Emílio Goeldi.
© WWF-Brasil / Adriano Gambarini Enlarge
Pesquisadores de botânica da expedição em ação.
Pesquisadores de botânica da expedição em ação.
© WWF-Brasil / Adriano Gambarini Enlarge
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