"Para quem vive do Cerrado, o dia a dia nunca foi fácil" | WWF Brasil

"Para quem vive do Cerrado, o dia a dia nunca foi fácil"



03 junho 2020    
Joel Sirqueira é gestor ambiental
© Marcus Desimoni/WWF-Brasil
Renata Andrada 

O nome é autoexplicativo: uma cooperativa só funciona com o trabalho coletivo diário em que todos somam seus esforços para alcançarem seus objetivos. Não é difícil imaginar, portanto, as dificuldades dessas organizações em tempos do novo coronavírus. Como em outros setores da sociedade, a pandemia obrigou a suspender as atividades comunitárias das cooperativas a fim de evitar surtos de contágios entre cooperados, agricultores, coagricultores, extrativistas e familiares.

Essa paralisação afeta gravemente milhares de famílias que sobrevivem graças à agricultura familiar e o agroextrativismo. Sem conseguir vender seus produtos, as cooperativas sofrem com estoques muito grandes – frequentemente, as cooperativas vendem seus produtos para o Programa Nacional de Alimentação Escolar e, com a interrupção das aulas, os governos, em sua maioria, suspenderam os contatos de compra dessas mercadorias. Por outro lado, os agricultores familiares e agroextrativistas penam por não terem como vender seus produtos e, consequentemente, por não recebem pagamentos pela venda de seus produtos e ficam sem renda

Confira os depoimentos de extrativistas do Cerrado apoiados pelo WWF-Brasil
Joel Sirqueira - gestor ambiental vinculado à Cooperativa dos Agricultores Familiares e Extrativistas do Vale do Peruaçu (Cooperuaçu), no norte de Minas Gerais.

O trabalho com o cooperativismo e com o extrativismo já é desafiador por ele mesmo. O dia a dia é de muita luta, de muito suor. Com a COVID-19, essas dificuldades se tornaram muito maiores, o impacto para as famílias que estão na base foi muito grande. Não só porque deixam de gerar renda, receber dinheiro, mas também pelo impacto social: eles deixam de se reunir. E a cooperativa, afinal, é um empreendimento socioambiental, o social é a base para esses empreendimentos e para essas famílias e isso deixa de acontecer infelizmente. Recentemente foi criada em Januária, Minas Gerais, a Comunidade que Sustenta a Agricultura (CSA) Peruaçu, a primeira do norte do estado. A pedido das famílias que produzem, tivemos que suspender a entrega das cestas porque o deslocamento para a cidade, para o ponto de convivência, é um risco de contágio. 

É dinheiro que deixa de entrar nessas famílias e é alimento de qualidade que deixa de chegar na cidade para as famílias dos coagricultores. Mas a verdade é que nunca foi fácil. Para quem vive no Cerrado, pra quem vive do Cerrado, o dia a dia nunca foi fácil. Este é mais um desafio e tenho certeza que sairemos muito melhores do que entramos. Começamos a valorizar mais a produção local, a importância do alimento de qualidade e do dinheiro circulando regionalmente. Sairemos mais fortes e com atitudes revistas”.

Valeria Aparecida da Silva - gerente da Cooperativa Grande Sertão, em Chapada Gaúcha, Minas Gerais.

Infelizmente parou tudo e estamos vivendo uma situação crítica. Nos participávamos de licitações para oferecer alimentos para o estado, mas tudo foi interrompido. Estamos com o estoque muito grande e não estamos conseguindo vender. Com o apoio do WWF-Brasil e outras entidades, estamos conseguindo sobreviver e aos pouquinhos estamos começando a reagir. O cenário não está bom, está sendo difícil, mas graças a parcerias estamos conseguindo seguir em frente. Tem gente que procura os nossos produtos para ajudar os agricultores familiares.”

Valdomiro da Mota Brito – tesoureiro da Cooperuaçu
“A pandemia afetou muito o nosso trabalho porque tivemos que parar grande parte dos nossos trabalhos. A gente está se virando como pode. Recebemos ajuda de diversas entidades, entre elas do WWF-Brasil. Isso vai nos ajudar a aliviar um pouco a nossa barra”.

