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Projeto do WWF-Brasil ajuda a integrar Terras Indígenas do Mosaico do Gurupi

Doação de equipamentos permite, pela primeira vez, ações em conjunto para combate a queimadas e monitoramento territorial no Maranhão e no Pará

 

14 de maio de 2021 

 

A diversidade é a marca do Mosaico de Áreas Protegidas do Gurupi, um território de 17,9 mil quilômetros quadrados situado entre o oeste do Maranhão e o leste do Pará. Diversidade de espécies, de povos e culturas, mas também de ameaças. Ali, um conjunto de projetos do WWF-Brasil fortaleceu a proteção territorial em quatro Terras Indígenas, ajudando também seus habitantes na integração de esforços de monitoramento de suas áreas.

Composto por seis Terras Indígenas (TI) e uma reserva biológica, o Mosaico é a morada de vários povos indígenas e abriga a maior área remanescente de Floresta Amazônica em território maranhense, com fauna terrestre e aquática de grande importância. Concentra também a área com mais espécies endêmicas do Pará. Os povos indígenas da região, com suas diferentes culturas, enfrentam um problema comum: a constante invasão por não-indígenas e a devastação associada à violência e a atividades ilegais, como extração de madeira, caça, expansão agrícola e conflitos fundiários.

Os projetos do WWF-Brasil foram realizados em parceria com associações indígenas de quatro das seis TIs que compõem o Mosaico: Alto Rio Guamá, Alto Turiaçu, Caru e Rio Pindaré. O Mosaico abrange ainda a Reserva Biológica (Rebio) do Gurupi e as TI Awá e Araribóia.

De acordo com Osvaldo Barassi Gajardo, especialista em Conservação do WWF-Brasil, os projetos nas quatro TIs são independentes, mas complementares, já que as propostas apresentadas pelas associações são similares, refletindo as características homogêneas do Mosaico. O objetivo principal, salienta Gajardo, é qualificar os grupos de proteção territorial para conduzir ações de monitoramento dos territórios e para a preparação do combate a queimadas e incêndios florestais.

"Nessas Terras Indígenas já existiam grupos de monitores, os “Guardiões da Floresta”, que identificam o potencial de invasões, situações de conflito e alertam os órgãos de controle. Em algumas delas há também grupos de brigadistas. Por meio da aquisição de equipamentos para esses dois grupos, os projetos visam qualificar as ações de proteção do território", disse Gajardo.

Os projetos envolveram a compra, por solicitação das associações, de quadriciclos, drones, GPS, rádios-comunicadores, computadores, câmeras fotográficas, ferramentas de combate ao fogo, equipamentos de proteção individual e insumos para atividades de proteção territorial, como combustível e alimentação.

O aspecto mais importante dos projetos é que eles propiciaram, pela primeira vez, uma integração desses grupos de brigadistas e Guardiões da Floresta das Terras Indígenas do Mosaico, para a realização de ações conjuntas, frisa Gajardo. Mais estruturados, eles têm condição de prestar apoio uns aos outros.

"Embora sejam vizinhos e trabalhem em um território integrado por meio do Mosaico, esses grupos não tinham a oportunidade de trabalhar em conjunto. E, pela primeira vez, um projeto proporcionou essa integração. Os projetos avançaram de maneira uniforme, suprindo demandas parecidas. Com isso, os indígenas de uma TI puderam se prontificar a prestar auxílio às ações urgentes em outras TIs", explicou Gajardo.

Aprofundando os vínculos

Um desses projetos foi feito em parceria com a Associação Indígena Comunitária Wirazu, da TI Caru. De acordo com o secretário da Associação, João Reis Guajajara, conhecido como Branco, a iniciativa intensificou a cooperação entre as Terras Indígenas do Mosaico.

"Tanto o nosso grupo de Guardiões da Floresta como a brigada de combate a incêndios já vinham fazendo parcerias com os vizinhos. Mas o projeto com o WWF-Brasil abrangendo as quatro TIs teve um enorme impacto, aprofundando esse vínculo", contou Branco. "O fato de várias das TIs agora terem grupos devidamente equipados facilitou a integração entre elas. Quando os vizinhos têm uma emergência e precisam de ajuda, enviamos uma comitiva de 20 a 30 pessoas para lá. Também recebemos ajuda quando necessário”.

