Entrevista – Glauco Kimura de Freitas



20 março 2015    
Para o técnico, é preciso diversificar fontes de água para garantir mais segurança contra a crise atual e futuras
© WWF-Brasil/Bruno Moraes
No Brasil, a Hora do Planeta 2015 traz para o foco das discussões a crise no abastecimento de água que tem afetado ao menos 40 milhões de brasileiros. Além dos transtornos causados pela falta do recurso, o problema também impacta a produção de energia (concentrada no sistema de hidrelétricas) e ameaça a economia – que sofre com queda da produção agrícola e industrial. Mas qual a relação entre as mudanças climáticas, mote do movimento global que já acontece no Brasil há sete anos, e a seca nas torneiras brasileiras? 

É isso que esclarece o coordenador do Programa Água para a Vida do WWF-Brasil Glauco Kimura de Freitas, em entrevista à equipe da Hora do Planeta. “As chamadas ilhas de calor, por exemplo, que são causadas pela grande urbanização, criam colunas de massa de ar quente que alteram o regime de chuva”, conta o especialista. “Por isso você não tem mais aquela garoa fina que caracterizou historicamente São Paulo, e sim pancadas que caem de uma vez só, e que provocam as enchentes, seguidas de estiagem”. Outro fenômeno comum às grandes cidades e que tem relação direta com a questão hídrica é a ocupação desordenada do solo. “Quando você coloca asfalto, constrói casas, condomínios, estradas, você está impermeabilizando o solo. Então, quando chove, essa água não infiltra mais. Ela escoa, evapora e inunda.” Leia os principais trechos da conversa, na qual o técnico fala também sobre a petição que o WWF-Brasil irá propor ao Governo Federal para que se crie um Plano Nacional de Proteção das Nascentes

Como surgiu a ideia da petição?
Os governos, tanto o Federal quanto os estaduais e até as prefeituras, têm adotado posições muito claras no sentido de aumentar a reservação de água para sair dessa crise. Aqui em São Paulo, o governo estadual recorreu ao Governo Federal e pleiteou cerca de 3,5 bilhões de reais para a construção de novos reservatórios, obras de infraestrutura hídrica e transposição de rios. O Governo Federal lançou, no ano passado, o Plano Nacional de Segurança Hídrica que só prevê obras. Então veja que esse é o modelo de ação apresentado pelas autoridades. Um modelo que, na opinião do WWF-Brasil, precisa ser revisto. Em alguns casos é inevitável, você vai ter que fazer alguma obra para reservar água, mas não dá para apostar todas as fichas nisso. Você precisa diversificar suas fontes de água para garantir mais segurança contra a crise atual e futuras. A tendência em momentos de crise é justamente descentralizar. 

Por isso a demanda é criar um Plano Nacional de Proteção das Nascentes?
Exato. O Governo não está enxergando que é preciso um plano mais robusto de segurança hídrica, mais diversificado e mais baseado na infraestrutura natural da bacia hidrográfica. A gente inclusive usa termos como “infraestrutura natural”, querendo chamar a atenção para o fato de que a própria bacia hidrográfica, a própria natureza, já tem mecanismos para reservar água: o solo, o maior reservatório que existe. Mas uma vez pavimentado e impermeabilizado, ele perde essa função. Essa informação precisa ser levada aos governantes, para que eles entendam a questão e tenham vontade política para fazer as mudanças necessárias. A briga do Código Florestal foi grande e um dos argumentos que se usou na época foi a água. Ninguém ouviu. Agora, com essa crise, é preciso falar mais alto nos ouvidos dos governantes e fazê-los entender que esses erros já estão custando caro hoje e vão ficar cada vez mais caros no futuro. 

