Natureza conservada é escudo contra novas pandemias | WWF Brasil

Natureza conservada é escudo contra novas pandemias



07 outubro 2020    
Tráfico de animais, desmatamento e mudanças climáticas estão entre os fatores para novas crises
© WWF
Tráfico de animais, desmatamento e mudanças climáticas estão entre os fatores de risco para novas crises sanitárias

Por WWF-Brasil


A pandemia de COVID-19 não foi a primeira e nem será a última doença transmitida por animais a solapar economias e vidas humanas. Ao contrário. Cientistas alertam que este pode ser apenas o início de um novo ciclo de doenças infeciosas emergentes capazes de ganhar escala mundial. Cuidar do meio ambiente e das pessoas e frear a crise climática global, por enquanto, são antídotos de que dispomos. É preciso agir. E rápido.

A criação, coleta e tráfico de animais, na qual espécies silvestres, animais domésticos e humanos convivem de forma intensiva, por longos períodos de tempo e em péssimas condições, pode aumentar as chances de ocorrência de um novo surto. Além disso, a criação intensiva de animais próxima a áreas naturais, sem os devidos protocolos de segurança e vigilância epidemiológica, também é um fator de risco.  

Também aparecem como ameaça o agravamento da crise climática –provocada pelas atividades humanas– e as mudanças no uso do solo, que podem criar ambientes favoráveis à reprodução de vetores.

A crise climática é capaz de mudar a área de vida de animais silvestres, aumentando o contato com animais domésticos e humanos onde isso não era esperado. Indiretamente, os eventos climáticos também favorecem a fragmentação das florestas, que geram condições propícias a novas doenças em massa.

A evolução da pandemia de Covid-19 no Brasil escancarou a histórica desigualdade social, que faz com que as populações mais vulneráveis, em especial as que vivem em favelas, comunidades rurais e aldeias indígenas, sejam ainda mais impactadas pela doença.

Entre os cenários que se colocam para o mundo pós-Covid-19, está a continuidade dos antigos padrões de produção e consumo, o que significa perpetuar a situação de estrangulamento dos recursos naturais e das condições de vida na Terra. O segundo aponta para uma economia global em recessão, escassos recursos para a conservação e redução de expectativas quanto às agendas ambiental e climática. O terceiro e mais otimista projeta a retomada econômica em bases sustentáveis e uma percepção da natureza como a grande aliada da humanidade.

Qualquer que seja o cenário, não poderemos prescindir de uma revalorização da ciência. Os padrões de produção e consumo, o tipo de agricultura que promovemos e a forma como nos alimentamos deverão passar por intensa revisão. Além da agricultura, as demais atividades que impactam o mundo natural e o clima precisarão de cada vez mais regulação e controle pelos países.

No caso do Brasil, o combate ao tráfico e comércio ilegais de animais selvagens deve ser cada vez mais incorporado nas abordagens de futuras políticas públicas. Melhorar significativamente as condições de saneamento e acesso a serviços de saúde nas áreas rurais e remotas é outra emergência brasileira.

Se o desafio é reconstruir vidas e a economia global, será preciso imaginar um futuro em que a natureza faça parte da equação. Construir uma nova relação entre as pessoas e a natureza a partir da recuperação econômica justa e sustentável deve orientar nossos propósitos.

Pesquisadores reafirmam que manter a integridade das florestas, unidades de conservação e terras indígenas é fundamental para conter a perda de biodiversidade e uma das estratégias para reduzir novas pandemias. Esta deve ser uma prioridade na perspectiva de garantir não só biodiversidade, água e equilíbrio climático –serviços que as áreas protegidas prestam gratuitamente à sociedade–, mas também o manancial de insumos para pesquisa e desenvolvimento de novos produtos para bioeconomia.

Os pacotes de recuperação da economia que vêm por aí devem levar em conta a economia verde e a justiça socioambiental.  Para isso, será preciso evitar qualquer retrocesso nas leis que protegem o meio ambiente. O setor privado, em sintonia com os centros de pesquisa, pode ser um aliado na busca de soluções baseadas na natureza.
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