O Brasil não pode permitir a extinção da onça-pintada! | WWF Brasil

O Brasil não pode permitir a extinção da onça-pintada!



29 Novembro 2019    
Onça Pantaneira
© Adriano Gambarini
Texto: Aliança Onça-Pintada 

A onça-pintada, maior felino das Américas, está sob ameaça. Estima-se que as recentes queimadas em toda a Amazônia desde o começo de 2019 mataram, feriram ou desalojaram entre 400 e 1500 onças-pintadas.
Espécie emblemática e reconhecida como o maior felino das Américas, desenvolve um papel fundamental no funcionamento da floresta, e por séculos tem sido cultuada como um animal símbolo de força por inúmeros povos indígenas na América do Sul.

A Amazônia é onde se concentra a maior população de onças-pintadas no planeta, cerca de 2/3 da população mundial. No entanto, os recentes rumos da política ambiental indicam um cenário perigoso para a biodiversidade do país que abriga a maior porção da Amazônia, cerca de 60%. O desmatamento e o abate de indivíduos persistem e, em 2019, um novo sinal de alerta foi dado com o aumento expressivo de desmatamento e queimadas.

O atual cenário preocupa especialistas da Aliança Onça-Pintada, uma rede colaborativa de instituições criada em 2014 para ampliar ações de pesquisa e conservação da espécie na Amazônia brasileira. O número estimado de onças-pintadas potencialmente afetadas pelas recentes queimadas em todo o bioma Amazônico varia entre 400 e 1500 indivíduos, dependendo da densidade média utilizada para as estimativas.

A partir das análises das imagens de satélites das áreas queimadas, se estimou o número potencial de onças baseado em estudo recente de estimativa de onças-pintadas que estabelece 2 indivíduos a cada 100km2 de área. Se as queimadas atingissem áreas protegidas com maiores densidades do felino, como as reservas de desenvolvimento sustentável Mamirauá e Amanã, onde estudos apontam uma densidade de até 10 animais por 100km2, as perdas seriam bem maiores. Além disso, as queimadas mataram também milhares de indivíduos de outras espécies animais, e se considerados os impactos sobre a fauna em geral, estes são bem difíceis de estimar, mas certamente são de grandes proporções.

Efeito dominó
A perda de abrigo e de habitat é apenas o efeito imediato após a passagem do fogo. A quebra do equilíbrio da floresta afeta plantas e inúmeras espécies de animais. A frutificação das plantas é alterada, havendo menos disponibilidade de alimentos em longo prazo para os mamíferos menores, como queixadas, caititus, veados, cutias, preguiças e macacos. Essas são presas naturais da onça-pintada, que acaba sendo também afetada por este efeito por estar no topo da cadeia alimentar. Com a escassez de alimentos e abertura de novas áreas para pastagens, as onças-pintadas irão buscar outras fontes de alimento e, intensificando assim a segunda maior ameaça à espécie: o conflito com humanos derivado de ataques a animais domésticos. Um estudo realizado na região de Alta Floresta (MT) e publicado em 2006 mostrou que entre 110 e 150 onças eram mortas por ano na região estudada, em retaliação pela morte de animais domésticos.

A perda de animais domésticos deve sim ser evitada, e alternativas existem. Modelos produtivos mais tolerantes às onças-pintadas, com medidas de manejo, desenvolvimento de tecnologias de baixo custo e inovadoras para manter os grandes felinos afastados das propriedades são alternativas viáveis.  Com a crescente demanda por produtos sustentáveis pelo mercado internacional é estratégico que produtores e frigoríficos se adequem para uma maior competitividade nesse mercado, com produtos que respeitem a floresta e sua biodiversidade.

Do ponto de vista da economia, a onça representa um importante ativo econômico em suas áreas de ocorrência. Seu papel em promover o equilíbrio das florestas é imenso. Como animal de topo da cadeia alimentar, controla populações de outras espécies e com isso sustenta um delicado equilíbrio entre espécies de fauna e flora.  Sua presença é um importante bioindicador da qualidade de um ambiente natural. Apenas 8,6% da superfície terrestre do planeta possui populações de onça. Essa mesma área é lar de 28% de toda biodiversidade global.

