Etanol é solução de curto prazo para reduzir emissões em Fernando de Noronha



04 março 2021    
Fernando de Noronha
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Estudo do WWF-Brasil conclui que adoção de biocombustíveis é a melhor estratégia para projeto Noronha Carbono Zero

Por WWF-Brasil 


Conhecida como “a esmeralda do Atlântico brasileiro”, Fernando de Noronha começa a dar os primeiros passos para implementar o projeto Noronha Carbono Zero, que tem por meta limpar a matriz energética da ilha. Entre as três ações imediatas previstas, a adoção de veículos elétricos será efetivamente a primeira a passar à prática, pois já está regulamentada por lei. Só que, isolada, esta ação não reduzirá a emissão de gases de efeito estufa: um novo estudo do WWF-Brasil indica que isso só acontecerá quando toda a matriz energética da ilha for mais limpa.

A alternativa mais barata e viável no curto prazo é a adoção de biocombustíveis: as análises mostraram que substituir a gasolina por etanol reduz as emissões de gases de efeito estufa em 77%, enquanto a adoção de veículos elétricos reduziria as emissões em 52% atualmente. Há, ainda a vantagem de dispensar investimentos públicos e privados em veículos elétricos e sistemas de recarga.

“Na corrida pela descarbonização da economia, cidades de todo o mundo têm adotado metas para se tornarem carbono zero, incluindo medidas de restrições a combustíveis fósseis e estímulo a carros elétricos. Mas, o que pouca gente sabe é que Fernando de Noronha começou a discutir um projeto carbono zero já em 2013 e, em 2020, aprovou uma Lei de Veículos Elétricos”, destaca Ricardo Fujii, analista de Conservação do WWF-Brasil. “No entanto, seu abastecimento de energia ainda vem de termoelétricas, fonte altamente emissora". 

O estudo conclui que a adoção de veículos elétricos em Fernando de Noronha reduziria os custos para reabastecimento desses modelos, mas dependeria de investimentos em geração elétrica renovável e sistemas de recarga para efetivamente diminuir as emissões de carbono. A alternativa mais barata e viável no curto prazo seria a adoção de biocombustíveis. No médio e longo prazo, é preciso concluir a mudança da matriz energética da ilha como um todo: não apenas o consumo de combustíveis, mas também a geração de eletricidade”, detalha.

A matriz energética da ilha é composta atualmente por termoeletricidade e energia solar. Em 2019, a primeira representava 90% da energia elétrica gerada; a energia solar, aproximadamente 10%. Isso significa um consumo mensal médio de diesel de 554 mil litros, gerando um custo mensal de R$ 3 milhões e emissão de 1.170.000 kg CO2 por mês (dados de 2018). O estudo do WWF-Brasil traz propostas para reduzir essa dependência dos combustíveis fósseis –e, por consequência, cortar as emissões. 

As recomendações incluem a ampliação do uso da energia solar fotovoltaica, a troca dos geradores eólicos danificados por outros mais potentes e eficientes e a adoção do biodiesel e da biodigestão dos resíduos sólidos orgânicos e esgoto. Essas alternativas, quando utilizadas em conjunto, permitiriam a redução das emissões na ilha em quase 90% e teriam efeito positivo sobre as emissões geradas pelo transporte do óleo diesel entre o continente e o arquipélago, realizado a cada 10 dias aproximadamente e com a poluição do solo e da água, além de proporcionar novos empregos.

Segundo o estudo do WWF-Brasil, esse processo depende do alinhamento de iniciativas de diversos atores, incluindo a administração da ilha, legisladores estaduais, investidores, distribuidoras de eletricidade e combustíveis, empresariado e população local. 

“Em lugares isolados, pequenos em escala e com grande biodiversidade, os efeitos das mudanças climáticas e das emissões de gases de efeito estufa são devastadores”, lembra Fujii. “Eles atingem os bancos de corais, os animais marinhos, o nível e a temperatura do oceano, além das alterações no clima que podem gerar outras consequências econômicas, ambientais e sociais desastrosas”, completa.

