Soluções e demandas para Sistemas Alimentares Sustentáveis são postas à mesa

17 outubro 2023

Eventos inspirados em estudo da USP, realizado com o apoio do WWF-Brasil, promoveram diálogos em quatro regiões do país
Por Fabíola Mattos, do WWF-Brasil 

O Brasil, um país de dimensões continentais, enfrenta desafios significativos quando se trata de alimentação. Embora seja um dos maiores produtores agrícolas do mundo, também lida com altos índices de obesidade, insegurança alimentar e problemas ambientais relacionados à atividade agropecuária. Pensando em mapear essas características tão distintas, o núcleo Sustentarea da USP (Universidade de São Paulo), com o apoio do WWF-Brasil, elaborou um relatório ilustrado que fornece insights valiosos com o objetivo de orientar articulações e políticas públicas de desenvolvimento sustentável e redução das desigualdades nos sistemas alimentares, de acordo com as necessidades de cada região. 

O estudo identificou quatro realidades distintas no país, um achado que serviu de base para a realização de quatro eventos que promoveram diálogos das pessoas em seus territórios em busca de soluções regionais voltadas a Sistemas Alimentares Sustentáveis (SAS) - um conceito que define um conjunto de atividades envolvidas na produção, processamento, distribuição, preparo, consumo e descarte de alimentos, de forma socioambientalmente correta, com objetivo de garantir a segurança alimentar e nutricional para a sociedade.  

Implementar esses sistemas em sua totalidade no Brasil é um desafio complexo, mas crucial para garantir a saúde da população e a proteção do meio ambiente. Para isso, é necessário o envolvimento de diferentes esferas do governo, iniciativa privada, instituições de ensino e toda a sociedade, de modo sejam acessados todos os domínios necessários para a promoção de SAS: social, nutricional, econômico e ambiental. 
 

Diálogos pelo futuro da alimentação  


Apoiado por universidades e organizações locais, o WWF-Brasil articulou encontros de jovens, ativistas, ONGs (organizações não governamentais), representantes de governos e especialistas para discutir o cenário da alimentação nas quatro macrorregiões identificadas no Índice Multidimensional de Sistemas Alimentares Sustentáveis Revisado para o Brasil. Os temas abordados incluíram insegurança alimentar, contaminação mercurial e por agrotóxicos, monocultura de grãos, desmatamento e o potencial da sociobiodiversidade. 

Os eventos ocorreram entre março e agosto de 2023 e tiveram como objetivo promover a troca entre pessoas locais e fomentar redes e articulações. "Criamos espaços para as pessoas em seus territórios dialogarem sobre como está se dando a alimentação diante dos desafios socioambientais iminentes no Brasil. Agora, ao fim dos encontros, temos insumos tanto para intervir em nossa estratégia relacionada à essa agenda, quanto para incidir sobre outros importantes atores na busca por soluções", explica Raquel Tupinambá, analista de conservação e líder do projeto no WWF-Brasil. 

 


Conheça mais os quatro "Brasis" e suas vozes  


Grupo A 

Estados exportadores de alimentos: Região marcada por concentração de agronegócio, onde existe uma maior contribuição da agricultura para o PIB local além de melhor remuneração e infraestrutura de trabalho. No entanto, há também maior uso da água para a produção de alimentos e maior emissão de CO2 pela produção e consumo individual de alimentos. A região está em primeiro lugar em intoxicação por agrotóxicos. 

“O Cerrado é um bioma muito rico, cerca de 40% do endemismo e 30% da biodiversidade do Brasil está aqui, e estamos perdendo toda essa riqueza para a monocultura, perdendo nosso território. Temos que pensar em consumir localmente, voltar a comer o que é produzido no bioma, mas para isso acontecer falta política pública, falta assistência técnica para a sociobiodiversidade, no momento só pecuária e monocultura recebem ajuda”, diz Luis Carrazza, da Central do Cerrado, um conjunto de cooperativas e associações do Cerrado, da Caatinga e da Amazônia que produzem de forma sustentável.  

 “A desigualdade da fome é algo que nos preocupa muito. O quanto que nós produzimos... E por que que não chega na mesa? Por que há tanta gente passando fome? Tem algo errado gente!”, afirma Sandra Braga, liderança do Quilombo Mesquita, de Goiás. 
 

Grupo B 

O melhor desempenho, com ressalvas: Apesar da relativa boa performance do sistema alimentar, este grupo mostrou maior desigualdade de gênero e raça no campo, maior uso de agrotóxico e foi o segundo com maior número de notificações de intoxicação por agrotóxico na agricultura.  

"Esse diálogo precisa ser ampliado. A experiência que ocorreu hoje, é importante que continue, que tenha algo permanente. Articular com a política pública e a gente pensar projetos que vão fazer a diferença nos territórios", diz Noemia de Oliveira, Agricultora e articuladora do coletivo Perifa Alimenta, de São Paulo. 

“A gente percebe uma alimentação que precisa de várias mudanças, ainda com muitos elementos ultraprocessados, excesso de açúcar, excesso de sal, baixo consumo de hortaliças, por exemplo”, salienta Soraya Selem, Nutricionista escolar, de São Paulo. 

