Biodiversidade Amazônica sob ameaça pela contaminação de mercúrio | WWF Brasil

Biodiversidade Amazônica sob ameaça pela contaminação de mercúrio



29 Agosto 2017   |  
Área degradada por mineração dentro do Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque, no Amapá
© © Zig Koch / WWF
Um estudo realizado pelo WWF-Brasil e ICMBio em 2015, e publicado em 2017, avaliou o nível de contaminação por mercúrio em espécies de peixes no interior e entorno do Parque Nacional do Tumucumaque e da Floresta Nacional do Amapá. Do total de animais amostrados (187), 151 dos peixes (81%) tiveram níveis de mercúrio detectados. Indivíduos de 5 das 8 espécies mais consumidas pelos habitantes da região excederam o limite estabelecido pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que é de 0.5 μg.g−1. Entre os rios amostrados, animais capturados nos rios Araguari, Tajaui e Mutum apresentaram a maior média de concentração de Hg.
 
A alta contaminação é resultado do uso indiscriminado de mercúrio na mineração de ouro em pequena escala, que cresceu dramaticamente na região norte da Amazônia nas duas últimas décadas, especialmente na área de fronteira entre Suriname e Guiana Francesa. Essa região é única, integra a ecorregião conhecida por Escudo das Guianas, que cobre aproximadamente 250 milhões de hectares, e que contém um dos últimos remanescentes gigantescos de floresta tropical do planeta.
 
Existe ainda um agravante, o limite estabelecido pela legislação brasileira para peixes predadores, os quais são definidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 1mg/kg, é o dobro do estabelecido pela OMS, adotado como referência nesse estudo. “Tal limite só faria sentido se associados a uma baixa taxa de consumo diário, o que não ocorre de fato. Esse é um tema polêmico, já que considerar algum nível de Hg como “seguro” para o organismo humano é questionado por diversas instituições e cientistas mundo afora”, revela Paulo Basta, pesquisador da escola nacional de Saúde - FioCruz.
 
“Esse foi apenas o início de uma iniciativa de longo prazo que visa avaliar potenciais impactos do mercúrio na biodiversidade local e nas populações ribeirinhas no norte da Amazônia, especialmente no estado do Amapá, incluindo as etnias indígenas locais. O objetivo é “contribuir com geração de conhecimento científico que possa balizar políticas públicas e ações coordenadas nos níveis estadual e federal para reduzir os impactos negativos na biodiversidade e na vida das pessoas”, explica Marcelo Oliveira, especialista de conservação do WWF-Brasil e coordenador do projeto.
 
As coletas que se restringiram a apenas duas unidades de conservação do estado serão ampliadas para 9 áreas protegidas (veja quadro), totalizando uma área de quase 6,5 milhões de hectares. Segundo o coordenador do Programa Amazônia, Ricardo Mello ”os resultados alarmantes requerem uma força tarefa tratando do tema”. Para isso, um grupo de trabalho formado por WWF, ICMBio,  IEPÉ, FIOCRUZ, IEPA, UFRJ, UNIFAP e PUC Rio vai iniciar uma nova fase do projeto já no segundo semestre de 2018. O objetivo será integrar analises ambientais (amostras atmosféricas, de solo, sedimentos, e de peixes) a um diagnóstico amplo da situação de saúde das populações tradicionais dessa região. Pesquisadores da FIOCRUZ realizarão além da avaliação de risco da contaminação por mercúrio em populações tradicionais, a estimativa da prevalência de doenças transmissíveis e não transmissíveis.
 
“ Esperamos com esse estudo cooperar com a elaboração de um plano de ação regional participativo para redução dos impactos do mercúrio advindos da atividade garimpeira no estado do Amapá e também subsidiar governos na implementação da Convenção de Minamata”, explica Ricardo Mello.
 
O mercúrio é um metal pesado, altamente tóxico, e seus compostos tem como alvo primário de toxicidade no organismo humano o metabolismo celular, ocasionando distúrbios principalmente no sistema nervoso central, nos rins e no sistema cardiovascular. Apesar de estar presente na natureza, os níveis altos desse elemento estão quase sempre relacionados ao seu uso no garimpo de ouro. Quando o mercúrio é queimado, no processo de separação do ouro, ele pode se espalhar por quilômetros através da atmosfera. As principais vias de contaminação são a exposição direta, por meio do contato dérmico e a inalação nos garimpos e a ingestão de peixes contaminados. A contaminação por mercúrio é um problema crescente em todos países Amazônicos e atualmente afeta direta ou indiretamente dezenas de milhares de pessoas.
No Amapá não é difícil encontrar pessoas contaminadas pelo metal. No garimpo do Lourenço (garimpo secular supostamente regularizado), por exemplo, relatos de garimpeiros atestando tremedeiras constantes e outros quadros clínicos mais graves comprovam que anos lidando com a atividade trouxeram sequelas irreversíveis. A crise econômica e o alto preço do ouro aquece ainda mais esse mercado. Nos últimos dois anos, a Policia Federal realizou diversas apreensões de ouro ilegal. Parafraseando um antigo ditado: onde há ouro há mercúrio!
 
Parque Nacional  Montanhas do Tumucumaque      3.865.143
Reserva Biológica Lago Piratuba 395.000
Floresta Nacional do Amapá 412.000
Parque Nacional do Cabo Orange 619.000
Estação Ecológica de Maracá Jipioca 72.000
Terra Indígena Uaçá 470.164
Terra Indígena Wajãpi 607.017
Terra Indígena Juminá 41.601
Terra Indígena Galibi 6.689
  6.488.614
 
 
Área degradada por mineração dentro do Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque, no Amapá
© © Zig Koch / WWF Enlarge

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