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MANGUE

Mangue ou mangal é uma formação vegetal de regiões alagadiças e ocorre apenas em regiões tropicais ou subtropicais no encontro entre o rio e o mar. É facilmente reconhecido pelas árvores com raízes expostas e solo lamacento


Usamos o termo manguezal ou mangal quando nos referimos ao ecossistema formado pelo encontro do ambiente terrestre e o marinho. Dessa formação surge um sistema único que mistura água doce com água salgada que resulta em um ecossistema com uma abundante biodiversidade, complexo e sensível ao mesmo tempo, o que evita processos de erosão e assoreamento de praias, protegendo milhares de pessoas que vivem em áreas costeiras. Além disso, o mangue tem importante contribuição econômica para o turismo e pesca artesanal.

No Brasil, apenas o estado do Rio Grande do Sul não tem formação típica de mangue

Um estudo publicado em 2015 estima que os serviços dos ecossistemas manguezais sejam equivalentes a US$ 33-57mil/ha/ano para as economias nacionais dos países em desenvolvimento que hospedam manguezais (Hoegh-Guldberg, et al. 2015). 
 

Só no estado do Pará, a pesca relacionada aos manguezais movimenta mais de R$260 mi - ou seja, 34% do total pescado no estado em 2011 (CSF, 2018)
 

Além disso, os manguezais são um dos ecossistemas com maior capacidade de captação e armazenamento de carbono, reduzindo os efeitos das mudanças climáticas. Por outro lado, uma pesquisa publicada em 2018 mostrou que uma área de mangue desmatada emite dez vezes mais CO2 que o desmatamento em áreas continentais (como a caatinga, por exemplo). O estudo aponta que o carbono se acumula principalmente nas raízes das espécies do mangue (KAUFFMAN et al., 2018a).

TIPOS DE MANGUE

O Brasil possui cerca de 10.000 km² de manguezais e é o terceiro país do mundo em cobertura, perdendo apenas para Austrália e Indonésia. Fonte: Global Mangrove Aliance

O Atlas dos Manguezais do Brasil aponta que a costa amazônica possui 80% da cobertura brasileira de mangues. Lá estão 16 Resex (Reservas Extrativistas), três TIs (Terras Indígenas) e territórios quilombolas (ICMBio, 2018) que, juntos, formam a maior reserva de mangues da América do Sul. 

Com a intensa e necessária dinâmica das marés, a formação vegetal do manguezal pode ser subdividida em três categorias:  

  • Mangue-vermelho (Rhizophora mangle) – É a formação vegetal que se encontra mais próxima ao curso d’água. Suas raízes ficam a maior parte do tempo submersas.

  • Mangue-preto, siriúba, seriba (Avicennia schauriana) – É uma espécie de tronco de cor castanho-calara que possuí raízes expostas ao ar que sustentam a árvore. Essa adaptação é necessária para a vida no solo lamacento e com pouco oxigênio do mangue. Intercala momentos submersa e exposta, dependendo da maré e está localizada na franja do manguezal e ao longo dos rios.

  • Mangue-branco, tinteira (Laguncularia racemosa) – É a formação vegetal mais distante do curso d´água. As raízes do mangue-branco são semelhantes às do mangue-preto, porém com pneumatóforos (tipo de raiz exposta e adaptada para troca de oxigênio) menos desenvolvidas e em menor número.

BIODIVERSIDADE

O mangue é um dos sistemas com maior biodiversidade que se tem conhecimento. Abriga mamíferos, répteis, crustáceos, aves, mamíferos marinhos, peixes, muitos insetos e outros

CARANGUEJO-UÇÁ, UM DOS SÍMBOLOS DO MANGUE

Pescada amarela, camarões e caranguejos também dependem dos mangues em seu ciclo de vida. Além disso, fazem parte da alimentação de milhares de pessoas todos os anos e são importantes para as economias locais

PEIXE-SERRA, ESPÉCIE EXTREMAMENTE AMEAÇADA DE EXTINÇÃO E QUE DEPENDE DOS MANGUES PARA VIVER

O mangue é um berçário de vida marinha. Muitas espécies de peixes, como o robalo, o mero e a garoupa, usam as regiões de mangue para a desova e crescimento de seus filhotes

ROBALO, ESPÉCIE DE PEIXE MARINHO QUE SE REPRODUZ E SE DESENVOLVE EM ÁREAS DE MANGUE

AMEAÇAS

Apesar da importância econômica, para o sequestro de carbono, para a biodiversidade e para a evitar o assoreamento das praias os manguezais do Brasil sofrem com o desmatamento e a ameaça constante de desastres ambientais, como o ocorrido em 2019 com o vazamento de óleo.

