Projeto Amor-Peixe se consolida como exemplo de produção sustentável | WWF Brasil

Projeto Amor-Peixe se consolida como exemplo de produção sustentável



10 novembro 2010    
As artesãs repassam a outras mulheres da comunidade o conhecimento adquirido no curtimento do couro de peixe e na produção do artesanato
© WWF-Brasil/Terezinha Martins


Por Geralda Magela

A Associação de Mulheres Amor-Peixe, de Corumbá (MS), e o WWF-Brasil realizaram no final de outubro um curso de capacitação para novas associadas sobre as técnicas de produção de artesanato de couro de peixe e associativismo. Além do curso, foi organizado também um encontro com os novos parceiros que agora passarão a apoiar o grupo de mulheres. Com a oficina e a aliança de parceiros, o WWF-Brasil finaliza seu apoio formal ao projeto, que vem sendo feito desde 2003.

A Associação Amor-Peixe foi criada em 2003, em Corumbá, cidade brasileira que fica às margens do Rio Paraguai, na divisa com o Brasil e a Bolívia. Com criatividade e muito trabalho, elas aproveitam a pele de peixe, que antes ia para o lixo, e transforma o material em belos produtos artesanais, como bolsas, cintos, carteiras, roupas, agendas, pulseiras, bijuterias. O projeto gera renda para as mulheres e é um exemplo de bom aproveitamento de resíduos.

Desde 2003, o WWF-Brasil vem apoiando a associação por meio de um trabalho de educação ambiental e de inserção social. A partir de 2007, a ONG iniciou um projeto de reorganização do grupo por meio de uma série de oficinas de capacitação.

O trabalho foi coordenado pela técnica do Programa Pantanal, a bióloga Terezinha Martins e pelo professor da Universidade Federal de Rondônia, Josenildo Souza e Silva, engenheiro de pesca e especialista em trabalhar com metodologias participativas.

Os educadores montaram com o grupo um plano de trabalho incluindo a  realização de oficinas presenciais e atividades que deveriam ser ealizadas pelas associadas nos intervalos dos cursos. Nas oficinas, elas aprenderam sobre design, associativismo, empreendedorismo, meio ambiente, gestão participativa e políticas públicas.

O conhecimento adquirido nas capacitações e com as atividades desenvolvidas ajudou as artesãs a se organizarem melhor e a produzir produtos mais atrativos para o mercado, valorizando mais a cultura pantaneira e o meio ambiente. “Hoje elas são convidadas para participar de eventos, como feiras e seminários e têm seu trabalho reconhecido como exemplo de artesanato sustentável’, destaca Terezinha.

O  trabalho de reciclagem também ajuda a reforçar a identidade dessas mulheres pantaneiras. Além do aspecto social e de organização, o aspecto ambiental foi muito reforçado no projeto. Na Amor-Peixe, nada é jogado fora. Tudo é aproveitado. Até as escamas de peixe que se transformam em bijuterias.

“Considero este um dos projetos mais representativos de inserção socioambiental. Não só porque ele está tirando resíduos do meio ambiente, mas também porque está mudando a matriz de produção e  promovendo  a inserção social dessas mulheres”, afirma o professor Josenildo.

De acordo com ele, outro aspecto importante foi a valorização da cultura pantaneira. “Conseguimos resgatar nelas o sentimento de pertencimento ao Pantanal, por meio do design dos produtos. Hoje, elas entendem esse significado e colocam a marca do Pantanal e da cultura guarani nas peças”, ressalta.  

Aliança de parceiros - Com a consolidação do grupo, o WWF-Brasil está agora encerrando o apoio formal à associação, mas  isso está sendo feito aos poucos, de forma gradual.  O apoio na realização deste curso e a formalização da aliança de parceiros fazem parte dessa estratégia e saída.

Para o coordenador do Programa Pantanal do WWF-Brasil, Michael Becker, o encerramento do apoio formal teve por objetivo dar ao grupo mais autonomia e abrir espaço para a entrada de outros parceiros que também têm muito a contribuir.  “Com a aliança de parceiros temos a segurança de que o grupo não estará sozinho e que poderá continuar a se desenvolvendo cada vez mais”, diz.

A aliança de parceiros construída pelo WWF-Brasil e pela associação é composta por instituições variadas. Integram essa aliança o Ministério da Pesca, SEBRAE, Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (Campus de Corumbá), a Embrapa, Rede Cerrado, Instituto Homem Pantaneiro Fundação de Cultura de Corumbá e Prefeitura Municipal de Corumbá. 

Becker considera que o trabalho realizado pelo WWF-Brasil com o grupo cumpriu todas as etapas e superou os objetivos esperados. “Hoje o grupo está inserido nas políticas públicas, aprendeu a escrever seus próprios projetos a buscar apoio e é um exemplo de artesanato sustentável, ressalta. Ele destaca ainda que o WWF-Brasil continuará acompanhando o trabalho do grupo e apostando no seu sucesso.  

Exemplo para outros grupos - Hoje a Amor-Peixe tornou-se um exemplo de organização comunitária e é sempre chamada a passar a sua experiência para outros grupos. Nesta semana (de 11 a 13 de novembro), a presidente da associação Joana Ferreira está em Brasília participando de uma oficina do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA).  Vai apresentar a  experiência da associação a outros grupos.

A associação  também integra o Fórum da Rede de Economia Solidária, ligado ao MDA,  que atua com projetos de comunidades.  A associada Rita Conceição Alves é a representante do grupo no fórum. Na semana de 12 a 14 de novembro, Rita participa da 2ª Feria de Economia Solidária Pantanal, em Aquidauana, a 300 km de Corumbá.

Joana e suas companheiras estão confiantes no futuro, principalmente quando olham para trás e percebem o quanto cresceram com os conhecimentos recebidos nas oficinas e aplicados, na prática, por meio do trabalho do grupo . “Percebo que demos um salto. Antes a gente só sabia produzir. Não sabíamos como calcular o valor do nosso trabalho  nem como se organizar como grupo”, lembra Joana. De acordo com ela, as oficinas proporcionadas pelo WWF-Brasil foram fundamentais para esse crescimento. ”Aprendemos a nos organizar, a confiar na nossa capacidade, a trabalhar e a pensar como grupo”, anima-se.

Hoje, o grupo conta com 12 integrantes. O desafio agora, segundo Joana, é ampliar a produção. Mas para isso será necessário aumentar o  número de participantes. Este foi o objetivo da oficina realizada em outubro, com a participação de 30 mulheres. Quatro delas já estão fazendo estágio na associação e poderão ser incorporadas ao grupo. Outras ainda passarão pelo estágio e também serão avaliadas.

A artesã se orgulha das conquistas do grupo. “Estamos mais fortes e unidas. Cada uma sabe o seu papel a sua importância”, destaca. De acordo com ela, isso faz com que o trabalho seja feito de forma independente pelas associadas, mas de maneira organizada e coletiva.  “Hoje quando viajo para levar nossa experiência para outros grupos, como estou fazendo agora, fico tranquila porque sei que o trabalho está sendo feito, independente de eu estar lá ou não”, afirma.

 

As artesãs repassam a outras mulheres da comunidade o conhecimento adquirido no curtimento do couro de peixe e na produção do artesanato
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