Desmatamento na Amazônia volta a afrontar o país | WWF Brasil

Desmatamento na Amazônia volta a afrontar o país



07 outubro 2016    
O corte raso na floresta tropical subiu 24%, maior taxa dos últimos quatro anos.
© © Peter Muller/Bild
O Brasil, que vinha domando o desmatamento na Amazônia, tem uma má notícia para o mundo, às vésperas da entrada em vigor do Acordo de Paris.

 

O corte raso na floresta tropical subiu 24% no período que vai de agosto de 2014 a julho de 2015 – na comparação ao período anterior. Foi um repique do desmatamento com aumento da área derrubada.

 

É a maior taxa de desmate dos últimos quatro anos. Por trás deste índice está o corte raso de 6.207 quilômetros quadrados (km²) de floresta tropical úmida, contra os 5.012 km² anteriores. Confira o números.

 

Cada hectare de floresta nativa derrubado significa menos biodiversidade, mais crise hídrica e descontrole climático – para o Brasil e o resto do mundo, já que a floresta tem um papel regulador incontestável no sistema global.

 

Sem contar o imenso contingente de brasileiros - indígenas, ribeirinhos, extrativistas e outros grupos tradicionais – que vivem das florestas e que assistem atônitos à destruição de sua fonte de sobrevivência.

 

O que mais chamou a atenção desta vez foi que o tamanho das áreas desmatadas voltou a crescer, depois de uma tendência de queda que indicava uma mudança na estratégia de desmatamento. 

 

Isso quer dizer que os desmatadores vão se adaptando às circunstâncias e assimilando novas tecnologias para pôr no chão a floresta – normalmente para dar lugar ao pasto e efetivar o processo de grilagem, que nada mais é do que a apropriação ilegal da terra.

 

E foi nas terras públicas que se viu um dos maiores incrementos de desmatamento na análise dos dados mais recentes.

 

Cresceu também o desmate em algumas áreas protegidas – o que alarmou, pois deveriam ser áreas imunes ao corte raso. Pelo visto, não são.

 

Note-se, porém, que foram principalmente em áreas próximas a eixos rodoviários, como na Floresta Nacional do Jamanxim, no Pará, que puxou para cima o corte raso entre as unidades de conservação.

 

O modelo de ocupação da Amazônia ainda se baseia na derrubada pura e simples da floresta. E para nada, sem necessidade alguma, pois nem mesmo a produção agrícola na região depende mais de que se cortem árvores.

 

Duas décadas, três percepções

Quando olhamos os dados do desmatamento da região nos últimos 20 anos, pelo menos três percepções saltam aos olhos.

Primeiro, conseguiu-se, de modo notável, diminuir as taxas de desmatamento comuns na década de 1990. Em relação às taxas de 1995, de quase 30 mil km2, conseguimos uma diminuição de até 80%.

 

Segundo, de que esta diminuição parece estar sendo consistente nos últimos anos, ou seja, não parece haver uma tendência de que as taxas venham a pular subitamente para patamares acima de 10 mil km2, por exemplo. Esta é a boa notícia.

 

A ruim, vem a seguir. Do mesmo modo, não parece haver uma tendência de que as taxas de desmatamento da Amazônia venham a cair mais subitamente, e chegar próximo de zero, o que é desejável. Elas estavam estabilizadas em torno de 5 mil Km2. O repique de agora acendeu o alerta.

 

Desde que o Brasil deu o recado na Conferência do Clima de Paris, no ano passado – de que quer se engajar fortemente na diminuição de suas emissões de gases de efeito estufa –, este cenário não é mais tolerável.

 

Até mesmo a promessa do Brasil – agora tornada oficial após a ratificação do acordo climático global – corre o risco de não ser cumprida.

 

O que a sociedade gostaria de ver – e que seria coerente com a contribuição brasileira para enfrentar as mudanças do clima da Terra – é que o desmatamento a região continue a cair, até chegar a zero, ou algo próximo a isso.

 

Desmatamento no futuro, só mesmo se permitisse que populações tradicionais que vivem nas florestas pudessem cultivar seus próprios alimentos. Ou para construir infraestrutura – prédios, casas, estradas – que fossem fundamentais para melhorar a vida das pessoas. 

 

Ou seja, a ponte entre o que temos hoje e o que queremos no futuro está ficando mais longa.

Parece que a sinalização que o Estado brasileiro (governo federal, estados, parlamento, judiciário) tem dado para a sociedade é que desmatar não dá em nada. Há uma forte percepção de impunidade na sociedade. E esse sinal precisa ser trocado imediatamente.

 

Cerrado

Vergonhoso, o desmatamento ilegal não se limita à Amazônia.

 

O bioma Cerrado – que já teve a metade do seu território devastado – ainda padece de outro problema.

 

Em 2010, a devastação anual do Cerrado era de cerca de 6,4 mil km2 (maior do que a taxa atual da Amazônia). Cinco anos depois, já havia saltado para 7,2mil km²,sobretudo no Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, região conhecida como MATOPIBA, última fronteira agrícola do país.

 

A previsão é que o desmate no Cerrado comece a ser monitorado somente a partir do ano que vem. E o cenário futuro não é animador. O Cerrado – com sua vegetação nativa – é uma das principais reservas hídricas do país. Sem falar da biodiversidade ainda desconhecida e do papel do bioma no jogo climático.

 

Enquanto os únicos esforços no cenário têm sido as tentativas de conjugar atividades agropecuárias com a conservação, o Brasil perde seu patrimônio natural a uma velocidade absurda.

O desmatamento da Amazônia – e de outros biomas brasileiros – é difícil de controle por ser complexo, ou seja, por envolver um grande número de variáveis, e por ser persistente.

Primeiro, porque o desmatamento não é uma mazela multissetorial. Não é um compromisso de fundo de toda a sociedade brasileira, ainda. 

 

Embora esforços memoráveis tenham sido empreendidos por alguns setores do governo e da sociedade para monitorar o desmatamento da região, encontrar melhores ferramentas de ordenar e usar o território, melhores modelos de produção, o tema não é central às decisões econômicas, e muito menos do ponto de vista de articulação parlamentar.

 

Por tudo isso, isso, o Estado brasileiro (incluindo todos os entes federativos e poderes constituídos), deve a assumir agora o papel de líder em um movimento nacional contra o desmatamento.

 

Somente uma posição clara de Estado com reforço nas políticas públicas de comando e controle e de valorização da floresta em pé e envolvimento da sociedade civil, empresários, setor rural, cientistas, povos e populações tradicionais poderá conter a tragédia do desmatamento que volta a afrontar o país.

 

Marco Lentini - Líder de florestas do WWF Brasil e Jaime Gesisky – Especialista em Políticas Públicas

O corte raso na floresta tropical subiu 24%, maior taxa dos últimos quatro anos.
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Taxa de desmatamento anual de 1988 a 2015.
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