Segundo Branco, as equipes das quatro TIs têm feito ações conjuntas de monitoramento com bastante frequência. "Isso aumentou a oportunidade de trocar conhecimentos. Cada um ensina aos outros estratégias e a utilizar equipamentos. Hoje, somos, sem dúvida, as quatro TIs que mais trabalham em conjunto no Maranhão", acrescenta.

O projeto, de acordo com Branco, proporcionou para a Associação a aquisição de um drone, uma moto, celulares, EPIs, enxadas, pás, rastelos, facões, foices e machados, um motor para bombeamento de água, um gerador para garantir a carga dos celulares e do drone, além de auxílio para alimentação nas ações de campo.

A TI Caru, com 173 mil hectares, tem cerca de 400 habitantes divididos em quatro aldeais Guajajara e três aldeias Awa Guajá, além de povos indígenas isolados. As principais ameaças, historicamente, são invasões de caçadores e madeireiros. De acordo com Branco, a brigada e os Guardiões, com suas ações fortalecidas pelos equipamentos, têm conseguido excelentes resultados, com redução do número de invasões. Hoje, o principal problema são os incêndios florestais, que são combatidos e prevenidos pela brigada.

"Esses equipamentos nos deram muita agilidade para monitorar o território. Se há uma invasão, nós localizamos, filmamos e produzimos um relatório consistente para as autoridades. Se tem um alerta de invasão ou de fogo em área inacessível para as caminhonetes, vamos de moto fazer a verificação ou levantamos o drone. Esses equipamentos aumentaram nossa capacidade de proteção do território e de cooperação com outras TIs, o que potencializou os resultados", disse Branco.

© Bruno Caragiu Guajajara
© Bruno Caragiu Guajajara

A aquisição de motocicletas, drones, computadores e diversas outras ferramentas de combate ao fogo deu um impulso decisivo à atuação das brigadas nos territórios indígenas

Protagonismo indígena

Equipamentos do mesmo tipo foram adquiridos também pela Associação das Mulheres Indígenas do Gurupi, na TI Alto Rio Guamá, localizada na porção oeste do Mosaico do Gurupi, já no estado do Pará. Ali, a parceria com o WWF-Brasil foi especialmente importante para o trabalho de proteção territorial realizado pelo grupo Guardiões da Floresta, segundo a presidente da associação, Valsanta Tembé.

"O projeto foi de grande importância para a consolidação do trabalho dos nossos Guardiões. Agora temos os materiais necessários para a nossa luta de proteção territorial. Conseguimos adquirir equipamentos que são fundamentais para que os Guardiões possam coibir a entrada de madeireiros, caçadores e pescadores ilegais, que são os principais problemas no nosso território", disse Valsanta.

O protagonismo dos indígenas na defesa de seus próprios territórios é fundamental para deter a destruição dos recursos naturais da região, segundo Valsanta. Ela afirma que a crescente colaboração entre os vários povos indígenas do Mosaico também é um fator essencial para essa proteção. A TI Alto Rio Guamá tem 280 mil hectares e população de mais de 1,7 mil habitantes de três povos: Tembé, Awa Guajá e Ka'apor.

"Esses invasores acabam tirando nossos recursos excessivamente, porque comercializam nossos peixes e animais. Isso afeta nosso dia a dia, porque é da floresta que a gente tira os nossos alimentos. É ela que sustenta a culinária Tembé", reforça Valsanta.

A região está sob intensa pressão. A riqueza da fauna e da flora identificada no Mosaico do Gurupi inclui mais de 46 espécies endêmicas e ameaçadas de extinção. Entre as graves ameaças na área de abrangência do Mosaico está o desmatamento predatório, produzido por grandes projetos agrícolas, construção de estradas, exploração madeireira e atividade mineral. Comunidades indígenas passaram a sofrer também com o assoreamento dos rios e a diminuição da oferta de animais de caça, impactando diretamente na sua fonte alimentar. "É por isso que a proteção territorial é tão importante para nós. Por isso, faz parte do nosso cotidiano", disse Valsanta.

A área de influência do Mosaico do Gurupi é cortada pelas rodovias BR-316, BR-222 e pela Estrada de Ferro Carajás (EFC), que desde 2012 passa por um processo controverso de duplicação. Na zona de amortecimento da Rebio Gurupi, que faz parte do Mosaico, existem 108 projetos de assentamento de reforma agrária. Tudo isso aumenta a pressão socioambiental.

