Entrevista: Paul Polman | WWF Brasil

Entrevista: Paul Polman



04 junho 2012    
Paul Polman, CEO da Unilever
© Paul Polman
 A Rio+20 deve avançar na definição de objetivos de sustentabilidade, associando o enfrentamento da pobreza e a preservação ambiental. Apesar de tamanho propósito, o texto base preparado para a conferência parece aquém e “é um problema para os países membros das Nações Unidas”. Desde a Rio 92, percebe-se alguma frustração quanto ao progresso de temas sensíveis como mudanças climáticas, níveis de nitrogênio e biodiversidade.

Essas avaliações não são de nenhum ativista ambiental, mas de um CEO a frente de uma das principais companhias globais do planeta: Paul Polman, diretor executivo da Unilever.

A companhia, que é líder na venda de alguns alimentos, produtos de higiene e de limpeza, tende a se beneficiar do esperado crescimento do consumo nos países emergentes, notadamente os BRICS. Apesar da boa expectativa de mercado, Polman espera que não se repita entre esses os padrões de consumo da Europa e América do Norte, pois se isso acontecer “simplesmente ficaremos sem recursos”, alerta. A seguir, a entrevista concedida por Polman ao WWF.

O que fazia à época da Rio 92? Recorda-se de algum episódio que marcou a conferência?

Em 1992, estava morando na Espanha e já estava muito ciente dos problemas com recursos, como água, e das restrições crescentes sobre crescimento econômico e social. A principal realização da Rio 92 foi converter a sustentabilidade de uma questão periférica em uma que não podia mais ser ignorada no debate sobre crescimento econômico e prosperidade. Talvez a maior conquista tenha sido a adoção da Agenda 21 que reconheceu a importância de encontrar o equilíbrio correto e a interconexão entre as agendas ambiental, social e econômica. Tão importante quanto foi o reconhecimento da importância do setor privado e da necessidade de parcerias.

Quais países tiveram participação mais destacada na Rio 92? Como foi a participação dos latino-americanos?

Os países da América Latina, incluindo o anfitrião, o Brasil, têm um histórico importante na promoção das agendas antipobreza e de sustentabilidade. Essa questão é tão relevante para Rio+20 quanto foi para a Rio 92. Atualmente, países como Colômbia, Peru e Guatemala tomaram a dianteira na promoção de crescimento sustentável e na inclusão da ideia de Objetivos de Crescimento Sustentável na agenda da Rio+20.

Quais foram os principais legados da Conferência Rio 92?

O legado da Rio 92 continua vivo hoje. O plano de ação Agenda 21 sobre desenvolvimento sustentável acordado em 1992 ajudou a levar à formulação dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio dez anos mais tarde. A última cúpula do Rio também ajudou a criar a UNFCCC (negociações globais sobre o clima), bem como o World Business Council for Sustainable Development, uma entidade que estimula crescimento mais sustentável no setor privado. Agora, vinte anos mais tarde, governos, sociedade civil e grupos ambientais olham cada vez mais para o setor de negócios para que crie crescimento sustentável. Essa situação é muito diferente da de 1992, quando o setor empresarial não era visto como uma peça central na busca soluções de sustentabilidade, como é o caso hoje. Vinte anos atrás, as empresas ainda não tinham entendido a importância fundamental de sustentabilidade para o crescimento dos negócios. Na Rio+20, o setor empresarial não só poderá mostrar a jornada que empreendeu, como também poderá assumir uma posição de liderança em áreas chave para o futuro.

Entre as resoluções da Rio 92, alguma área não avançou?

O desafio com todos os processos globais é manter o ímpeto. Enquanto muitos gostariam que tivéssemos tido mais ações durante os últimos vinte anos em termos de desenvolvimento sustentável, é importante focarmos nos progressos que tivemos, e como poderemos avançar a partir desses. No entanto, a impaciência é justificada em algumas áreas, em particular mudanças climáticas, níveis de nitrogênio e biodiversidade.

Qual deveria ser o principal resultado da Rio+20?

Acredito que Rio+20 oferece duas grandes oportunidades. Primeiro, devemos iniciar um processo para definir objetivos de sustentabilidade para o período de 2015 a 2030. Esses funcionariam como os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, a diferença é que se aplicariam a todos os países e abrangeriam tanto as questões de pobreza como as ambientais. Segundo, e de extrema importância, as empresas têm que ser incluídas nessa agenda. Rio+20 precisa reconhecer a necessidade de uma colaboração muito maior entre governos e o setor empresarial em relação à sustentabilidade. E um número maior de empresas precisa se engajar mais em prol do crescimento sustentável. É importante para o setor empresarial que os governos promovam as recompensas e os incentivos certos nas políticas públicas para que as empresas sigam esse caminho.

