Entrevista - Edelso Ferreira Rodrigues, gerente do Parque Estadual Tucumã e das Estações Ecológicas Rio Roosevelt e Madeirinha



23 agosto 2011    
"O Governo só começou a trabalhar de verdade nessa área há dois anos"

Por Jorge Eduardo Dantas de Oliveira


Nascido no Mato Grosso, Edelso Ferreira Rodrigues é o gestor de três unidades de conservação situadas no noroeste do Mato Grosso: o Parque Estadual Tucumã e as Estações Ecológicas Rio Madeirinha e Rio Roosevelt. No cargo há um ano e meio, Edelso já era servidor da Secretaria do Meio Ambiente do Mato Grosso antes de assumir o posto – e por isso já estava familiarizado com as dificuldades de quem milita em prol do meio ambiente no serviço público. Ele conhece como poucos a região onde trabalha e hoje busca aumentar a quantidade de recursos e equipamentos destinados à fiscalização das áreas protegidas. Edelso acompanhou a Expedição Guariba-Roosevelt e guiou os pesquisadores pelos rios da região, além de servir como interlocutor do grupo de cientistas em algumas comunidades.

1 - Qual é o maior problema ambiental das três unidades de conservação das quais você é gestor?

Edelso Ferreira: Sem dúvida, é a pesca predatória. Há mais de um século os rios Roosevelt e Madeirinha são conhecidos por sua variedade de peixes. E por conta do próprio tamanho da área (mais de 189 mil hectares, somando as duas Estações Ecológicas e o Parque Estadual), é difícil fiscalizá-la por completo e com a freqüência necessária. A cada quinze dias ando por esses rios, mas é insuficiente. Existem pescadores que vêm de Roraima com o intuito de pescar nas áreas proibidas. Todos os anos, por meio de fiscalizações, apreendemos 15 ou 16 barcos que pescam nesses rios. Já fizemos um cálculo baseado na quantidade de peixe apreendido e não é exagero dizer que pelo menos três toneladas de peixes são tiradas desses rios todos os anos. Existem outros problemas como a extração de madeira e a existência dos garimpos clandestinos, mas a questão da pesca é a mais complicada por aqui.

2 – Que tipo de apoio a Secretaria de Meio Ambiente dá para a execução de seu trabalho?

Edelso Ferreira: Nos últimos meses o suporte tem sido maior, mas ainda falta muito. A logística aqui é sempre complicada e até poucos meses atrás não tínhamos uma embarcação própria para essas unidades de conservação. Eu fazia fiscalizações com barcos alugados ou emprestados e, muitas vezes, eu mesmo pagava o combustível que usava. Além disso, não temos equipe. Eu tenho que fazer tudo sozinho, como a parte burocrática, de escritório, mas também ir a campo, fazer visitar de orientação e algumas abordagens durante as fiscalizações. Outro problema que temos aqui é a falta de divisas. Temos limites bem definidos em mapas e fotos de satélites, mas as placas e trilhas feitas para separar as unidades de conservação são destruídas o tempo todo pelos madeireiros, pescadores e garimpeiros ilegais. Então, quando faço visitas, sempre tenho dificuldade de garantir o cumprimento da lei, porque questões como o tamanho, extensão e as divisas das áreas entram em jogo e eu não tenho como argumentar - já que os equipamentos que fazem essas distinções não estão mais lá.

3 - A Reserva Extrativista Guariba-Roosevelt possui uma população de garimpeiros, madeireiros, fazendeiros, ribeirinhos e turistas, todos com interesses diversos dentro de um pequeno espaço. Isso também ocorre nas três áreas protegidas sob sua responsabilidade?

Edelso Ferreira: Não. Hoje, temos apenas três núcleos familiares morando no rio Roosevelt. São trinta pessoas, seis adultos e crianças. São ribeirinhos que moram ali há muito tempo, há mais de 50 anos, e que pertencem todos à mesma família. Eles vivem nas proximidades de uma área conhecida como “Cotovelo” e tiram seu sustento do extrativismo. Eles produzem apenas para consumo próprio e vendem ou trocam o excedente com os parentes que vivem em outras comunidades. Os efeitos ambientais que eles produzem são pequenos e não são um problema.

4 - Como você avalia o processo de elaboração dos planos de manejo e o apoio governamental para cuidar das áreas protegidas que estão sob sua responsabilidade?

Edelso Ferreira: Esse processo já andou bastante, mesmo que com passos muito curtos. O governo estadual só começou a trabalhar de verdade nessa área há dois anos, aproximadamente. As atenções estão voltadas para cá há pouco tempo, mas já é possível perceber uma mudança. Já existe um orçamento maior para as atividades dessas unidades de conservação, os equipamentos começaram a chegar e as visitas dos técnicos ficaram mais freqüentes. Então posso dizer que, mesmo devagar, já estamos intensificando nossas ações aqui e a fiscalização que deve ser feita nesta área.
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