SOS Amazônia trabalha no combate ao fogo no Acre

Organização com mais de 30 anos de experiência firma contrato com o WWF-Brasil para criação de três brigadas de incêndio em regiões amplamente afetadas por queimadas

© Ramon Aquim / WWF-Brasil
20 de maio de 2020

 

O líder seringueiro Chico Mendes, assassinado em 1988 em decorrência de sua luta em defesa da floresta e dos povos tradicionais, foi um dos fundadores da SOS Amazônia. No Acre, a organização atua principalmente no oeste do estado, na região do Vale do Juruá, além de Tarauacá e Feijó, dois dos três municípios que mais registraram focos de queimadas em 2019.

Das cinco Unidades de Conservação federais que mais queimaram em agosto e setembro do ano passado no Acre, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), três estão localizadas justamente no Vale do Juruá: a Reserva Extrativista do Alto Juruá (133 focos), o Parque Nacional da Serra do Divisor (60) e a Reserva Extrativista Riozinho da Liberdade (36). Feijó, que concentra parte das terras indígenas demarcadas no estado, incluindo as que abrigam os isolados e de recente contato no alto rio Envira, totalizou mais de 1.000 focos nesse período. Enquanto Tarauacá somou 669.

Assim como em outras partes da Amazônia, muitas pessoas foram encorajadas pelo discurso do governo federal a desmatar e a botar fogo na vegetação, acreditando que não seriam punidas. A falta de fiscalização e a postura do governador do Acre, Gladson Cameli, também contribuíram para a situação. "Não vou permitir que prejudiquem quem quer trabalhar", disse Cameli no primeiro semestre de 2019. "Não paguem (multas), quem manda sou eu", acrescentou.

QUEIMADAS ATINGEM LUGARES REMOTOS

Embora existam cerca de 500 bombeiros no Acre, além de 240 militares do Exército e alguns funcionários do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis ​​(Ibama) preparados para o combate ao fogo, esse número já se mostrou insuficiente. Tanto que as queimadas avançaram também nas margens de rios e igarapés - incluindo os lugares mais remotos. De acordo com o INPE, de 1o de janeiro a 6 de outubro de 2019, foram registrados 6.482 focos de queimadas no estado - um aumento de 3,5% em relação ao mesmo período de 2018.

Com o objetivo de combater o avanço do fogo, o WWF-Brasil firmou parceria com a SOS Amazônia para formação e treinamento de três brigadas de incêndio e para a compra de itens como drone, bombas costais, abafadores, luvas, óculos anti-chamas, máscaras e capacetes. O propósito desse projeto é reduzir as queimadas na região do Vale do Juruá, Feijó, Tarauacá e Sena Madureira. Pelo menos 300 pessoas serão beneficiadas diretamente e 900, indiretamente.

Entre outubro e novembro de 2019, 19 brigadistas foram capacitados para atuar na Reserva Extrativista do Alto Juruá, na Reserva Extrativista Riozinho da Liberdade, na Floresta Estadual do Mogno e na Floresta Estadual do Rio Gregório. A expectativa é de que eles ajudem a debelar as queimadas que virão a partir de 2020.

© Ramon Aquim / WWF-Brasil

SOS AMAZÔNIA FEZ 31 ANOS

Em 2019, a ONG completou 31 anos. “O movimento para criar a SOS Amazônia foi em defesa da causa extrativista”, lembra o secretário-técnico, Álisson Maranho. Desde então, a organização se tornou uma das mais respeitadas da região. Soma 50 mil hectares de florestas manejadas e conservadas, 40 mil filhotes de tartarugas entregues à natureza, 8.960 pessoas treinadas, 12 cooperativas agroextrativistas fortalecidas e assistência técnica a 3 mil famílias desde 2015.

Maranho destaca que o desenvolvimento de projetos que promovam a economia extrativista, em paralelo a ações de combate ao desmatamento e a queimadas, é essencial para garantir a conservação da região.

