ICMBio realiza expedição para controle do coral-sol em Alcatrazes | WWF Brasil

ICMBio realiza expedição para controle do coral-sol em Alcatrazes



03 Maio 2019    
Arquipélago dos Alcatrazes
© Warner Bento Filho/WWF-Brasil
por Warner Bento Filho e Douglas Silva Santos

Em três dias de trabalho, um grupo de servidores do ICMBio e de voluntários, apoiado pelo WWF-Brasil, livrou o arquipélago dos Alcatrazes de mais de 14 mil colônias de coral-sol, uma espécie exótica invasora que ameaça a biodiversidade local, onde há animais ameaçados de extinção e espécies endêmicas.

As espécies de coral-sol encontradas em Alcatrazes e em outros pontos da costa brasileira são originárias do Oceano Pacífico (Arquipélago de Fuji, na Polinésia Francesa), do Arquipélago de Galápagos e Equador. São o Tubastraea coccínea e o Tubastraea tagusensis. Atualmente há registros de invasão destas espécies na zona costeira de sete estados brasileiros: Ceará, Sergipe, Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina.

Em Alcatrazes, os corais-sol foram identificados em 2011, durante a realização de estudos para elaborar o plano de manejo da unidade de conservação. O trabalho de monitoramento e manejo teve início em 2013. Desde então, foram realizadas cinco expedições para o manejo dos corais-sol no arquipélago. O WWF-Brasil apoiou as últimas quatro. “Se não fosse o WWF-Brasil, não seria possível fazer esse manejo”, disse a coordenadora de pesquisa do ICMBio Alcatrazes, Sílvia Neri Godoy.

“Fazemos o manejo corriqueiro com a equipe própria do ICMBio, mas são duas duplas, três no máximo. Já nas expedições, conseguimos reunir mais pessoas e fazer um grande número de mergulhos durante três dias, para fazer a retirada. Se não tivéssemos esse manejo, uma área maior de costão estaria tomada e toda a fauna, a biota associada ao costão, seria alterada. Para conservar o arquipélago, é importante tentar fazer o máximo possível para segurar a vinda e a disseminação dessa espécie”, completa Sílvia.
 
De acordo com a pesquisadora Kátia Capel, pós-doutoranda no Cebimar (Centro de Biologia Marinha da Universidade de São Paulo, USP), as duas espécies foram introduzidas acidentalmente no país na década de 1980. “O primeiro registro dos corais-sol na costa brasileira foi em incrustações em plataformas de petróleo. Então, acredita-se que esse foi o meio em que eles chegaram aqui, via incrustação em navios, plataformas e estruturas desse tipo”, diz a pesquisadora.

Em locais sem manejo, como na Ilha de Búzios, também no litoral paulista, os corais-sol já dominam, em alguns pontos, mais de 90% do substrato. “Em Alcatrazes, temos conseguido controlar a população graças a essas constantes ações de manejo. O coral-sol compete com espécies nativas, principalmente por espaço. Ele cresce muito rápido e toma o substrato, diminuindo a biodiversidade local. Quando em contato com espécies nativas, ele danifica o tecido dessas espécies, podendo levar à morte os corais nativos”, afirma Capel.

Para a gerente dos programas Mata Atlântica e Marinho do WWF-Brasil, Anna Carolina Lobo, essa é uma importante contribuição da organização para a conservação da biodiversidade brasileira. “Estamos orgulhosos de poder contribuir para a proteção da biodiversidade nesta área marinha protegida tão especial. Maior ninhal de fragatas do Atlântico Sul, este arquipélago reúne duas unidades de conservação federais, com espécies endêmicas e ameaçadas de extinção. Colaborar para a conservação da biodiversidade é um imperativo constitucional não só do estado, mas também da sociedade e dos indivíduos. O ICMBio e a sociedade brasileira podem contar com o nosso apoio”, disse.

Nos últimos quatro anos, o WWF-Brasil destinou mais de R$ 400 mil para a preservação do arquipélago de Alcatrazes.

