Crise climática: seca severa na Amazônia é agravada por desmatamento e fogo

16 outubro 2023

Com eventos extremos cada vez mais frequentes, risco de degradação aumenta e pode levar extensas áreas de floresta ao colapso e grande parte da população local ao sofrimento
Por Fábio de Castro, especial para o WWF-Brasil

Em meados de 2021, chuvas acima do normal levaram o Rio Negro, um dos mais importantes da Amazônia, a superar o maior nível já medido em 120 anos, inundando cidades inteiras por meses, com graves consequências sociais e econômicas. Agora, a Amazônia vive uma seca extrema que reduziu a vazão de seus principais rios, causando problemas igualmente graves. Pouco mais de dois anos depois daquelas cheias históricas, o nível do Rio Negro chegou nesta segunda-feira, 16 de outubro, à marca de 13,59 metros em Manaus, a menor desde 1902.

Para a ciência, esse contraste tão intenso em um curto período de tempo indica que a Amazônia já está sentindo os efeitos da crise apontada pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) há vários anos: a alternância cada vez mais frequente de eventos extremos - sejam secas ou cheias severas.

Esse cenário de alternância rápida entre extremos é resultado de processos complexos ligados a mudanças climáticas que afetam várias partes do mundo, mas, na Amazônia, têm seus efeitos locais exacerbados pelo desmatamento e pelas queimadas. 

Especialistas que estudam a ecologia e a hidrologia do bioma temem que a combinação desses fatores produza um desequilíbrio que poderá levar a maior floresta tropical do mundo - ou pelo menos vastas partes dela - a um ponto de não-retorno, a partir do qual os rios e a floresta não conseguirão mais se recuperar.

"A combinação de mudanças climáticas, El Niño e desmatamento desenfreado contribui para o agravamento e prolongamento da seca, que, por sua vez, leva ao aumento das queimadas, o que tende a exacerbar ainda mais os efeitos da estiagem, afetando o regime de chuvas. Isso impacta não apenas na vida dos povos locais, mas afeta também a economia e a segurança hídrica de outras regiões do país, pois o que acontece na Amazônia interfere nos demais biomas”, destaca Edegar de Oliveira, diretor de Conservação e Restauração do WWF-Brasil.

Para o pesquisador Jochen Schöngart, do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), é preciso ter cautela para falar em ponto de não-retorno, pois a Amazônia é muito heterogênea e possui regiões mais vulneráveis que outras. “Porém, algumas regiões já vivem processos que a tornam muito suscetíveis a um colapso, como o Sul da Amazônia, onde a sinergia entre as mudanças climáticas, o desmatamento e as queimadas em larga escala estão agravando e expandindo a estação seca”, afirma.

De acordo com ele, estudos liderados pelo climatologista José Marengo, do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), mostram que, nos últimos 50 anos, a estação seca já se estendeu em pelo menos um mês no Sul da Amazônia. “Caso a temperatura do Oceano Atlântico Norte continue aumentando, com as queimadas e o desmatamento no ritmo atual, chegaremos a um ponto em que até populações humanas terão dificuldade para viver na região”, salienta.

Embora represente sérios riscos para o sul do bioma, por enquanto, a seca extrema de 2023 está causando problemas mais graves na Amazônia Ocidental, que compreende os estados do Acre, Rondônia, Roraima e Amazonas, e já atinge mais de 500 mil pessoas. 

Rios importantes, como Negro, Solimões, Purus, Madeira e Amazonas, caminham para os menores níveis da história, enquanto cidades inteiras, cujo acesso só é possível via fluvial, correm o risco de ficarem isoladas. Em diversas localidades os rios já estão intransitáveis, impossibilitando o transporte de alimentos e medicamentos e o abastecimento de água.
 

Impactos amplos


De acordo com Schöngart, uma combinação de fatores climáticos faz com que a seca atual seja diferente das anteriores e tenha impactos em praticamente todo o território amazônico. Ele lembra que a seca deste ano é causada por um El Niño do tipo EP (Pacífico Oriental, na sigla em inglês), que aquece as águas do Oceano Pacífico na costa da América do Sul. “Esse tipo de El Niño tem impactos de maior magnitude sobre o centro, o norte e o leste da Amazônia, expandindo-se um pouco para o sudeste”, frisa.

