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NOVAS AMEAÇAS NO AMAZONAS 

WWF e FVA trabalham para evitar queimadas e combater o fogo no Mosaico do Baixo Rio Negro e na região metropolitana de Manaus

 

01 de junho de 2020

 

Não é apenas pelas bordas da Amazônia que as queimadas e incêndios florestais são um risco para a biodiversidade, os ecossistemas e a população. Na região central do bioma, perto da capital do Amazonas, Manaus, o fogo também é uma grande ameaça aos recursos naturais de uma região conhecida como Baixo Rio Negro.

Lá, as principais causas das queimadas são o uso do fogo para limpar áreas e a especulação imobiliária causada pela expansão urbana descontrolada de Manaus. Nos últimos anos, o Mosaico do Baixo Rio Negro tem recebido apoio técnico e financeiro do WWF-Brasil.

“Historicamente, o fogo no arco do desmatamento no Sul do Amazonas e em Mato Grosso são causados ​​pela pressão madeireira, gado e soja”, diz Fabiano Lopez da Silva, coordenador-executivo da Fundação Vitória Amazônica (FVA). “Mas, na região central do Amazonas, muitas queimadas estão associadas à abertura de estradas irregulares para a expansão das cidades e à lida com roçados”.

Silva lembra que, em 2015, houve grandes queimadas na região devido à falta de capacidade técnica de pequenos agricultores. Em 2019, a situação não foi pior porque foi um ano chuvoso. “Fazemos capacitações para manejo de fogo em roçados ou roçados sem fogo”, salienta Silva. 

Ele explica que o desmatamento e ocupações irregulares geralmente envolvem políticos e grileiros. "Os principais trechos de ocupação estão entre os municípios de Manaus e Novo Airão e cresceram depois da construção da Ponte Rio Negro, em 2011", afirma o coordenador-executivo da FVA. “A pessoa abre uma estrada e começa a lotear a floresta e a vender terrenos”.

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Queimada no Mosaico do Baixo Rio Negro. Miqueias Santos de Souza (à esq.), gerente da RDS, fiscaliza a região. À direita, agente flagra ação de madeireiros.

RESERVA DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL DO RIO NEGRO

As áreas protegidas mais ameaçadas da região são as Reservas de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Tupé, Puranga-Conquista e do Rio Negro; e a Área de Proteção Ambiental da Margem Esquerda do Rio Negro.

A RDS do Rio Negro faz limite com duas rodovias estaduais, a AM-070, que liga Manaus a Manacapuru, e a AM-352, que liga Manacapuru a Novo Airão, enfraquecendo a reserva. “A RDS do Rio Negro é a área protegida mais próxima da região metropolitana e começou a sofrer muito mais pressão após a inauguração da ponte”, diz Miqueias Santos de Souza, gerente da Unidade de Conservação. Souza ressalta que todas as áreas protegidas da região são impactadas por invasões e especulação imobiliária.

As queimadas são uma questão relativamente nova para os moradores do Mosaico do Baixo Rio Negro e da região metropolitana de Manaus. Há duas décadas, o fogo dos roçados não avançava sobre a floresta porque ela se mantinha bastante úmida. Porém, com as mudanças climáticas, a umidade está diminuindo e a floresta está se tornando cada vez mais seca, aumentando os riscos de incêndios florestais.

Um estudo de 2015 do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) alertou que a construção da Ponte Rio Negro, que liga Manaus ao município de Iranduba, poderia abrir uma nova fronteira para o desmatamento. A ponte liga Manaus, o maior centro econômico da Amazônia brasileira, a uma região com grandes áreas de floresta.

Dados da FVA, organização social e ambiental conhecida na região, mostram que, nos últimos dez anos, as queimadas na região metropolitana de Manaus se tornaram cada vez mais frequentes.

Em 2016, os meses de janeiro e julho apresentaram grandes aumentos no número de queimadas: 1.600% e 200%, respectivamente, na comparação com os mesmos períodos do ano anterior. E, de lá para cá, o problema se intensificou. Em fevereiro de 2019, o Governo do Amazonas decretou situação de emergência no Sul do estado e na região metropolitana de Manaus devido ao desmatamento ilegal e às queimadas. De janeiro a julho do ano passado, o Amazonas registrou 1.699 focos de calor.

TREINAMENTOS E EDUCOMUNICAÇÃO

Para combater o fogo e preparar as comunidades para lidar com esse problema, a FVA trabalha desde setembro com o apoio de um fundo de emergência criado pelo WWF. Essa iniciativa inclui treinamento de brigada, doação de equipamentos - como mochilas costais anti-incêndio, capacetes, luvas, abafadores, óculos de proteção e rádios de comunicação - e boletins de aviso de perigo de queimadas.