Você mencionou a impermeabilização do solo. Ou seja, você retira a vegetação e cobre de concreto o que antes eram áreas verdes. Qual a relação desse desmatamento nas grandes cidades com a crise hídrica?
Essa crise no abastecimento de água pela qual estamos passando agora, que começou em São Paulo e avança por outras cidades e estados, é resultado de uma série de problemas, que não foram tratados a contento e a tempo. Um dos principais problemas é o desmatamento intenso que ocorreu na Região Metropolitana de São Paulo ao longo das últimas quatro, cinco décadas, por conta da expansão da malha urbana, ocupação do território, crescimento populacional. Segundo dados da Fundação SOS Mata Atlântica, perdemos cerca de 70% da vegetação original nativa nas áreas das bacias hidrográficas que abastecem a Região Metropolitana de São Paulo (entre elas a do Piracicaba, Capivari e Jundiaí, que abastece o sistema Cantareira). Por isso, um dos nossos desafios iniciais é explicar para população qual a relação entre desmatamento e falta d’água. Educar a população para o fato de que se você corta a árvore e coloca asfalto sobre o solo, você está alterando a forma como as coisas funcionavam originalmente. Ou seja, se você tem uma floresta, quando chove a vegetação intercepta essa água e a leva para as raízes, fazendo com que ela infiltre o solo e alimente os lençóis freáticos. Além disso, parte dessa água também volta para atmosfera por meio da transpiração da vegetação, condensando e gerando mais chuva. E essa água que vai para o solo não só alimenta os lençóis freáticos como também ressurge como nascentes, formando novos rios. Esse ciclo hidrológico é algo que precisa sempre ser lembrado. Porque se você tira a vegetação é esse funcionamento que você interrompe. Então quando chove essa água não infiltra mais, ela escoa, vai embora, evapora e inunda. 

Por isso ouvimos tanto que mesmo chovendo o nível do reservatório não aumenta?
Existe um termo técnico que é “solo saturado” e “solo não saturado”. O saturado é aquele que está úmido. Aí, quando chove, transborda mais rapidamente. Quando ele está muito seco, e a gente vê aquelas imagens de solo rachado, as primeiras chuvas servem para saturá-lo. Por isso tivemos chuvas no mês de fevereiro inteiro e não encheu o reservatório, porque apenas saturou o solo. É só depois disso que as chuvas vão efetivamente aumentar o nível do reservatório. 

A Hora do Planeta, que é um ato por soluções para as mudanças climáticas, irá focar a crise hídrica, em 2015. Qual a relação entre as duas coisas?
Existem as mudanças climáticas globais – causadas pela emissão e concentração de gases de efeito estufa na atmosfera e consequente aumento da temperatura global, mas existem também as mudanças climáticas regionais. E um exemplo delas são as ilhas de calor. Então, veja: você pega uma cidade que desmatou toda a vegetação nativa, colocou asfalto e prédio em tudo, enfim, pavimentou todo o solo. O calor absorvido por esse pavimento é irradiado à noite, transformando a região num forno. Essas ilhas de calor criam colunas de massa de ar quente que alteram o regime de chuva. Por isso você não tem mais aquela garoa fina que caracterizou historicamente São Paulo, e sim pancadas que caem de uma vez só, e que provocam as enchentes, seguidas de estiagem. Então eu vejo uma ligação entre a crise hídrica e o fenômeno da mudança climática local – que, claro se retroalimenta e se relaciona com a global. 

O que as pessoas devem exigir das autoridades locais, governos estaduais e prefeituras, para a solução desse problema?
Nesse aspecto das mudanças climáticas, há dois pleitos: um é mitigar a emissão de gases de efeito estufa e o outro é adaptar a nossa condição atual ao clima que está mudando. A mitigação e a adaptação são os dois pilares sobre os quais a população precisa exigir um plano dos governos. Mitigar significa emitir menos gases de efeito estufa, porque quanto mais você emite pior fica o problema. E um exemplo são os lixões. O gás metano é vinte vezes pior que o gás carbônico, por isso é preciso erradicar os lixões. A questão de transporte urbano ligado às emissões de gases também é um ponto importante. Todos os municípios precisam ter frotas verdes, veículos que emitam menos carbono. E, paralelamente a isso, você precisa de uma política de adaptação. O Brasil está fazendo hoje o seu Plano Nacional de Adaptação via Ministério do Meio Ambiente, mas cada cidade tinha que ter o seu – especificamente planos de macrodrenagem urbana. Ou seja, a água da chuva precisa infiltrar no solo. Caso contrário as enchentes vão continuar a acontecer. 
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