O buraco do tatu



27 outubro 2008
Nos igapós, encontra-se grande diversidade biológica
© WWF-Brasil / Zig Koch
Por Ana Cíntia Guazzelli

Dinamismo e adaptações são características comuns de expedições realizadas na Amazônia. Na Mariuá-Jauaperi não é diferente. Todos os dias, antes das cinco horas da manhã, começam os primeiros movimentos na embarcação. Normalmente, são os integrantes da tripulação e as cozinheiras que se apressam para preparar o café da manhã.

Pouco a pouco, as redes atadas no piso inferior do barco cedem lugar para equipes de pesquisadores de diferentes áreas, que se aglomeram na saída a espera de suas voadeiras. No geral, não há confusão. É na noite anterior que são fechados os acordos de destinos e caronas do dia seguinte.

Estamos atracados na margem direita do rio Jufari, próximo da comunidade do Caicubi. A lentidão da correnteza e o leve movimento da água escura oferecem à paisagem um tom aparente de monotonia. Tudo parece calmo e sereno. Lindo.

Mas a floresta que abriga a maior diversidade biológica do planeta reserva surpresas para os que nela entram. Ontem, no final da tarde um jacaré tinga de mais de um metro e meio de cumprimento boiou por trás do nosso barco, cruzando calmamente o lago de uma margem à outra. Infelizmente, não temos fotos, porque Zig Koch aproveitava o tempo para registrar os répteis, anfíbios e aracnídeos capturados pelos pesquisadores.

Hoje, bem cedo, saímos para gravar uma pescaria de tucunaré (Cichla sp), prática comum na região, para subsistência e esportiva. Alberto Ferreira, o Betinho, nosso guia e piloteiro, conseguiu fisgar um de aproximadamente dois quilos. Alguns moradores da comunidade do Caicubi garantem que ao longo dos anos a quantidade de pescados disponíveis no rio Jufari tem diminuído significativamente.

Apesar disso, esta região ainda é privilegiada por abrigar algumas espécies ameaçadas de extinção. Hoje, em caminhada por uma mata de terra firme com a bióloga Carla Bantel, especialista em pequenos mamíferos, nos deparamos com uma toca de tatu canastra (Priodontes maximus)*, um mamífero que chega a medir 1,75 m, com o rabo, e a pesar 30 kg. Está ameaçado de extinção. A sorte deste bicho aqui no Caicubi é que, por acreditarem que ele se alimenta de cadáveres, os moradores do local não o valorizam como caça.

Outro animal avistado ao longe e que também está ameaçado foi um peixe-boi.

Amanhã, às 5h30, nossa equipe subirá o rio Jufari até a comunidade do Caju, onde encontraremos os outros integrantes da expedição.

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