Bali lança o Mapa do Caminho, porém fraco em conteúdo



15 dezembro 2007
Manifestação em Bali chamou atenção sobre o problema das mudançãs climáticas para os pingüins
© WWF / Saipul Siagian

Bali, Indonésia - A Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, ocorrida entre 3 a 14 de dezembro, em Bali, na Indonésia, chega a um acordo e lança o Mapa do Caminho para as negociações de clima nos próximos dois anos. Entretanto as decisões pecaram por falta de ambição.

Os governos reuniram-se ao longo dessas duas semanas em Bali, em negociações que muitas vezes vararam madrugadas, para colocar nos trilhos o futuro tratado que deverá cortar até 2020 as emissões de gases do efeito estufa dos países desenvolvidos entre 25 a 40%, abaixo dos níveis medidos em 1990.

O IV Relatório do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas), que rendeu o Prêmio Nobel deste ano para os cientistas que participaram do trabalho, afirma claramente a necessidade de manter o aquecimento global abaixo dos 2ºC. Para isso, é preciso que as emissões globais em 2015 e comecem imediatamente a cair.

Durante um final emocionante nas últimas horas do 15º dia das negociações, a delegação dos Estados Unidos, sob pressão de outras nações e do público que assistia às negociações, decidiu se juntar à maioria absoluta dos países e acordar com o processo internacional. Entretanto, a participação americana custou muito caro ao planeta: um acordo fraco em conteúdo.

"Na verdade, perdeu-se a oportunidade de se chegar a um acordo muito mais ambicioso e iniciar já algo realmente importante para o planeta e para a vida. Temos de sair do imobilismo e enfrentar a questão das mudanças climáticas com mais determinação", afirma Denise Hamú, secretária-geral do WWF-Brasil.

Em 2009, em Copenhagen, na Dinamarca, os países deverão finalizar o acordo mais esperado da década e apontar finalmente como deter as mudanças climáticas após o primeiro período de compromisso do Protocolo de Quioto, pós-2012.

Inimigos do Clima

Um pequeno grupo de países, liderado pelos Estados Unidos e apoiado pelo Japão e Canadá, tentaram bloquear as negociações nos últimos dias de discussões. Uma das propostas feita pelos Estados Unidos foi que os países industrializados não tivessem metas obrigatórias de reduções de suas emissões, o que resultaria em um retrocesso para a luta contra o aquecimento global.

"Outras delegações pediram diversas vezes para os Estados Unidos desbloquearem as negociações. Quando ficaram claramente isolados, acabaram se curvando à vontade coletiva do plenário", afirma Karen Suassuna, analista em mudanças climáticas do WWF-Brasil. "Mas o preço para o conteúdo do Mapa do Caminho foi alto" completa.

Brasil na liderança

Durante as reuniões, o Brasil assumiu a liderança em vários assuntos e se destacou entre as economias emergentes, junto com a China e a África do Sul. "Nosso país mostrou-se mais flexível e construtivo do que nas negociações anteriores. Também apresentou ao mundo a tecnologia brasileira para monitorar o desmatamento e ter compromissos mensuráveis para os países florestais", afirma Karen Suassuna. "Com os resultados do monitoramento feito na Amazônia, a transferência de tecnologia entre os países do hemisfério sul torna-se ainda mais viável", explica Suassuna.

A transferência de tecnologia de países industrializados para as economias emergentes foi um dos pontos fortes do acordo de Bali e, junto com o mercado de carbono global, podem trazer benefícios reais para os países em desenvolvimento, como a China, a Indonésia e o Brasil.

Florestas

O desmatamento e as queimadas são responsáveis por 75% das emissões brasileiras de gases do efeito estufa e, por causa da falta de cuidado com nossas florestas, o Brasil é o quarto colocado no ranking dos maiores contribuintes para o aquecimento do planeta. A Indonésia, terceira colocada, também tem o desmatamento como principal fonte de emissão. Por isso, um dos assuntos mais discutidos em Bali foi a Redução das Emissões do Desmatamento e Degradação das florestas (REDD). Uma equipe de especialistas da Rede WWF acompanhou atentamente este tópico e comemorou quando as negociações avançaram satisfatoriamente.

Os governos dos 190 países reunidos em Bali reconheceram formalmente que 20% das emissões dos gases de efeito estufa vêm do desmatamento e está prevista uma discussão sobre REDD para o próximo período de compromisso do Protocolo de Quioto, pós 2012. "Essa é uma vitória a ser comemorada, mas precisamos nos lembrar que será necessário ter recursos financeiros e muita vontade política de toda a comunidade internacional para combater o desmatamento", afirma Mauro Armelin, coordenador do Programa de Desenvolvimento Sustentável do WWF-Brasil.

Durante as negociações em Bali, o Brasil apresentou um plano detalhado de um fundo voluntário para financiar o combate ao desmatamento no país. "Foi uma boa iniciativa e pode ser uma ótima alternativa para vários projetos neste setor, mas não deve ser a única opção. Não se pode descartar a importância do mercado de carbono como fonte de financiamento. Nosso país deve adotar as duas vias para ser mais efetivo na conservação das florestas", defende Armelin.

Manifestação em Bali chamou atenção sobre o problema das mudançãs climáticas para os pingüins
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