FVA / WWF-Brasil

Outro aspecto importante desse trabalho é que ele também envolve ações de educomunicação - ou seja, produção de materiais que abrem espaço para questões das populações ribeirinhas do Rio Negro.

Nas reuniões do projeto, na cidade de Novo Airão, os moradores das comunidades do Rio Negro receberam treinamentos de combate e prevenção de queimadas; além de aulas para produzir podcasts que podem ser transmitidos nas rádios comunitárias da região, e que podem ser compartilhados por aplicativos como o WhatsApp. Em um encontro realizado em dezembro de 2019, os membros da comunidade participaram de oficinas sobre primeiros socorros, mudanças climáticas e técnicas de corte sem uso de fogo.

De acordo com uma das coordenadoras do projeto, a jornalista Ana Cíntia Guazzelli, a iniciativa da FVA funciona igualmente em ambas as frentes - treinando os membros da brigada do Rio Negro e usando ferramentas de comunicação para prevenir e reduzir incêndios. "Nós, realmente, precisamos de membros da brigada em uma posição adequada e eficaz para combater o fogo, mas também precisamos desenvolver campanhas de conscientização que trabalhem na prevenção e redução de focos de queimadas", diz ela.

Cerca de 35 membros da comunidade estão envolvidos no treinamento de brigada, que beneficia aproximadamente 1.000 pessoas - todos moradores de comunidades do Mosaico do Baixo Rio Negro.

Brenda Monique da Silva, de 18 anos, considerou muito importante o desenvolvimento de produtos de comunicação. “Rádio é o principal meio de comunicação da população ribeirinha. Acho que os programas que criamos podem ajudar a aumentar a conscientização e mobilizar as pessoas para combater as queimadas”, afirma.

A jovem trabalha como consultora técnica da Associação de Povos e Comunidades Tradicionais da RDS Puranga-Conquista. Também é repórter no projeto Tocando o Barco, uma iniciativa que busca transformar jovens líderes do Rio Negro em jornalistas. Brenda usou sua experiência como comunicadora para ajudar os colegas a produzir os podcasts.

ROÇADO SEM FOGO

Cledson Roberto do Amaral, de 40 anos, morador da comunidade Pagodão na RDS Puranga-Conquista, ficou surpreso com a possibilidade de limpar seu roçado sem o uso do fogo. “Entendi que limpar nossas terras sem fogo é muito mais útil e interessante para nós, ribeirinhos. Sem fogo, é possível usar a terra por muito mais tempo e ter um produto sustentável, reduzindo o risco de as chamas escaparem para a floresta”, diz Amaral.

Edilene Neri de Souza, consultora técnica da Secretaria de Meio Ambiente do Amazonas, participou do treinamento de brigada realizado em dezembro. Ela destacou uma das características mais importantes dessa capacitação: envolver os próprios moradores das áreas protegidas: “Os membros da brigada estão dentro das áreas protegidas. Eles conhecem a região, conhecem as pessoas que podem ajudar em situações difíceis e complexas. Podem fazer um primeiro combate de maneira qualificada, e isso é crucial para reduzir os danos à floresta e ao ecossistema".

PARCERIA COM O WWF

O foco do trabalho é o combate a queimadas em quatro unidades de conservação, totalizando 676.068 hectares, que estão sob intensa pressão: Parque Nacional Anavilhanas, Parque Estadual Rio Negro Setor Norte, Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Negro e Reserva de Desenvolvimento Sustentável Puranga-Conquista.

A FVA atua no Mosaico do Baixo Rio Negro, que é composto por 12 unidades de conservação que protegem uma grande diversidade de espécies da fauna e da flora, muitas delas ameaçadas. Essas características conferem a essa região, que está inserida no Corredor Central da Amazônia (CCA), na Reserva da Biosfera da Amazônia Central (RBAC), no Sítio Ramsar do Rio Negro e em parte da região em Patrimônio Natural da Humanidade, a classe de área de extrema importância para conservação.

O Mosaico do Baixo Rio Negro possui 42% de sua área dentro da região metropolitana de Manaus, que abrange 13 municípios. A população de Manaus cresceu 25,5% em 10 anos, de 1,73 milhão de habitantes em 2009 para 2,18 milhões em 2019, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A cidade é a mais populosa da região Norte e a sétima entre as capitais brasileiras.

Um dos motivos do crescimento populacional de Manaus é a retomada dos investimentos públicos em grandes projetos de infraestrutura, que atraíram mais moradores e também aumentaram os números de queimadas e de desmatamento.

TREINAMENTO DE BRIGADA DE COMBATE AO FOGO