Movimento ajuda a proteger nascentes do Pantanal | WWF Brasil

Movimento ajuda a proteger nascentes do Pantanal



24 Novembro 2010   |  
Sebastião Mendes lembra do tempo em que o o rio Cabaçal era volumoso e cheio de peixes. A degradação nas partes altas diminuiu a água e provocou o assoremento em muitas partes do rio.
© WWF-Brasil/Geralda Magela
Por Geralda Magela

Rodeada por montanhas às margens do rio Cabaçal, um dos afluentes do Rio Paraguai, a pequena cidade de menos de 3 mil habitantes situada no oeste Matogrossense, a 350 km de Cuiabá, tem nome de natureza protegida: Reserva do Cabaçal. Mas o nome sugestivo não livrou o município de ver seus recursos naturais sendo destruídos. Um movimento da comunidade, com apoio do WWF-Brasil, busca reverter esse processo e devolver ao município o título de Paraíso das Águas. 

A atuação do WWF-Brasil na região começou em 2009 com um projeto no município de educação ambiental e de recuperação de áreas degradadas, em parceria com a prefeitura, a comunidade e com a Universidade Estadual do Mato Grosso (Unemat) e Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT). 

No entanto, antes disso já havia um trabalho desenvolvido pela comunidade, principalmente das escolas, que vinham realizando atividades de educação ambiental em nascentes do município havia mais de 10 anos. Mas o processo de degradação estava difícil de ser contido. 

A mobilização dos moradores e as características ambientais do município despertaram o interesse do WWF-Brasil para desenvolver um projeto de conservação de nascentes na região. “Reserva do Cabaçal fica em uma zona de transição entre e o planalto e a planície da bacia do Alto Paraguai, com muitas nascentes. As águas que brotam nessas partes altas formam o rio Cabaçal, um dos principais afluentes do rio Paraguai, contribuindo para a manutenção do Pantanal”, destaca o coordenador do Programa  Cerrado-Pantanal do WWF-Brasil, Michael Becker. 

O trabalho em Reserva do Cabaçal envolve a realização de oficinas de capacitação ministradas por professores da Unemat e por técnicos do WWF-Brasil e consultores. Os temas são escolhidos a partir da realidade da comunidade e vão desde o plantio de viveiros de mudas, técnicas de contenção de erosão, educação ambiental, mobilização e comunicação.

No início do projeto, em 2009, os participantes decidiram criar uma rede de mobilização e deram a ela o nome de Movimento pelas Águas de Reserva do Cabaçal. Participam dessa rede, moradores e membros das instituições que apoiam o projeto. O objetivo é a troca de informações  e a busca de soluções que ajudem a conservar as águas do rio Cabaçal, além de atrair voluntários para as atividades educativas e de campo.

Processo histórico

Reserva do Cabaçal é fruto do processo migratório vivido pelo Brasil no final dos anos 60 e também nas décadas de 70 e 80 rumo ao Centro-Oeste do país. A área onde foi criado o município era coberta por mata nativa e cortada por córregos e pelo rio Cabaçal, com muitas nascentes e cachoeiras. Por isso, havia sido destinada a uma reserva florestal.

Mas com o projeto de colonização, estimulado pelo governo, muitas famílias migraram para a região ocupando também o lugar da reserva, que depois acabou sendo regularizada, tornando-se o município.
Entre as famílias que migraram para a região está a de Sebastião Quirino Mendes, conhecido como Tego, um dos integrantes do Movimento pelas Águas do Cabaçal, que chegou à região em 1968. Ele trabalha como guarda na Escola Municipal Barão do Rio Branco, mas cresceu no sítio da família, a 16 km da cidade.

Mendes foi testemunha do rápido processo de mudança que ocorreu no município. “Na minha infância, quando íamos para a escola, via todo tipo de bicho, mateiro (cervo), porco do mato e até jaguatirica. Hoje são poucos”, lamenta.Ele conta que, mesmo de maneira intuitiva, sempre teve uma preocupação com a conservação do meio ambiente.  “Desde a minha infância eu tinha a percepção de que era necessário preservar os animais. Eu não sabia o que era mata ciliar, mas achava que não devia cortar a mata das margens dos córregos e rios, porque era deles que vinha a água”, diz.