Por outro lado, o aquecimento do Atlântico Tropical Norte, decorrente das mudanças climáticas, afeta principalmente as regiões sul e sudoeste do bioma. “A sinergia entre os dois fenômenos intensifica a seca em praticamente toda a região amazônica, aumentando as temperaturas e reduzindo a cobertura de nuvens, resultando em um aquecimento da superfície”, explica o pesquisador.

Com o aquecimento do Atlântico Tropical Norte, a Zona de Convergência Intertropical (uma faixa de nuvens que circula todo o globo terrestre na região equatorial) fica posicionada mais ao norte e, com isso, o vapor de água gerado na superfície do Atlântico é transportado para regiões de latitude mais alta, em vez de chegar à Amazônia. Schöngart assinala que os efeitos neste ano são ainda mais fortes porque estamos em uma fase quente da Oscilação Multidecadal do Atlântico, que  acontece a cada três ou quatro décadas.

“Essas oscilações são naturais, mas há também indícios de influência humana nesse processo de aquecimento do Atlântico Norte. Com as emissões de gases de efeito estufa, o cinturão de ventos do Hemisfério Sul migrou mais em direção à Antártica nas últimas décadas, o que provavelmente está relacionado ao buraco na camada de ozônio naquele continente e ao aumento das concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera. Com essa mudança, as águas superficiais do Oceano Índico acabam passando ao redor da África do Sul e invadindo o Oceano Atlântico. Essas águas contribuem com o aquecimento das águas superficiais na região tropical do oceano”, acrescenta.

A combinação de todos esses fatores produziu uma redução brutal da precipitação na Amazônia neste ano, transformando a seca meteorológica - caracterizada pela falta de chuvas - em uma seca hidrológica, que se reflete nos baixos níveis de água dos rios, com impactos graves para a biodiversidade. 

“É por isso que estamos vendo pela imprensa as imagens de mortes de botos, pirarucus e peixes-boi. O volume de água fica menor, fazendo com que ela se aqueça rapidamente. O impacto desse fenômeno é particularmente sério para as populações ribeirinhas, que ficam isoladas, com dificuldade de obter serviços essenciais como abastecimento de água, comida, saúde e educação. Muitos municípios já estão sem acesso, pois os barcos não chegam”, lembra Schöngart.

Desde 23 de setembro, com a seca se alastrando fortemente pela Amazônia e a temperatura da água subindo, 153 botos foram encontrados mortos na região: 130 cor-de-rosa e 23 da espécie tucuxi, de acordo com o Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM). Apenas no dia 28, quando a temperatura da água bateu 39,1°C, foram registradas 70 carcaças de botos, além de centenas de peixes. Desde o início dessa crise, integrantes do IDSM e de pelo menos outras 21 organizações, incluindo o WWF-Brasil, estão correndo contra o tempo para mitigar os impactos da emergência ambiental e sanitária que se abateu sobre o Lago Tefé, no Médio Solimões, interior do estado do Amazonas.
 

Calor e fogo


Com o ar mais quente e a floresta mais seca, as queimadas se alastram e agravam ainda mais o problema. O fogo lança na atmosfera grande quantidade de aerossóis, partículas que, em circunstâncias normais, são emitidas pela própria floresta, favorecendo a formação de chuva, pois é em torno delas que a água se condensa formando nuvens. Com as queimadas, enormes quantidades de aerossóis são emitidas para a atmosfera, mas como há pouco vapor d’água na atmosfera, a formação de nuvens é suprimida e acaba ocorrendo apenas em grandes altitudes.

“Por causa da altitude, essas chuvas são geladas e esporádicas, insuficientes para recarregar os rios. Mas que muitas vezes formam temporais com ventanias fortes, que chegam a derrubar árvores. Nesta seca, já vimos até mesmo granizo aqui em Manaus, mesmo com temperaturas extremamente altas na cidade”, diz Schöngart. 