Qual sua opinião sobre o texto base da Rio+20?

O texto é um problema para estados membros da ONU, mas eu estimularia os governos a se comprometerem com propostas mais detalhadas que suportem os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, assim como as exigências das empresas de políticas públicas que estimulem ainda mais o desenvolvimento sustentável. Estamos no ponto onde ações específicas falarão mais alto que as palavras. Acho que o setor empresarial está preparado para isso.

Como setor empresarial e sociedade civil podem contribuir para a conservação ambiental e o desenvolvimento sustentável?

Grupos da sociedade civil e as empresas têm muito a ganhar trabalhando juntos. Vimos isso na Unilever. Por exemplo, trabalhamos com parceiros como o Unicef para ensinar a crianças de idade escolar os benefícios de se lavar as mãos com sabonete - que ajuda a prevenir diarreia e doenças respiratórias. A Unilever também trabalha com a Rainforest Alliance para garantir que nosso chá e nosso cacau venham de fontes sustentáveis. Ao reconhecer o papel crucial uns dos outros na sociedade e na proteção do meio ambiente, temos muito a ganhar muito com a colaboração. Simplesmente não conseguiremos fazer tudo sozinhos.

Qual é o papel das economias emergentes como os BRICS nos impactos sobre o meio ambiente e nas soluções de questões ambientais?

Mais de 50% dos negócios da Unilever estão nos mercados emergentes e em desenvolvimento, e essa proporção deverá atingir 70% até o ano de 2020. É esse crescimento que destaca a importância de se mudar para um novo modelo sustentável de negócios. Já estamos consumindo os recursos da Terra mais rapidamente que a natureza consegue os repor, e se as classes médias das economias emergentes começarem a replicar os padrões de consumo da Europa e América do Norte, simplesmente ficaremos sem recursos. Os Brics e o setor empresarial são atores vitais no desenvolvimento das políticas públicas e das ações empresariais necessárias para endereçar as questões de eficiência hídrica e energética, resíduos, reciclagem e fontes sustentáveis.

Qual a viabilidade da estruturação da chamada “economia verde”? Uma ‘economia azul’ seria também importante?

Os conceitos de economia verde e azul são maneiras úteis de começarmos a pensar sobre como reconhecemos que a escassez de recursos é um problema hoje em dia e como se tornará cada vez mais crítico para o crescimento econômico no futuro. É perfeitamente possível alcançar um crescimento sustentável e equitativo. A experiência da própria Unilever mostra que conseguimos fazer nosso negócio crescer enquanto reduzimos nossa pegada ambiental e garantimos o uso de matérias sustentáveis. Os elementos necessários são uma mudança de atitude e um novo modelo de negócios.

Num enfoque direcionado ao acesso dos cidadãos a comida, água, energia, como governos e sociedade devem olhar para o meio ambiente? Qual é a solução de futuro para a Amazônia, o Brasil e a América Latina?

Uma ideia que a Rio+20 deverá estimular é o desenvolvimento de uma série de Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Quando os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio expirarem em 2015, precisaremos manter o foco do mundo na pobreza e na fome e, ao mesmo tempo, garantir a colaboração global para lidar com questões ambientais críticas como desmatamento, mudança climática, escassez de água e produção e consumo sustentáveis.

Para superar esses desafios é crucial manter o setor privado envolvido no debate. Na Unilever, crescimento sustentável é a parte central de nosso plano de negócios. No entanto, não podemos atuar sozinhos, em isolamento. Rio+20 oferece uma oportunidade para os governos e as empresas trabalharem juntos no desenho de um plano para um futuro sustentável. Mais empresas deverão aceitar o papel de contribuir para a criação de uma economia mais sustentável e equitativa, mas os governos também deverão viabilizar isso através da promulgação das políticas corretas, para facilitar a atuação das empresas. Também é uma questão de assumir responsabilidade pessoal. Nosso trabalho pioneiro na presidência da força tarefa B20 Foodsecurity é um exemplo disso. Nós todos temos responsabilidade e temos papéis claros na garantia da realização dos objetivos originais da Rio 92. Um futuro melhor para todos.
Paul Polman, CEO da Unilever
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