Um recente levantamento realizado pelo Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas mostra a grandeza dos serviços que a natureza oferece sem custo ao planeta, os chamados serviços ecossistêmicos, nas áreas reguladas pela onça-pintada. Cerca de 9,8% dos serviços de pesca comercial do mundo e 17% do sequestro e dos estoques de carbono mundial acontecem nessas florestas, beneficiando bilhões de pessoas. De forma mais direta, o turismo ecológico ou cultural nas áreas habitadas por onças beneficia 36,6 milhões de pessoas. O turismo é, de fato, o setor que mais se beneficia da existência da espécie.

Um estudo realizado pela organização Panthera aponta que o turismo de observação de onça gera anualmente 6 milhões de dólares no Pantanal. O mesmo levantamento mostra que as perdas estimadas por predação de gado não chegam a 120 mil dólares por ano no bioma. Assim, investimentos em novos roteiros de turismo que incluam a observação de onças-pintadas é sem dúvida uma alternativa interessante para conservação da espécie e geração de renda para as populações locais, como o que tem sido feito nos Llanos Colombianos.

A onça-pintada vem também enfrentando pressão sistemática de caça para diversos fins. A espécie já foi alvo do comércio de peles de animais que vigorou até os anos 1970. Neste período estima-se que 15 mil onças eram caçadas na Amazônia brasileira por ano para abastecer o mercado de peles. No cenário atual, o problema pode se acentuar: o projeto de lei (PL) 3723/19, que deveria tratar única e exclusivamente sobre o porte e a posse de armas no Brasil, recebeu emendas que ameaçam a rica fauna silvestre nacional, fragilizando a fiscalização por parte dos órgãos ambientais. Alguns destes trechos incluídos no PL abrem brecha para a atividade de caça de uma forma generalizada, sem explicar claramente quais são as regras. O texto atual abre brecha para o abate de animais silvestres, inclusive dentro de unidades de conservação. Se, mesmo com a lei 9605/1998 de proteção à fauna, casos como a recente prisão da quadrilha que matou mais de mil onças-pintadas nos últimos 30 anos no Acre acontecem, a possibilidade de fragilização do marco regulatório torna-se especialmente preocupante.

Não bastasse, o tráfico internacional de partes de onça tem preocupado autoridades na América do Sul. Apreensões de dentes, garras e “cola de onça ”- substância com aspecto de graxa que é feita a partir da fervura do corpo da onça durante dias, foram feitas no Suriname e Bolívia em carregamentos destinados à China. Com a escassez de partes de tigres, o mercado chinês estaria ávido por substitutos aos produtos equivocadamente considerados medicinais. Um comércio que durante décadas tem levado populações de elefantes, rinocerontes e tigres à beira da extinção. Não existem dados concretos sobre esse modelo de contrabando no Brasil, mas não é descabido considerando a crescente influência econômica da China no país, aliado às extensas fronteiras do Brasil com os países onde o problema ocorre.

A Aliança onça-pintada
A Aliança da Onça-pintada desenvolve ações coordenadas entre especialistas e instituições que atuam pela conservação da onça-pintada. Criada em 2014, integra 12 instituições com atuação na Amazônia, dentre elas WCS, Instituto de Desenvolvimento Mamirauá, ICMBio/CENAP, WWF, INPA, PUC-RS, UFRN, Panthera, entre outros. Defende o constante monitoramento para garantir a manutenção de populações viáveis e saudáveis da espécie, e ações em escala ampla, por toda a área de ocorrência da onça-pintada. No entanto, um olhar especial deve ser dado a Amazônia, considerando sua importância como último grande refúgio natural com grandes extensões onde a onça-pintada existe em números ainda expressivos. - www.oncapintada.org 
 
Onça Pantaneira
© Adriano Gambarini Enlarge
Restam apenas 300 onças na Mata Atlântica
© Staffan Widstrand / WWF Enlarge
Onça-pintada
© A. Camboni / R. Isotti / Homo Ambiens Enlarge
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