O pesquisador relata que, no momento, o calor está muito mais intenso que o normal em Manaus e que, há alguns dias, um incêndio em um fragmento florestal nas vizinhanças de sua residência tornou o cenário local infernal. “Ainda tenho na mente as imagens da região completamente inundada há apenas dois anos e agora vemos tudo seco e em chamas. Não há dúvida de que a situação é grave na Amazônia com esses extremos. Nos últimos 15 anos, tivemos as quatro maiores cheias e as duas maiores secas da história na região central da Amazônia”, alerta.
 

Sinais de colapso


Os especialistas em ecologia vegetal Beatriz Schwantes Marimon e Ben Hur Marimon Jr, pesquisadores da Universidade do Estado de Mato Grosso, monitoram, há mais de 30 anos, a degradação da floresta em 60 áreas espalhadas pelo Sul da Amazônia. Ali, embora não haja registros de redução da vazão de grandes rios, o equilíbrio do bioma é mais frágil e já há sinais de colapso - uma amostra do que pode ocorrer com outras partes da Amazônia caso persista a combinação de desmatamento, queimadas e mudanças climáticas, com ondas cada vez mais extremas de secas e calor.

“A mudança climática é tão rápida que nossos modelos climáticos tradicionais, embora estejam muito bem adaptados, não conseguem acompanhá-la”, destaca Ben Hur. “Fica difícil saber, por exemplo, se teremos uma queda drástica da vazão de rios. Mas a experiência nos mostrou que isso acontece aqui também em função do El Niño, como o que ocorreu em 2016”.

Mas, se ainda não afeta os rios, a seca está produzindo diversos outros efeitos negativos no Sul da Amazônia. Região de transição para o Cerrado, a área tem muitas plantações, que já estão sendo castigadas pela falta de chuva. “As chuvas deveriam ter começado em setembro e, em outubro, seria a época do início do plantio. Mas o atraso das chuvas não permitiu isso e pode fazer com que se perca a safrinha, que é o segundo plantio que é feito tradicionalmente”, explica Ben Hur. 

Além do impacto na agricultura, a estação seca cada vez mais longa produz altas temperaturas, com picos acima dos 40 graus por muitos dias, com chuvas abaixo da média. “Com isso, a disponibilidade de água para as plantas é muito menor e a floresta começa a sentir. Essa escassez de água tende a rebaixar o lençol freático e os piores efeitos provavelmente irão aparecer na próxima estação seca, em 2024”, diz o pesquisador. 

“A estiagem deste ano está sendo exacerbada por um El Niño considerado ainda mais forte que o de 2016 e 2017, que produziu uma seca histórica. Os efeitos estão mais intensos e o rebaixamento do lençol freático está sendo tão grande que ele dificilmente será reabastecido na época de chuvas”, afirma Beatriz.
 

Grandes árvores


Esse processo terá impacto dramático nas árvores da Amazônia. “As árvores de grande porte levam em torno de dois anos para morrer, porque elas têm reservas, suas raízes são profundas e conseguem acessar a água. Por isso, não vemos tantas delas morrendo imediatamente. Mas, com o rebaixamento do lençol freático, depois de dois anos, o estresse é tão grande que a árvore não suporta”, explica a pesquisadora.

Quanto mais alta é uma árvore, mais dificuldade ela tem de resistir a uma seca extrema. “E são justamente essas grandes árvores as responsáveis pela estabilidade da floresta. Quando elas morrem, a vegetação nas bordas da área desmatada é alterada. Há uma maior incidência de luz lateral, começa uma invasão de gramíneas, que se proliferam e se transformam em combustível para queimadas. Esse processo leva mais árvores à morte e há um efeito progressivo, como um dominó, levando à degradação total da floresta", pontua Ben Hur. 

Neste momento, enquanto a seca ainda é severa, as queimadas estão avançando pelo Sul da Amazônia. “Há vastas áreas onde os grileiros produzem incêndios criminosos e, nessas condições, as chamas se alastram com muita facilidade - e aí a catástrofe é completa”, salienta Beatriz. 

Essa combinação de fatores leva à degradação da floresta em porções cada vez maiores do Sul da Amazônia. Os dados levantados pelos cientistas indicam que várias áreas já mostram sinais de colapso - e são um exemplo claro do processo de degradação conhecido como ponto de não-retorno, que poderá se alastrar pela Amazônia.  