A atuação emergencial do WWF-Brasil no Cerrado
Diante do cenário alarmante – mais de 30 mil mortes oficiais e mais de 529 mil infectados confirmados - e do descaso do atual governo, sem políticas públicas específicas e efetivas destinadas às comunidades tradicionais durante a pandemia da COVID-19, o WWF-Brasil traçou um plano emergencial para atender afetados na Amazônia e no Cerrado (veja texto ao lado) e está doando alimentos, produtos de higiene, Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e outros materiaisO objetivo é permitir que as pessoas possam ficar em casa ou em suas comunidades com segurança. No Cerrado, o WWF-Brasil apoia indígenas e agroextrativistas.

No Cerrado, o WWF-Brasil apoia 50 famílias indígenas da etnia Xacriabá do Mosaico Sertão Veredas Peruaçu, que receberam doação de cestas básicas e produtos de higiene em parceria com Cáritas Diocesana de Januária, Minas Gerais. Os Xacriabás são a maior população indígena de Minas Gerais.

Também foram doadas 132 cestas básicas, mais de quatro toneladas de alimentos e produtos básicos de higiene pessoal, a 81 famílias indígenas Guajajara e Timbira das Terras Índígenas Geralda Tocu Preto, Rodeador e Morro Branco, no Cerrado do estado do Maranhão. As doações ocorreram em parceria com o Instituto Sociedade População e Natureza (ISPN) e a Coordenação das Organizações e Articulações dos Povos Indígenas do Maranhão (COAPIMA). “Essas famílias Guajajaras estavam em grave situação de insegurança alimentar. Juntamente com o ISPN, nosso parceiro na Rede Cerrado – uma articulação entre entidades sem fins lucrativos pela defesa do bioma – e decidimos atuar emergencialmente para apoia-los neste momento tão difícil; em defesa do bioma e de seus guardiães”, conta Vinícius Pereira, analista de Conservação do WWF-Brasil.

O apoio aos agroextrativistas acontece por meio de três cooperativas de base comunitária também do Mosaico Sertão Veredas Peruaçu: Cooperativa Sertão Veredas, a Copabase e a Cooperuaçu. O objetivo é permitir que as cooperativas possam continuar minimamente o seu funcionamento e não tenham que fechar as portas. “Ajudamos com o pagamento da produção de 10 toneladas de frutos (coquinho azedo, araticum, acerola, goiaba, maracujá, tamarindo); com o pagamento de diárias de 100 cooperados, para que eles possam fazer o processamento desses frutos nas fábricas. Nosso apoio também foi para a compra de embalagens e de um freezer de 600kg para o armazenamento dos produtos", explica Kolbe Soares, analista de Conservação do WWF-Brasil. Essa ação é importante para que as cooperativas não percam a safra e consigam armazenar os produtos para a futura comercialização. 

As cooperativas agroextrativistas geram renda local tanto para os agricultores familiares como para o agroextrativista, propiciam novas formas de comercialização, valorizam a cultura e os frutos nativos e ainda ajudam a conservar o Cerrado, bioma tão devastado nos últimos anos. (veja matéria ao lado).

No Cerrado, esses incansáveis trabalhadores produzem maravilhas nutricionais muito apreciadas na nova gastronomia como mel de abelhas nativas, pequi em conserva, farofa de pequi, geleia de coquinho azedo, farinha de jatobá licores de jenipapo, e as deliciosas castanhas de licuri, baru e pequi, apenas para citar alguns exemplos. 

 
Joel Sirqueira é gestor ambiental
© Marcus Desimoni/WWF-Brasil Enlarge
Valdomiro Brito é tesoureiro da Cooperuaçu
© Marcus Desimoni/WWF-Brasil Enlarge
Dona Arcanja é uma das associadas da Cooperativa dos Agricultores Familiares e Agroextrativistas do Vale do Peruaçu (COOPERUAÇU)
© Rayssa Coe / WWF-Brasil Enlarge
Pedro Silva é líder Xacriabá da Aldeia Sumaré
© Marcus Desimoni/WWF-Brasil Enlarge
Produtos da Cooperuaçu, especializada no extrativismo dos frutos do cerrado da região do Vale do Peruaçu
© WWF-Brasil Enlarge
Linha de buritis no Parque Nacional Grande Sertão Veredas (MG/BA)
Linha de buritis no Parque Nacional Grande Sertão Veredas (MG/BA)
© WWF-Brasil / Bento Viana Enlarge
Pequi
© André Dib/WWF-Brasil Enlarge
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