Etanol X veículos elétricos abastecidos por termoeletricidade

Com o propósito de analisar o reflexo da adoção de 130 veículos elétricos na ilha, referentes às primeiras autorizações ecológicas concedidas, o estudo incluiu a comparação das emissões de CO2 de diversos combustíveis e energia elétrica.

Atualmente, a ilha não utiliza etanol como combustível, por isso adotou-se o preço do etanol como sendo 70% do preço da gasolina, valor que oferece paridade de economia. 

Para os cálculos de eficiência (quilômetros rodados por litro), foram utilizados os carros mais vendidos no Brasil em 2019: Onix 1.0 como categoria geral e Corolla 1.8 como categoria Sedan. Para veículo elétrico, foi considerado o Zoe nos dois cenários: da atual geração, majoritariamente termelétrica, e no cenário de migração para energias limpas proposto pelo estudo. 

A comparação mostra que os veículos elétricos emitirão mais CO2 que modelos a combustão movidos a etanol.  Os benefícios dos elétricos só se efetivarão com a transição da ilha para uma matriz energética limpa. O alto valor comercial dos veículos elétricos também foi questionado pela população, além da dificuldade de manutenção na ilha, já que ainda não há mão de obra especializada.

De onde vêm os gases de efeito estufa em Fernando de Noronha

De acordo com pesquisa realizada pela Secretaria de Meio Ambiente do Estado de Pernambuco, cerca de 60% das emissões de gases de efeito estufa em Fernando de Noronha provêm dos aviões, 30% da geração de energia elétrica e aproximadamente 9% dos veículos que circulam nos seus 17 km² de extensão.  Esses são os três focos de ações imediatas do projeto Noronha Carbono Zero: atuar com as empresas aéreas para reduzir emissões de carbono dos voos por compensação, com plantio de árvores no continente; implementação mais rápida de veículos elétricos, criando facilidades para o morador; passar a usar energia eólica, solar, biocombustíveis e energia das ondas. 

As discussões do projeto Noronha Carbono Zero começaram em 2013, no evento "Pernambuco no Clima". Em novembro de 2016, foi aprovado o decreto de No 43.815 que instituiu o CIIEBC (Comitê de Inovação e Incentivo à Economia de Baixo Carbono). Entre ações realizadas, é possível ressaltar o Inventário de Emissões de Gases de Efeito Estufa e o Plano de Neutralização 2015–2018. O eixo dos veículos elétricos constitui o primeiro a efetivamente passar à prática, com a aprovação da Lei dos VE's (Veículos Elétricos), em janeiro de 2020. 

Sobre Fernando de Noronha

O Arquipélago de Fernando de Noronha é constituído por um conjunto de 21 ilhas e ilhotas, sendo apenas a principal habitada. Todo o território se encontra sob proteção total em forma de Unidades de Conservação, sendo 70% o Parnamar (Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha), e 30% Área de Proteção Ambiental (APA). Situa-se a 540 km de Recife (PE) e 380 km de Natal (RN), com uma extensão territorial de 26 km², sendo 17km² a ilha principal. 

A ilha integra o estado de Pernambuco desde a Constituição de 1988. De acordo com a Constituição Estadual, é “uma região geoeconômica, social e cultural instituída sob a forma de Distrito Estadual”, único dessa natureza no país. Em termos de gestão, há parte do território sob a jurisdição federal e parte sob a esfera estadual: quem administra o Parnamar é o ICMBio (Instituto Chico Mendes da Biodiversidade), órgão federal que gere todas as 335 Unidades de Conservação no território brasileiro. Já́ a APA, compartilham sua gestão a ATDEFN (Autarquia Territorial do Distrito Estadual de Fernando de Noronha) –conhecida popularmente como Administração da Ilha- e o ICMBio. 

Desde 2001, a Unesco reconhece Fernando de Noronha como Patrimônio Natural da Humanidade. 
Fernando de Noronha
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Geração de energia em Fernando de Noronha
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