"A situação em várias das regiões onde trabalhamos é dramática, com florestas se degradando rapidamente, córregos secando e pequenos rios se tornando intermitentes. Isto tudo na borda sul da Amazônia, de onde o problema progride rapidamente em direção ao centro do bioma", diz Ben Hur. Segundo ele, nessas áreas degradadas, a mortalidade de árvores é alta e o número de espécies diminui. Isso tem impacto em toda a cadeia alimentar, reduzindo a biodiversidade de maneira generalizada. 
 

Degradação estrutural


Esse processo está modificando a estrutura da floresta - o que compromete todos seus serviços ecológicos, incluindo a formação dos "rios voadores", que garantem as chuvas no restante do continente.  "O que encontramos nessas áreas degradadas são espécies pioneiras amazônicas que começam a tomar conta do ambiente. A estrutura da floresta começa a mudar e, em vez da floresta primária, altamente diversa, o que encontramos é uma floresta secundária totalmente degradada", afirma Ben Hur.

Um estudo feito pelo casal e publicado em 2014 mostra que as florestas de transição - típicas do sul da Amazônia - são hiperdinâmicas, isto é, elas têm grande mortalidade de espécies, mas também têm grande capacidade de se estabelecer com o “recrutamento” de novos indivíduos.  "O problema é que essa dinâmica se inverteu e os 'recrutas' não conseguem retornar. Com isso, a mortalidade começa a predominar. Temos observado esse processo, que é uma evidência de um ponto de não-retorno", relata Beatriz.

Com essa dinâmica em curso, a floresta fica cada vez mais vulnerável. Os pesquisadores salientam, por exemplo, que o fogo agora atinge áreas que antes não queimavam. "Também notamos que árvores grandes muitas vezes estão morrendo por conta de quebra. Aparentemente, isso acontece porque a intensidade dos ventos ficou maior", diz Beatriz.

Nessas condições de degradação, a resiliência da floresta diante do fogo é muito menor, conclui Ben Hur: "Normalmente, quando a floresta perde biomassa, recupera naturalmente mais tarde e o equilíbrio de todo o bioma se mantém. Mas quanto maior é o número de árvores perdidas, maior é a perda de sombreamento. Isso intensifica os efeitos da seca e reduz ainda mais o nível de chuvas, o que tende a agravar toda a situação. É um efeito dominó que pode atingir níveis inimagináveis.”
 

O que o WWF-Brasil está fazendo


O WWF-Brasil tem agido em parceria com o Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, que está liderando o resgate de botos na região de Tefé, no interior do Amazonas, fornecendo combustível, Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), insumos veterinários e apoio logístico para o deslocamento de voluntários. 

Também estamos em contato com parceiros locais e mobilizados para apoiá-los no enfrentamento da crise humanitária causada pela seca na região amazônica, pois as consequências são especialmente dramáticas para as populações mais vulneráveis, como indígenas, quilombolas, extrativistas e ribeirinhos. Neste momento, nossa principal frente de atuação é no fornecimento de alimentos para comunidades impactadas pelo desabastecimento.
 



 
Desde 23 de setembro, com a seca se alastrando fortemente pela Amazônia e a temperatura da água subindo, 153 botos foram encontrados mortos na região de Tefé, Amazonas
Desde 23 de setembro, com a seca se alastrando fortemente pela Amazônia e a temperatura da água subindo, 153 botos foram encontrados mortos na região de Tefé, Amazonas
© André Coelho / Instituto Mamirauá
Efeito dominó
Efeito dominó" em MT,no Sul da Amazônia: seca extrema mata árvores de grande porte, reduzindo a resiliência da floresta, com aumento das queimadas que matam mais árvores
© Ben Hur Marimon Junior e Beatriz Schwantes Marimon
Floresta queimada recentemente no interior do Mato Grosso: a seca extrema cria condições favoráveis ao fogo.
Floresta queimada recentemente no interior do Mato Grosso: a seca extrema cria condições favoráveis ao fogo.
© Ben Hur Marimon Junior e Beatriz Schwantes Marimon
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