De acordo com Mendes, o processo de degradação ocorreu por falta de conhecimento, de informação. “As famílias se instalaram aqui e não tiveram orientação sobre as questões ambientais como, por exemplo, sobre a necessidade de manter a mata ciliar, de não desmatar as áreas de nascentes”, afirma.

Também não tinham consciência da necessidade de conservar o solo, que era usado à exaustão e isso acabou levando a um processo de degradação tão rápido.  “No começo plantavam, arroz, feijão e milho. Depois veio a fase do café, que tomou conta de toda a região e, por último, a pecuária”, enumera. 

Recuperação de nascentes

Sem a cobertura vegetal, as nascentes começaram a secar, a água diminuiu e o Rio Cabaçal antes volumoso e repleto de peixes e de vida, foi ficando raso devido ao assoreamento. Durante nossa visita, em outubro, no final de uma grande estiagem, a água do rio mal chegava a minha cintura.

Essa imagem é muito diferente daquela que os moradores conviviam 20 anos atrás quando seu leito não dava pé para atravessar – em alguns lugares chegava a 4 metros de profundidade. Nas partes altas formaram-se grandes boçorocas (também chamadas de voçorocas), fendas na terra causadas pela erosão.

Temendo perder essa riqueza natural, um grupo formado principalmente por professores das escolas começou um trabalho de educação ambiental, incluindo aulas de campo com os alunos visando conscientizar a comunidade e recuperar as áreas degradadas.  O trabalho experimental foi realizado na nascente do córrego Sete de Setembro, um dos afluentes do Cabaçal e envolveu o plantio de mudas em volta da nascente, análise da água e a conscientização do proprietário da terra para cercar a área.

Conseguiram também reflorestar áreas degradadas nas margens do rio Cabaçal, embora, por falta informação técnica, no plantio, não tenham priorizado as espécies nativas. “Tínhamos muita vontade de fazer um trabalho de recuperação mas pouco conhecimento técnico sobre o solo, sobre as espécies”, conta José Aparecido Macedo, que chegou ao município há 26 anos. Conheça a estória de José Aparecido.

Oficinas técnicas e de educação ambiental

O projeto desenvolvido pelo WWF-Brasil na região busca preencher essa lacuna e envolve apoio técnico, mobilização e educação ambiental, por meio de oficinas com a comunidade. Além da teoria, as oficinas têm trabalhos de campo com mutirões de plantio de mudas nativas, análise de solo, diagnóstico rural participativo para apontar os principais problemas e as riquezas locais.

No final de setembro e começo de outubro, quando visitamos o projeto, estava sendo realizada uma oficina de educação ambiental com os professores das duas escolas da cidade, incluindo uma aula de campo organizada na área onde está sendo realizada a ação de recuperação de boçoroca.  O público das escolas é muito importante para qualquer ação em Reserva do Cabaçal, pois representa um terço da população do município.

Na aula de campo, o professor da Unemat, Heitor Medeiros mostrou o trabalho de recuperação e aproveitou para explicar as causas da degradação e o quanto é importante conservar. “Para degradar uma área dessas é muito fácil, basta desmatar. Agora para recuperar é um processo demorado, que exige muito trabalho e paciência”, destacou. 

Trabalho de campo

O apoio técnico é feito pela agrônoma Letícia Thommem, especialista em recuperação de solo degradado. O projeto piloto começou no início deste ano e está sendo desenvolvido em uma área de nascentes da cabeceira do córrego Dracena, um dos principais afluentes do Rio Cabaçal.

A área foi escolhida porque nela havia se formado uma imensa boçoroca, processo erosivo também chamado de voçoroca, que abre fendas gigantes no solo, mata as nascentes e carreia sedimentos para o Rio na parte baixa. Essa boçoroca estava tão avançada que já comprometendo o lençol freático.

Com o apoio de dois técnicos da cidade e de voluntários, foi montada uma operação engenhosa, simples, e ao mesmo tempo sofisticada, para contenção da boçoroca, um trabalho começou em 2010 e continua em 2011. A intenção é testar essa técnica e repassar a experiência para outras áreas, não só do município, mas também para outras regiões.