Com área de 164 mil km2 e 881 mil habitantes, o Acre é um dos menores estados da Amazônia Legal em extensão territorial e população. É nessa pequena porção de terra no extremo oeste do Brasil que se concentra uma das maiores biodiversidades do planeta. O Vale do Juruá é apontado como uma das regiões mais ricas em fauna e flora do mundo. Banhado por inúmeros rios e igarapés, seu quase isolamento o torna um dos pontos mais bem preservados do bioma.

O Acre detém 87% de sua cobertura florestal. Mas esse estado de conservação só é possível graças à presença de Unidades de Conservação e Terras Indígenas, que estão cada vez mais pressionadas. Regiões como o Vale do Juruá sofrem constantemente com o impacto da ação humana, tendo o avanço da criação de gado como a principal ameaça.

© Ramon Aquim / WWF-Brasil
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Rivaldo Pereira (foto), presidente da Coopercintra, explica que o murumuru é o principal produto trabalhado pela cooperativa

© Ramon Aquim / WWF-Brasil
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BATALHA PELO MODELO AGROFLORESTAL

Projetos da sociedade civil e de organizações comunitárias que buscam incentivar a adoção de práticas econômicas sustentáveis ​​acabaram fragilizados pela política dos governos Bolsonaro e do estado do Acre, que também possui um forte discurso de fortalecimento do agronegócio em detrimento da economia florestal.

Mas organizações como a SOS estão batalhando para mostrar que o modelo agroflorestal e as garantias de preço e mercado para produtos extraídos da floresta são viáveis ​​e geram renda para a população. Uma das linhas de atuação é assessoria técnica e florestal, com foco na transição agroecológica, sem desmatamento ou uso de fogo, para povos e comunidades tradicionais.

Entre os projetos focados no modelo agroflorestal no Vale do Juruá está o Valores da Amazônia, desenvolvido de 2015 a 2018. Financiado com recursos do Fundo Amazônia, fortaleceu nove cooperativas para o uso sustentável de produtos não-madeireiros, trabalhando com três cadeias específicas: óleo vegetal, cacau silvestre e borracha.

Entre abril e agosto, por exemplo, as comunidades ribeirinhas do Acre e do Amazonas entram na floresta para coletar murumuru. Tudo dessa fruta é aproveitado. A principal substância extraída é o óleo, que também é transformado em manteiga e vendido para a indústria cosmética. Já a casca que envolve as amêndoas é usada para a produção de ração.

Para chegar ao processamento, o murumuru precisa sair das localidades mais longínquas até a sede da Cooperativa dos Produtores de Agricultura Familiar e Economia Solidária de Nova Cintra (Coopercintra), no município de Rodrigues Alves, uma das nove beneficiadas pelo projeto da SOS Amazônia. Com 115 integrantes, a Coopercintra também trabalha com cacau silvestre e, aos poucos, vem se dedicando novamente à extração de látex.

Até passar pelo treinamento oferecido pela SOS Amazônia, os membros da Coopercintra não conheciam as técnicas de manuseio correto do murumuru. “Antes disso, nosso murumuru era comprado sem muito cuidado, cheio de sujeira. Mas, depois das oficinas de boas práticas, começamos a comprar produtos de boa qualidade”, diz Rivaldo Pereira, presidente da cooperativa.

Bem preparadas, as comunidades extrativistas do Juruá aumentaram a produção e, consequentemente, suas receitas. Esse resultado pode ser comprovado com o crescimento de oleaginosas entre as nove cooperativas, que passou de oito para 22 toneladas em 3 anos. E com o valor pago pelo quilo de murumuru, que saltou cerca de 75% entre 2015 e 2019.

Todos esses avanços, porém, estão ameaçados pelas mudanças na política brasileira. Desde o início do ano passado, os pagamentos de subsídios para produtos como borracha e murumuru foram suspensos. O governo do Acre alega que os contratos firmados na gestão anterior estão sob revisão. E a  falta do benefício obrigou alguns extrativistas a abandonar a atividade na floresta.