Desde as fazendas até as nossas casas, uma quantidade estarrecedora de alimentos é desperdiçada, e quando isso acontece, não desperdiçamos apenas o alimento, mas todos os recursos naturais que são utilizados em sua produção e ainda o trabalho de milhares de pessoas.

A produção alimentar tem um impacto enorme no meio ambiente. Da fazenda à mesa, a comida é desperdiçada em cada etapa da viagem. E uma quantidade surpreendente desse desperdício poderia ser evitada.

Nós interagimos com alimentos diariamente. E cada interação nos oferece uma oportunidade de fazer escolhas mais inteligentes para desperdiçar 1/3 a menos.

POR QUE IMPORTA?

No processo de produção e consumo de alimentos são usados a maior parte de todos os solos disponíveis e de água doce na da Terra. Essa é a maior causa de desmatamento e de emissão de gases do de efeito estufa que estão causando mudanças climáticas, que por sua vez, aumentam ainda mais as quantidades de comida perdida no campo, já que mudanças bruscas de temperatura e regimes de chuva podem levar a perda de safras inteiras. É um ciclo fadado ao fracasso, pois a cada ano atingimos o limite de regeneração natural do planeta (saiba mais sobre o processo de sobrecarga da Terra).

Isso ameaça a vida selvagem terrestre e está levando populações de peixes ao colapso, por exemplo. No entanto, se conseguirmos combater o desperdício desses alimentos, garantimos que muitos recursos naturais não serão usados inutilmente. Isso também significa mais eficiência na distribuição de alimentos e redução da necessidade de produzir comida em excesso, já que estamos tentando alimentar uma população crescente.

Veja abaixo o que seria possível se o mundo desperdiçasse 1/3 a menos:

As informações acima são apenas alguns exemplos do potencial impacto positivo na redução da perda e do desperdício de alimentos, já que a redução do desperdício tem um impacto diferente em cada momento da jornada de um alimento.

Por exemplo: uma cenoura perdida no campo por qualquer motivo teve menos gases causadores de efeito estufa (GEE) “embutidos” em seu desperdício do que uma desperdiçada numa residência, considerando que ela foi transportada, armazenada, manipulada e refrigerada até ir para o lixo. Além disso, depois de descartados em casa, muitos alimentos terminam em aterros sanitários e sua decomposição emite ainda mais GEE.

E no Brasil?

O Brasil ainda não tem dados consolidados sobre a quantidade de alimentos desperdiçados do campo à mesa. Mas sendo um país em que a produção de alimentos é uma das principais atividades econômicas e em que há desafios logísticos e tecnológicos nessa indústria, é possível inferir que as perdas e o desperdício de alimentos sejam um grande problema ambiental e econômico no nosso país.

 

Aqui estão alguns dados sobre hábitos do consumidor brasileiro que levam ao desperdício de alimentos, que podem ajudar a entender melhor o seu “perfil de desperdiçador”

  • O ranking dos alimentos mais desperdiçados mostra arroz (22%), carne bovina (20%), feijão (16%) e frango (15%) com os maiores percentuais relativos ao total desperdiçado pela amostra pesquisada. Hortaliças (4%) e Frutas (4%) são desperdiçados em menor quantidade relativa ao volume total;

  • 52% dos respondentes consideram importante ter fartura;

  • 77% consideram importante que a comida seja fresca;

  • 68% dos respondentes consideram importante que a dispensa esteja cheia;

  • 59% não dão importância se houver comida demais

Fonte: Intercâmbio Brasil, União Europeia sobre desperdício de alimentos – Porpino, G.; Lourenço, C. E.; Araújo, C.M.; Bastos, A,. 2018.

Pesquisa de 2018 realizada pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) com apoio do WWF-Brasil estima que as famílias brasileiras jogam fora em média 128,8 kg de alimentos por ano, ou 41,6 kg de alimentos per capita no mesmo período.

Contabilizando todo esse desperdício chegamos a mais de R$1500,00 por ano, ou mais de R$127,00 jogados no lixo junto com a comida!

© WWF-Brasil/Bruno Taitson

ONDE E COMO PODEMOS CONTRIBUIR PARA A REDUÇÃO DO DESPERDÍCIO?

Alimentar o mundo está longe de ser um processo eficiente, e da fazenda à mesa, o alimento é perdido em cada etapa do processo.

 

 

No supermercado

Seja por pouco planejamento, por cederem a ofertas especiais ou simplesmente por não quererem ir várias vezes ao mercado, muitos consumidores tendem a comprar muita comida. Como resultado, muitas geladeiras e cozinhas são preenchidas por alimentos esquecidos apenas esperando para serem jogados na lixeira.

Prateleiras fartas e cheias de comida nos deixam mais abertos à compra. Porém, elas são recheadas de mais produtos do que podem ser vendidos, apenas para aumentar o apelo visual e as oportunidades de venda. Além disso, o manuseio bruto enquanto escolhemos o produto vai literalmente arruiná-lo para outros compradores, fazendo com que não possam ser vendidos e sejam descartados.

Tudo isso contribui com a grande quantidade de produtos restantes que serão descartados.
 
Pela tendência da maioria dos consumidores de evitar alimentos com formatos diferentes ou descolorações, muitos varejistas estabelecem padrões estéticos para os produtos e nem compram dos agricultores os alimentos que possuem aparência diferente. Isto significa que toneladas de produtos em perfeito estado são descartados nas fazendas.
 
Se os compradores fossem mais receptivos com produtos de aparência diferente e os varejistas, mais preparados para vendê-los, muito desse desperdício seria evitado.

        © WWF / Richard Stonehouse

      © Katrin Havia/WWF-Finlândia

Em restaurantes

Onde grandes quantidades de refeições são preparadas diariamente, existem muitas oportunidades de desperdício. Enquanto consumidores têm pouco controle sobre certas práticas industriais de desperdício, ao comer fora, nós temos um poder de decisão sobre o desperdiçar ou não o que está no nosso prato.

Como se não bastasse o elevado nível de desperdício nos restaurantes, ainda há uma falácia popular na indústria do serviço alimentar de que uma certa quantidade de desperdício é o custo de se fazer negócios. Porém, claramente, já existe uma perspectiva de que as empresas podem rastrear, mensurar e otimizar processos para minimizar o desperdício de alimentos – e aumentar os lucros.

Em casa

Assim que o alimento entra em nossas casas, existem muitas formas do mesmo ser jogado fora sem ser consumido.

Tendemos a relacionar porções generosas com refeições feitas com carinho, mas muitas vezes isso só aumenta o descarte que vai para o lixo.

Nós podemos não saber como armazenar perecíveis adequadamente. Às vezes enchemos nossas cozinhas com comidas esquecidas, que se encontram fora da validade quando são lembradas.

Os rótulos em produtos nem sempre refletem necessariamente o momento em que o alimento está impróprio para consumo. Isto pode levar pessoas a jogarem fora alguns alimentos que permanecem em perfeito estado para consumo.

      © WWF-Brasil/Luciano Candisani