Entrevista - José Flávio Júnior, biólogo, e Jorge Lopes, ornitólogo e observador de pássaros



23 agosto 2011    
José Flávio Júnior, biólogo, e Jorge Lopes, ornitólogo e observador de pássaros. Expedição Guariba-Roosevelt 2010.
José Flávio Júnior, biólogo, e Jorge Lopes, ornitólogo e observador de pássaros. Expedição Guariba-Roosevelt 2010.
© WWF-Brasil/Juvenal Pereira
"Existe pouca informação disponível sobre a avifauna das campinaranas amazônicas"

Por Jorge Eduardo Dantas de Oliveira


José Flávio Júnior e Jorge Lopes foram os responsáveis pelos estudos de avifauna da Expedição Guariba-Roosevelt. Carregando binóculos e livros com descrições de várias espécies de pássaros, eles tiveram como missão descrever a avifauna das quatro unidades de conservação visitadas pelos expedicionários.

José Flávio é ornitólogo, ou seja, um estudioso de pássaros. Biólogo com Mestrado e Doutorado em Zoologia, é professor da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) e já foi presidente da Sociedade Brasileira de Ornitologia. Jorge é um autêntico “bird-watcher”, ou “observador de pássaros”. Ex-garimpeiro, ele participou da elaboração de planos de manejo do Parque Nacional do Juruena e hoje trabalha no Parque Estadual do Cristalino, no Mato Grosso, como guia de expedições.


1 - Que métodos são utilizados para fazer o levantamento da avifauna?

José Flávio: Nesta expedição, usamos, principalmente, os métodos visual e auditivo, que consiste em ver os pássaros ou ouvir seu canto. Além disso, também trabalhamos com os relatos de pessoas, como de outros pesquisadores ou de comunitários. Esses relatos são chamados de “dados secundários”, mas também são importantes para a nossa pesquisa. Também fazemos anotações e descrevemos o tamanho, cores, formato do bico da ave. Então, identificamos a espécie.

Jorge: Eu utilizo um aparelho que tem cerca de 400 cantos diferentes de pássaros gravados. Então quando ouvimos uma vocalização e temos dúvida sobre que espécie é aquela, temos como ouvir aquele canto e identificar com mais calma com que espécie estamos lidando. Se for o caso, utilizo um amplificador de som e reproduzo aquele canto em voz alta. Dependendo da reação do pássaro, sabemos que espécie é aquela. Há espécies que, se ouvem um canto semelhante, saem de cena, por não querer brigar por território. Outras fazem o contrário: preparam-se para um possível confronto para garantir que aquele espaço seja dele ou para proteger seu ninho.

José Flávio: É importante que fique claro que nosso objetivo não é fazer um inventário da avifauna da região, mas sim ter uma “radiografia” da área. Queremos “caracterizar” a avifauna. Para isso precisamos ter uma lista de espécies, buscar padrões entre elas e entender como é esta região. Precisamos, portanto, comparar esses resultados com aqueles que serão trazidos pelos especialistas de outras áreas, como mastofauna e vegetação, por exemplo. Pode ser que os dados dos pesquisadores sejam divergentes, mas isso não invalida os estudos. Pelo contrário, isso só mostraria que a região é mais rica do que imaginávamos.

2- Existe algum horário específico para avistar os pássaros?

José Flávio: O melhor horário para ver os pássaros é pela manhã. Neste período, a atividade dos pássaros é maior e a chance de avistamento também. Os pesquisadores de avifauna vão à campo cedo, ainda de madrugada, e terminam seus trabalhos por volta das 10h; existe uma quantidade enorme de pássaros que não fazem vocalização à tarde e à noite, então quanto mais cedo, melhor.

3 - Existe literatura disponível sobre a avifauna desta região?

José Flávio: Sobre esta região, não. Mas temos listas bem extensas e completas sobre a região do rio Juruena e do Parque Nacional dos Campos Amazônicos, que são próximos e possuem uma vegetação parecida. Essas listas foram feitas por pesquisadores do Museu Emílio Goeldi de Belém do Pará, e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), que fica em Manaus, no Amazonas. Então, apesar de não existir informações sobre esta área, temos uma idéia do que poderemos encontrar pelo que já foi visto nessas redondezas.

Jorge: A Pousada Rio Roosevelt, por exemplo, tem uma lista com mais de 400 espécies de pássaros diferentes disponíveis. Mas eles têm dez anos de atividades e é um local famoso para observação de pássaros. Então só esta lista deles já é um bom indicativo das espécies existentes na região.

4- Existe um local ou região, no noroeste do Mato Grosso, que seria importante estudar?

José Flávio: Gostaria de estudar com calma as áreas de campinarana, que são aquelas áreas abertas, com características de cerrado, dentro da Amazônia. Existe pouca informação sobre a avifauna dessas regiões e por isso seria interessante ver o que existe nas campinaranas amazônicas.
 
José Flávio Júnior, biólogo, e Jorge Lopes, ornitólogo e observador de pássaros. Expedição Guariba-Roosevelt 2010.
José Flávio Júnior, biólogo, e Jorge Lopes, ornitólogo e observador de pássaros. Expedição Guariba-Roosevelt 2010.
© WWF-Brasil/Juvenal Pereira Enlarge
DOE AGORA
DOE AGORA