Acampados às margens do Jari



02 agosto 2005
Tendo o Jari ao fundo, equipe do WWF-Brasil organiza informações sobre a expedição, enviadas via satélite para Brasília
© Zig KOCH
Ontem à noite, nosso acampamento às margens do Jari foi visitado por uma sucuri, vinda do rio. O dia de hoje foi dedicado ao reabastecimento da expedição e à colocação de placas do Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque (PNMT) na confluência do Jari com o Inipucu (checar). Uma parte de nós foi cedo para a aldeia Mukuru - já que o acampamento fica do outro lado do rio Jari - esperar o helicóptero, que só chegou por volta de 11h devido à neblina que nessa época desce sobre a área.

A aldeia Mukuru é o mais importante dos três pontos de reabastecimento previstos pela expedição. Este ponto foi escolhido por razões logísticas, sobretudo porque este ponto da "tríplice fronteira", onde o PNMT se inicia, onde a Terra Indígena Waiãpi "encosta" no Jari e onde praticamente acaba o limite oeste da Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Iratapuru, desenhada pelo rio Iratapuru.

Doze membros da comunidade de São Francisco do Iratapuru, liderados pelo senhor Arraia, ou Delbanor Melo Viana, foram contratados para cumprir funções de pilotos das embarcações e proeiros, que vão posicionados à frente, para evitar pedras, buscar o melhor caminho e amarrar os barcos na atracação. Apesar de morarem sobretudo fora da reserva, representam a principal comunidade dessa unidade de conservação de uso sustentável, com várias áreas de extração de castanha-da-Amazônia, algumas já certificadas pelo FSC, organizadas pela cooperativa Comaru, e de breu branco, usado por uma indústria brasileira de cosméticos, parte dele vindo de área de exploração comunitária também certificada. O conhecimento dessa parte oeste da reserva era um objetivo desta expedição.

Um dos mais relevantes objetivos da expedição é propiciar a integração entre os grupos dessas três áreas protegidas lato sensu . Isso porque os Wajãpi estiveram entre os primeiros e mais importantes grupos sociais a defenderam a criação do PNMT, que circunda grande parte de suas terras e, assim, pode ajudar a protegê-la. A colaboração entre o Ibama e os Wajãpi é muito importante. A viagem de ambos pode facilitar o entrosamento entre eles e a integração de suas ações de controle, de fiscalização. Os índios querem também indicar ao Ibama problemas que eles entendem existir na região, sobretudo a presença de garimpeiros, em busca de ouro.

Cristiano Fernandes Ferreira, responsável pela fiscalização e controle, da equipe do PNMT, disse que esta expedição está sendo muito importante para que possam conhecer este lado do parque pelo chão - antes, só haviam sobrevoado a região. Cristiano anota todos os pontos importantes do percurso em seu GPS - Global Positioning System, um aparelho de localização -, de forma que todos os pontos onde haja ocupação, alguma ocorrência ilegal ou dificuldades de trajeto possam ajudar a planejar melhor outras eventuais "visitas".

Ao mesmo tempo, Cristiano também funciona como fotógrafo da equipe Ibama. Ele avistou e registrou durante nossa expedição a ocorrência de uma harpia (Harpya harpya ), a maior águia ou gavião do mundo, também conhecida como gavião real ou pega-macaco, um dos predadores de topo de cadeia alimentar que exigem grande área para sua sobrevivência. Esta ave foi expulsa da maioria das outras áreas do Brasil onde existia naturalmente.

Além do abastecimento da expedição, a atividade mais importante do dia foi a colocação de duas placas de sinalização do PNMT. Com isso, se pretende que as pessoas que eventualmente circulem nesta área tomem conhecimento não só da existência do parque, como de seus limites e do fato de que o Ibama tem freqüentado a região.

Chegar à expedição e já encontrar todos inteiros e interessados em sua continuidade, chegar e já estar no início tanto da Terra Indígena Wajãpi como do PNMT, é um enorme privilégio, inclusive pensando em tudo que os colegas tiveram que passar para chegar até aqui. Mas sobretudo por poder estar em lugar tão importante, com floresta tão bela, e um rio tão majestoso, com gente tão aprazível e interessada na conservação - que em última análise é a razão pela qual promovemos esta expedição: conservar a natureza, segundo as visões oficiais, mas também de acordo com visões culturalmente diferenciadas, buscando criar bases para um melhor desenvolvimento, que seja justo, equilibrado e duradouro.
Tendo o Jari ao fundo, equipe do WWF-Brasil organiza informações sobre a expedição, enviadas via satélite para Brasília
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Subindo o rio Jari
© Zig KOCH Enlarge
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