O trabalho de contenção da erosão é todo feito com o reaproveitamento de madeira orgânica que iria para o lixo e paliçadas de bambu e o plantio de mudas de plantas que ajudam a fortalecer a terra. “Como a parte acima da boçoroca estava toda tomada por areia, foi necessário fazer um trabalho de contenção para evitar que a terra continuasse sendo levada pela chuva”, explica a técnica da Secretaria de Agricultura do município, Denair Andrade.

Envolvimento e participação

Entre os voluntários que participam dos trabalhos de campo, está a professora Regina Maria de Andrade. Ela é também um exemplo dessa geração de migrantes que fincou raízes em Reserva do Cabaçal.  A família de Regina se mudou para lá em 1985, quando ela tinha apenas quatro anos.  O pai tem uma propriedade próxima à cidade. “Sou mais Matogrossense do que mineira”, diz Regina, também militante do Movimento pelas Águas de Reserva do Cabaçal.

Formada em Ciências Biológicas, Regina começou a ter contato com as questões ambientais quando ainda estava no ensino médio.  “Meus professores trabalhavam muito com a gente projetos voltados para o meio ambiente. Quando me formei em magistério e comecei a dar aula, continuei fazendo esse trabalho com os alunos”, conta.

Para ela, embora ainda tenha muito a ser feito, já se pode perceber as mudanças. “Principalmente em relação ao Poder Público que agora está mais dentro das ações, o que é muito importante. Os donos das propriedades também começam a se interessar”, diz.

Regina e outros voluntários participaram de trabalho de campo organizado pelo WWF-Brasil para fazer o mapa falado da situação ambiental de uma área do município, onde o projeto de recuperação está sendo desenvolvido. A pesquisa de campo envolveu o levantamento das áreas degradadas e entrevistas com os proprietários de terra. “Acho que quando eles percebem que não estamos ali para prejudicar ninguém, que vai ter uma ação, eles se interessam mais”, destaca.

A professora vê essa experiência piloto com muita esperança. “A gente está desenvolvendo um modelo prático de uma ação de recuperação, algo concreto, não só de teoria, mas também na prática. “E isso é o que mais me motiva”, diz.

O professor Evando André Félix, diretor da Escola Estadual Demétrio Pereira, chegou a Reserva do Cabaçal há apenas três anos, quando passou em um concurso público para professor da escola e assumiu não apenas o compromisso com a educação como também com o meio ambiente. Ele é um dos voluntários do trabalho de campo do projeto piloto de recuperação da área degradada.

Ele conta que desde o início se interessou por esse projeto que existia no município. “Aqui temos um potencial com as belezas naturais mas, ao mesmo tempo, um processo de degradação. Acredito que posso ajudar nesse trabalho de conscientização”, afirma.

Félix se anima com os resultados que já começam a aparecer. “A gente percebe que vai dar resultado. Agora quando vierem as chuvas não vai haver aquele escoamento da superfície que levava um monte de areia lá pra baixo cobrindo a nascente e descendo até o rio”, anima-se, mostrando as paliçadas montadas para conter a boçoroca. 

Para ele, ainda há um longo caminho a percorrer, mas aos poucos, a participação vai aumentando.  “Dia desses estávamos aqui plantando as mudas e um vizinho chegou e nos ajudou a combater as formigas”, lembra.

Ampliar esse trabalho “formiguinha” e atrair novos voluntários é o objetivo do trabalho de campo e das oficinas apoiados pelo WWF-Brasil. Que venham novas e laboriosas formiguinhas, como Evandro, Regina, Tego, José Aparecido, Denair, Letícia e todos os voluntários de Reserva do Cabaçal, que não puderam ser citados aqui mas que são também muito importantes.  São eles os personagens centrais dessa história, escrita por eles e para eles, tendo como tema central a conservação das águas e das nascentes de Reserva do Cabaçal.

Sebastião Mendes lembra do tempo em que o o rio Cabaçal era volumoso e cheio de peixes. A degradação nas partes altas diminuiu a água e provocou o assoremento em muitas partes do rio.
© WWF-Brasil/Geralda Magela Enlarge
Recuperação de boçoroca na cabeceira do córrego Dracena, um dos afluenetes do rio Cabaçal.
© WWF-Brasil/Geralda Magela Enlarge

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