Grupo C

Os estados com pior desempenho: Estados do Nordeste são os mais pobres do país. O passado colonial deixou marcas na distribuição de terras, desigualmente concentrada nas mãos da aristocracia branca. Até hoje, o poder público não conseguiu promover mudanças estruturais, necessárias para desenvolvimento socioeconômico da região. 

"As dificuldades enfrentadas pelos pequenos produtores são tantas, que eles vendem toda a sua plantação por trinta centavos e os supermercados revendem o mesmo produto a R$ 2,50. Se a demanda fosse conhecida, os agricultores não precisariam plantar tanto para venderem por um valor irrisório", destaca Fátima Torres, pedagoga e diretora da UNICAFES (União Nacional das Cooperativas de Agricultura Familiar e Economia Solidária) do Rio Grande do Norte e da UNICAFES Nacional 

"Jamais vou querer uma semente transgênica no meu campo. É motosserra, veneno, fogo, tudo destruindo o que a natureza construiu. A Natureza, o bioma da caatinga, é uma Universidade" Seu Golinha, Guardião de Sementes, Rio Grande do Norte 
 

Grupo D

O pior cenário de segurança alimentar e nutricional: Estados ocupados pela floresta Amazônica com a maior concentração de áreas preservadas do país. Áreas hoje ameaçadas pela expansão do agronegócio, trazendo monoculturas, pecuária extensiva, acumulação de terras e trabalho informal no campo. Apesar da rica biodiversidade, foi encontrado o pior cenário de insegurança alimentar e nutricional, com menor acesso e disponibilidade de alimentos, menor diversidade na dieta, junto a maior carga de desnutrição crônica infantil. 

"A maior parte do que a gente consome de alimento no Amapá precisa chegar de alguma outra região do Brasil. Então, isso encarece os nossos o acesso ao alimento", diz Yuri Silva, diretor técnico no Instituto Mapinguari no Amapá 

"É uma calamidade pública a contaminação que nos afeta, a gente já sente o esquecimento, mulheres tendo muito aborto espontâneo, câncer, crianças nascendo com comorbidades e deficiências. Os produtos da floresta estão comprometidos. Por isso, precisamos desse olhar emergente e responsável do governo e todos que trabalham nessa área, porque nós estamos pedindo socorro", frisa Zenilda Maria Bentes, do Conselho da Terra Indígena Kumaruara, de Rondônia. 

 Para mais detalhes, acesse o relatório ilustrado
Implementar sistemas alimentares sustentáveis em sua totalidade no Brasil é um desafio complexo, mas crucial para garantir a saúde da população e a proteção do meio ambiente.
Implementar sistemas alimentares sustentáveis em sua totalidade no Brasil é um desafio complexo, mas crucial para garantir a saúde da população e a proteção do meio ambiente.
© Tuane Fernandes / WWf-Brasil
O estudo identificou quatro realidades distintas no país, um achado que serviu de base para a realização de quatro eventos que promoveram diálogos das pessoas em seus territórios em busca de soluções regionais voltadas a Sistemas Alimentares Sustentáveis (SAS)
O estudo identificou quatro realidades distintas no país, um achado que serviu de base para a realização de quatro eventos que promoveram diálogos das pessoas em seus territórios em busca de soluções regionais voltadas a Sistemas Alimentares Sustentáveis (SAS)
© WWF-Brasil
Estados ocupados pela floresta Amazônica tem a maior concentração de áreas preservadas do país, mas também o pior cenário de segurança alimentar e nutricional.
Estados ocupados pela floresta Amazônica, onde aconteceu o encontro retratado acima, têm a maior concentração de áreas preservadas do país, mas também o pior cenário de segurança alimentar e nutricional.
© Fernanda Ligabue / WWf-Brasil
 Apesar da relativa boa performance do sistema alimentar, o grupo onde estão concentrados os estados do Sudeste, onde aconteceu o encontro da foto, mostrou a maior desigualdade de gênero e raça no campo
Apesar da relativa boa performance do sistema alimentar, o grupo onde estão concentrados os estados do Sudeste, onde aconteceu o encontro da foto, mostrou a maior desigualdade de gênero e raça no campo
© Tuane Fernandes / WWF- Brasil
 Estados do Nordeste, onde aconteceu o encontro, são os mais pobres do país. O passado colonial deixou marcas na distribuição de terras, desigualmente concentrada nas mãos da aristocracia branca
Estados do Nordeste, onde aconteceu o encontro, são os mais pobres do país. O passado colonial deixou marcas na distribuição de terras, desigualmente concentrada nas mãos da aristocracia branca
© Lara Zamparo / WWF-Brasil
A região Centro-Oeste, onde foi o encontro, é marcada por concentração de agronegócio, onde existe uma maior contribuição da agricultura para o PIB local além de melhor remuneração e infraestrutura de trabalho. No entanto também é a região com mais intoxicação por agrotóxico
A região Centro-Oeste, onde foi o encontro, é marcada por concentração de agronegócio, onde existe uma maior contribuição da agricultura para o PIB local além de melhor remuneração e infraestrutura de trabalho. No entanto também é a região com mais intoxicação por agrotóxico
© Myke Sena / WWF-Brasil
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