No NE e no SE, o desmatamento nos manguezais pode chegar a até 40%. Os remanescentes estão ameaçados por especulação imobiliária e avanço das fazendas de camarão (ICMBIO, 2018)


O vazamento de óleo que atingiu a costa do Nordeste em 2019 também impactou diretamente áreas importantes de mangue. Um dos vários locais afetados foi a foz do rio Massagana na cidade de Cabo de Santo Agostinho. O óleo encobriu as raízes do mangue do local, sufocando as árvores. Também há relatos de tocas de caranguejos cobertas por óleo.

PESCADORES RETIRAM PETRÓLEO CRU DE MANGUE NA CIDADE DE CABO DE SANTO AGOSTINHO (PE), EM 2019

O vazamento de óleo que atingiu a costa do Nordeste em 2019 também impactou diretamente áreas importantes de mangue. Um dos vários locais afetados foi a foz do rio Massagana na cidade de Cabo de Santo Agostinho. O óleo encobriu as raízes do mangue do local, sufocando as árvores. Também há relatos de tocas de caranguejos cobertas por óleo.

Até hoje, não há clareza sobre o tamanho do impacto que o vazamento de óleo causou no meio ambiente

 

Em resposta emergencial a essa tragédia, o WWF-Brasil forneceu EPIs adequados para este tipo de situação aos voluntários que atuaram na remoção do petróleo cru, o que ajuda a resolver apenas a emergência. Precisamos entender os impactos a médio e longo prazo com estudos científicos e pesquisas. Com base no resultado destas análises poderemos direcionar os esforços de restauração do ecossistema marinho atingido.

O TRABALHO DO
WWF-BRASIL

DELTA DO PARANAÍBA

O projeto Asas para o Delta, desenvolvido na Resex Marinha do Delta do Parnaíba, tem como objetivos:

  • Promover processos de mobilização, pesquisa-ação e fortalecimento do protagonismo das organizações sociais na gestão participativa da unidade de conservação

  • Mobilizar e formar grupos de Jovens Comunicadores Comunitários do Delta, para produção de conteúdos informativos, educacionais e de comunicação para o melhor exercício da cidadania, integração social


O projeto teve início em março de 2019 pela Amar Delta (Instituição que reúne todas Associações da Resex Marinha do Delta do Parnaíba) em parceria com o WWF-Brasil, ICMBio, Universidade Federal Delta do Parnaíba, colônia Z-&, Instituto Tamanduá do Brasil, CPP e APA do Delta do Parnaíba.

Criada em 2000, a Reserva Extrativista Marinha do Delta do Parnaíba fica na cidade de Parnaíba, no Piauí, na divisa com o Maranhão. É formada pela ilha das Canárias, segunda maior do Delta e conta com cinco povoados (Canárias, Passarinho, Caiçara, Torto e Morro do Meio) e abriga aproximadamente 3 mil habitantes, que vivem basicamente da pesca, da cata do caranguejo, extrativismo vegetal e da agricultura em pequena escala.

PESCADORES TRADICIONAIS NO DELTA DO PARANAÍBA SÃO PROTAGONISTAS DO PROJETO ASAS PARA O DELTA

CONEXÃO ABROLHOS

O WWF-Brasil é um dos membros da Conexão-Abrolhos, uma mobilização em defesa de uma Abrolhos e mangues próximos sem exploração de petróleo.

Em setembro de 2019, uma petição liderada pela ativista ambiental Tamires Felipe Alcântara pela plataforma Change.org, e apoiada pela Conexão-Abrolhos mobilizou mais de 1,2 milhão de assinaturas.

O movimento gerou pressão e nenhuma empresa ofereceu lances no leilão, que previa a inclusão de quatro blocos de exploração de petróleo e gás na bacia de Camamu-Alamada, próximo a região de Abrolhos e cuja rota de um possível desastre ambiental inclui os mangues da região Nordeste.

