"Integrar para não entregar"



16 junho 2006
O último relato escrito por Langsdorff ainda lúcido foi feito no Salto Augusto
© Zig KOCH

Em muitas cidades do norte de Mato Grosso é comum ver crianças de olhos azuis e cabelos loiros caminhando para a escola em plena Amazônia Legal. Para os que esperam encontrar uma população de origem indígena, chega a ser difícil imaginar que cidades como: Guarantã do Norte, Alta Floresta e Apiacás possuam mais da metade de sua população formada por migrantes vindos do Sul do país.


Tudo lembra a colonização sulista, desde os sotaques, passando pelos sobrenomes de origem italiana e alemã, ao hábito de beber o chimarrão (um chá de ervas servido quente). A “invasão sulista”, como é explicado o fenômeno pelos mato-grossenses mais antigos. Têm origem nos projetos de colonização da porção norte do estado, iniciados na década de 70 por cinco grandes empresas privadas, encabeçadas por nomes como: Ariosto da Riva, Enio Pipino, João Pedro Moreira de Carvalho e Jorge Martins Phillip.


De origem sulista (algumas do sudeste), essas colonizadoras foram contratadas pela ditadura militar para trazer “desenvolvimento” a região. A idéia inicial era vencer a floresta e povoar as porções desconhecidas - e habitadas apenas por índios - da Amazônia brasileira. Sob o slogan nacionalista: “integrar para não entregar”, também é desta época a abertura de estradas que cortaram a Amazônia de norte ao sul - Cuiabá-Santarém (BR-163) e de leste a oeste - Transamazônica (BR-230). Cidades com nomes curiosos, como: Sinop (Sociedade Imobiliária Noroeste do Paraná), Porto dos Gaúchos, Nova Maringá e Porto Alegre do Norte, explicam as origens de seus fundadores.


Mas, justamente esse desenvolvimento proposto pelos militares, também é apontado como o iniciou da destruição da floresta. Atraídos pela promessa de terras baratas e riquezas, milhares de colonos chegavam com suas famílias vindos do sul e alguns do sudeste do país. E a floresta até então impenetrável, desaparecia rapidamente dando lugar a imensos campos de grãos (tendo a soja como principal cultura) e pastagens. Até mesmo os projetos que visavam o aproveitamento da madeira de lei, eram financiados pelo Governo Federal, sob a tutela da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia - Sudam. Com isso, guarantãs, mognos e castanheiras se transformavam no cobiçado “ouro verde”, sem que se tivesse qualquer preocupação com a sustentabilidade da atividade ou impactos ambientais.


Os povos indígenas foram os que mais sentiram a chegada dos colonos e muitas tribos, como os Panará, Kayabi e Tapaiuna, só não foram completamente dizimadas porque foram levadas pelos sertanistas Villas Boas para o Parque Nacional do Xingu. Relatos dramáticos de índios morrendo as mínguas e mendigando às margens das recém criadas estradas, chamaram a atenção da opinião pública mundial para o que acontecia na Amazônia. E algumas histórias imagináveis, como o “massacre do Paralelo Onze”, no qual uma aldeia Cinta-Larga em Aripuanã recebeu açúcar envenenado com arsênico laçado por um avião a mando da empresa Arruda e Junqueira, marcaram a forma com que os antigos habitantes, deram lugar às novas cidades.


Hoje a região vive um impasse sobre que tipo de crescimento econômico seguir. A crise no campo expôs a fragilidade financeira das grandes lavouras de grãos e a floresta começa a dar sinal de ter chego ao seu limite. E depois da operação Curupira (2005), na qual foi desarticulada uma quadrilha que há 15 anos promovia o desmatamento ilegal, muitas empresas madeireiras também fecharam suas portas.

O último relato escrito por Langsdorff ainda lúcido foi feito no Salto Augusto
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