Entrevista - Rosalvo Duarte e James Machado Bilce, biólogos



23 agosto 2011    
"Os peixes pequenos, as 'piabas', são importantes porque são bioindicadores do ambiente onde são coletados"

Por Jorge Eduardo Dantas de Oliveira


Os biólogos James Machado Bilce, Rosalvo Rosa Duarte e Solange Arrolho foram os responsáveis pelos estudos de ictiologia da Expedição Guariba-Roosevelt. O objetivo foi realizar um levantamento das condições ambientais dos peixes das quatro unidades de conservação visitadas pelos expedicionários. James é biólogo, bolsista de um projeto de pesquisa desenvolvido pela Universidade Estadual do Mato Grosso (Unemat) no campus de Alta Floresta e participa de sua terceira expedição como membro de equipe de ictiologia. Rosalvo é um ex-garimpeiro que se formou em biologia e há dez anos estuda os peixes da Amazônia Meridional. Participou de pesquisas realizadas no Parque Nacional do Juruena, no Parque Nacional dos Campos Amazônicos, no Amazonas, e no Parque Estadual do Cristalino, no Mato Grosso. Solange é a “chefe da equipe”: professora e pesquisadora da Unemat, tem mestrado em Ecologia e doutorado em Aquicultura. Já participou de várias expedições junto com o WWF-Brasil como a Expedição Juruena-Apuí, em junho de 2006, e a Expedição Científica Juruena, em novembro de 2007.


1 - Qual é o trabalho de um pesquisador de ictiofauna?

James: O objetivo do nosso trabalho não é especificamente fazer um inventário das espécies de peixes que temos na região, mas sim fazer um levantamento amplo das condições ambientais em que se encontra a ictiofauna. Por isso também vamos extrair dados dos rios e igarapés como nível de oxigênio, nível de acidez, condutividade da água e coisas assim. Neste sentido, os peixes pequenos, conhecidos como “piabas” ou “piaus” serão muito importantes, porque esses bichinhos são bioindicadores do ambiente em que se encontram. Dependendo das espécies que você encontra, você pode dizer que outras espécies estão por ali, o tipo de alimento disponível naquele lugar e quais os predadores naturais daquelas comunidades. Então nossa prioridade não é com a quantidade de peixes, mas com a qualidade deles. Nos interessa muito mais os tipos e espécies de peixes do que a quantidade.

2 – E como é feito este levantamento?

James: Vamos partir principalmente para a coleta, que é a pesca propriamente. Usamos varas de pescar, anzóis, malhadeiras, tarrafas, redes... vários tipos de equipamento, mas nada que seja explosivo ou ictiotóxico, ou seja, que venha a envenenar os animais. Já temos informações sobre a ictiofauna do Parque Estadual do Cristalino e do Parque Nacional do Juruena, que são regiões próximas daqui. Então temos uma idéia do que poderemos ver na região que estamos visitando. No entanto, por vários fatores, nem tudo pode ser identificado em campo. Alguns espécimes são tão pequenos que você não consegue enxergar com nitidez as cores deles, por exemplo. Então vamos levar os peixes para laboratórios e identificá-los com a ajuda de microscópios, lentes de aumento e reagentes químicos. Para isso, deixamos os peixes mergulhados em uma solução de formol que conserva o corpo dos animais após sua morte. Então após a coleta faço uma triagem por espécies e famílias e depois os coloco nesta solução até a chegada ao laboratório, que às vezes demora até semanas. O formol mantém algumas características dos peixes, evitando a putrefação dos tecidos e permite análises da estrutura morfológica, tais como dentes, escamas da linha lateral, número de raios das nadadeiras, etc. Por isso é um material muito útil para nossas pesquisas.


3 – Qual é a maior dificuldade em realizar este tipo de levantamento?

Rosalvo: Acho que nossa maior dificuldade neste tipo de trabalho é o tempo. Temos poucos dias para cobrir uma área muito grande, o que nos obriga a ficar quase que o tempo todo em campo. Então nossas inserções pelos rios são demoradas, longas, extenuantes, duram várias horas. Outra preocupação relativa ao tempo é a dependência que temos dos taxonomistas. Uma lista de espécies de determinado local nunca fica pronta rápido. Tenho espécies encontradas em 2008 que até hoje não foram identificadas porque preciso de um especialista deste tipo. Os profissionais têm muitas  prioridades e isso acaba atrasando o fechamento de um inventário de espécies de uma determinada região, por exemplo. Outro problema é a quantidade de material com que uma equipe de ictiologia tem que lidar. Temos varas, anzóis, redes de pescar e equipamentos eletrônicos de medição de PH, várias coisas. Então sempre carregamos muito peso. Já participei de expedições em que, ao final, estávamos carregando quase 600 quilos de material. 

4 – Do ponto de vista da ictiofauna, qual é o maior problema ambiental do noroeste do Mato Grosso?

Rosalvo: O maior problema ambiental daqui, com certeza, é a pesca esportiva. As pessoas não sabem que, mesmo devolvendo o peixe para a água, isso provoca  estresse nos animais e desencadeia sérios problemas reprodutivos. Tanto as fêmeas quanto os machos têm seus ciclos reprodutivos alterados e isso acaba afetando o número de indivíduos daquelas populações por até quatro, cinco anos. Este seria um problema fácil de resolver se as pessoas respeitassem o período da piracema, mas isso não ocorre.
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