Entre as ações desenvolvidas, destacamos os relatórios enviados às empresas de iniciativa privada e o poder público sobre os riscos da exploração de petróleo na região. Fazem parte da Conexão-Abrolhos o WWF-Brasil, a Conservação Internacional, a Rare-Brasil e a SOS Mata Atlântica.

JUNTE-SE A NÓS EM DEFESA DOS MANGUES

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CULTURA DO MANGUEZAL

O mangue normalmente é motivo de orgulho para as pessoas que vivem nele e influencia diretamente na cultura local. Podemos citar três estilos musicais que representam a essência do mangue são eles o Carimbó, o Tambor de Crioula e o Cacuriá.

Estes estilos músicas são conhecidos por destacar a descrição do ambiental natural, atividades tradicionais, pesca e outros costumes locais. Mestre Lucindo, é considerado um mestre de carimbó, e deu nome à RESEX Marinha de Mestre Lucindo no Pará, uma das maiores reservas extrativistas do Brasil.

O mangue também influenciou grande parte das músicas de Chico Science, fundador da banda Nação Zumbi que fez muito sucesso nos anos 90

 
Além disso a culinária do mangue nos trouxe o camarão, casquinha de siri, caranguejo, bobós e pirão. Sem contar os frutos, temperos e estilos de culinária únicos.
 
O mangue também é o “lar” de folclores tradicionais brasileiros. No Pará, a Matinta-Pereira, Boiúna e Mãe-do-Caranguejo, são conhecidas como entidades protetoras dos pescadores do mangue. Quando elas estão presentes fazem com que aqueles que maltratam o mangue se percam no caminho de volta para casa.
 
Na Bahia, a orixá Nanã é a personificada por uma mulher de idade e representa a fertilidade da vida selvagem do mangue. Segundo a cultura local, é ela quem protege os caranguejos na época da reprodução, também conhecida como “andada”, período que as fêmeas se deslocam em grandes e lentos grupos sob a lama. A captura do caranguejo durante o acasalamento é proibida por lei. 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DONATO, D. C., KAUFFMAN, J. B., MURDIYARSO, D., KURNIANTO, S., STIDHAM, M., & KANNINEN, M. (2011). Mangroves among the most carbon-rich forests in the tropics. Nature geoscience, 4(5), 293-297. - https://www.nature.com/articles/ngeo1123?words=breivik

HOEGH-GULDBERG, O. et al. 2015.Reviving the Ocean Economy: the case for action - 2015. WWF International, Gland, Switzerland., Geneva, 60 pp. - https://www.worldwildlife.org/publications/reviving-the-oceans-economy-the-case-for-action-2015

ICMBio (2018). Atlas dos Manguezais Brasileiros - Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Brasília, 176 p. ISBN 978-85-61842-75-8. - https://www.icmbio.gov.br/portal/images/stories/manguezais/atlas_dos_manguezais_do_brasil.pdf

KAUFFMAN, J. B, ARIFANTI, V. B., HERNÁNDEZ TREJO, H., DEL CARMEN JESÚS GARCÍA, M., NORFOLK, J., CIFUENTES, M., ... & MURDIYARSO, D. (2017). The jumbo carbon footprint of a shrimp:
carbon losses from mangrove deforestation. Frontiers in Ecology and the Environment, 15(4), 183-188. - https://esajournals.onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1002/fee.1482

KAUFFMAN, J. B., BERNARDINO, A. F., FERREIRA, T. O., GIOVANNONI, L. R., DE O. GOMES, L. E., ROMERO, D. J., ... & RUIZ, F. (2018). Carbon stocks of mangroves and salt marshes of the Amazon region, Brazil. Biology letters, 14(9), 20180208. - https://royalsocietypublishing.org/doi/full/10.1098/rsbl.2018.0208

CSF. (2018) – Gasparinetti, P.; Jericó-Daminello, C.; Seehusen, S. E.; Vilela, T. - Os valores dos serviços ecossistêmicos dos manguezais brasileiros, instrumentos econômicos para a sua conservação e o estudo de caso do Salgado Paraense. Conservation Strategy Fund (CSF), Brasília, DF - https://www.funbio.org.br/wp-content/uploads/2018/04/Os_valores_dos_servicos_ecossistemicos_dos_manguezais_brasileiros.pdf

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