Alcatrazes
O arquipélago, localizado a cerca de 40 quilômetros do litoral norte do estado de São Paulo, concentra duas unidades de conservação federais: o Refúgio de Vida Silvestre do Arquipélago dos Alcatrazes (Refúgio de Alcatrazes) e a Estação Ecológica Tupinambás (Esec Tupinambás).  O Refúgio de Alcatrazes se justapõe as áreas da Esec Tupinambás no Arquipélago dos Alcatrazes, configurando uma área protegida total de aproximadamente 70.000 hectares.

O Refúgio de Alcatrazes é a maior área marinha de proteção integral no estado, a única do litoral norte de São Paulo nessa categoria. Segundo relatório do ICMBio, a unidade “conserva ambientes que propiciam condições para reprodução, abrigo, alimentação e descanso para cerca de 1.300 espécies, das quais 93 encontram-se sob algum grau de ameaça de extinção”.

Alcatrazes abriga espécies endêmicas e de distribuição restrita, sendo também considerada como área relevante para estudos evolutivos devido ao isolamento geográfico para répteis e anfíbios. Além de sua elevada importância ecológica, o Refúgio de Alcatrazes é comprovadamente utilizado como área de reprodução e crescimento de espécies com valor comercial, o que reforça a necessidade da manutenção ecológica.

Entre as espécies ameaçadas de extinção presentes no arquipélago, estão a tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata), tartaruga-verde (Chelonia mydas), garoupa (Epinephelus marginatus), tubarão-martelo (Sphyrna lewini), raia-manta (Manta birostris), baleia-de-Bryde (Balaenoptera edeni), jubarte (Megaptera novaeangliae), golfinho-pintado-do-atlântico (Stenella frontalis) e uma série de invertebrados marinhos, como o coral-cérebro (Mussismilia hispida). Foram registradas 103 espécies de aves no arquipélago, sendo 11 sob algum grau de ameaça de extinção.

Abertura à visitação
O arquipélago de Alcatrazes foi aberto oficialmente ao turismo náutico, observação de aves e mergulho em dezembro de 2018 e, até o fim de março de 2019, recebeu mais de 500 visitantes.

O ecoturismo visa estimular a reaproximação das pessoas com a natureza e, assim, contribuir para a conservação. “Apoiamos a abertura de Alcatrazes para o turismo porque entendemos que quanto mais as pessoas conhecerem sobre a natureza, quanto mais elas estiverem conectadas, mais benefícios serão proporcionados para a sociedade e para esses ambientes maravilhosos especialmente protegidos. Além disso, o turismo nas áreas naturais protegidas incentiva as economias locais. E estas unidades ainda ajudam na produtividade pesqueira – no caso das UCs Marinhas, gerando renda para os moradores e empresários da região”, afirma Anna Carolina Lobo.

Entre as práticas adotadas para o turismo no arquipélago, está a instalação de 14 poitas (pontos de amarração de barcos) ao redor da ilha. Assim, as embarcações não precisam lançar âncoras no fundo do mar, protegendo a vida e a integridade da vida marinha. Antes do embarque, todos os visitantes recebem um treinamento sobre como é a relação do arquipélago com a preservação ambiental.

Foram quase 30 anos de espera e muita expectativa de mergulhadores, operadores de turismo, moradores da região e turistas. A visita ao local é realizada por empresas cadastradas e autorizadas pelo ICMBio, que, junto com a Marinha, são responsáveis pela gestão do arquipélago. Por enquanto, embarcações particulares continuam proibidas. A relação de empresas autorizadas está disponível no site do ICMBio Alcatrazes.

Saiba mais
Alcatrazes é aberto à visitação
 
Arquipélago dos Alcatrazes
© Warner Bento Filho/WWF-Brasil Enlarge
ICMBio e voluntários, apoiados pelo WWF-Brasil, livraram o arquipélago de espécie exótica invasora
© Warner Bento Filho/WWF-Brasil Enlarge
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