Complemento decisivo

Na maior Terra Indígena do Mosaico Gurupi e do Maranhão, a TI Alto Turiaçu, o desafio da proteção territorial é uma preocupação antiga das lideranças indígenas. Esse grande território de 531 mil hectares vive sob intensa pressão de madeireiros, garimpeiros e invasores, mas os esforços de proteção territorial remontam ao início da década de 1980, quando a TI foi demarcada.

"Depois da demarcação, em 1982, houve uma grande operação de remoção dos invasores, com determinação da Justiça. Mas ainda havia sete serrarias ativas no limite noroeste do nosso território. Havia roças grandes e pastagens, com muito gado. As queimadas eram frequentes e invadiam nosso território. A partir dali, achamos que seria bom ter uma estratégia para proteção dos limites das nossas terras", disse Iracadju Ka’apor, diretor-geral da Associação Ka’apor Ta Hury do Rio Gurupi.

Iracadju, que é cacique da aldeia Turizim, conta que o projeto da Associação complementa de forma decisiva o trabalho de monitoramento do território que já vinha sendo realizado historicamente pelos indígenas. A TI Alto Turiaçu tem cerca de 1,5 mil habitantes, dos povos Awa Guajá, Ka'apor e Tembé.

"Realizamos muitos outros tipos de projetos, como oficinas, e solicitamos equipamentos que complementaram esses trabalhos, como câmeras e computadores, que nos permitiram criar um aplicativo de celular para mapeamento e monitoramento", contou o cacique.

O projeto em parceria com o WWV-Brasil permitiu também a aquisição de um drone e um quadriciclo. "São ferramentas importantes em uma TI extensa como a nossa. Há muitos locais onde não conseguimos chegar, mas agora temos acesso à observação com o drone. Com o quadriciclo, levamos equipamentos e gêneros alimentícios a pontos de difícil acesso. Muitas vezes, os madeireiros estão nos limites ou até dentro do nosso território e nós aproveitamos as expedições para conectar outras aldeias ao trabalho de monitoramento", explica Iracadju.

É nessas ações de monitoramento, com uso da tecnologia, que os Guardiões localizam invasores em atividades ilegais. "A tecnologia é fundamental para podermos relatar os crimes ao Estado, complementando o papel de vigilância do Poder Público. Nos monitoramentos, encontramos muitos madeireiros e mandamos as coordenadas imediatamente às autoridades. Isso não só gera operações, mas estabelece uma parceria nossa com o Estado", garantiu o cacique.

Com a maior agilidade dos Guardiões da Floresta e da brigada de combate ao fogo, o cronograma de monitoramentos se intensificou e a conexão com as outras TIs aumentou, afirmou Iracadju. "Estamos em contato constante com o pessoal das outras TIs do Mosaico. Como nós temos bastante experiência com monitoramento, outras TIs veem o que é possível fazer e se inspiram a fazer também. Já fizemos trabalhos com o pessoal de todas elas: Caru, Rio Pindaré, Araribóia e com os Tembé, no Pará", diz.

O desafio do fogo

Na TI Rio Pindaré, o projeto do WWF-Brasil foi realizado em parceria com a Associação Indígena Comunitária Maynumy. De acordo com a presidente da Associação, Arlete Guajajara, o contato com as demais TIs do Mosaico tem favorecido a proteção territorial. "Quando vamos fazer uma operação maior, mobilizamos os parentes das outras terras. E também estamos à disposição para apoiar ações fora daqui", disse Arlete.

Com seus 15 mil hectares, a TI Rio Pindaré não é tão extensa, mas sofre muito com as queimadas. "A TI está se recuperando bem rapidamente, mas era uma das mais devastadas no Maranhão, especialmente por causa da ação dos não-indígenas. Por isso, temos uma brigada de combate ao fogo, há pelo menos seis anos, e temos um intenso trabalho de monitoramento do território", afirmou.

A aquisição, por meio do projeto, de duas motocicletas, um drone, um computador e diversos outros equipamentos de combate ao fogo, deu um impulso decisivo à atuação da brigada, o que garantiu excelentes resultados na prevenção do fogo, segundo Arlete. "O projeto foi aprovado no fim de 2019 e a execução começou em maio de 2020. Tivemos pouquíssimos incêndios no ano passado e, como vamos cuidar bem dos equipamentos e mantê-los à disposição, vamos ter menos queimadas ainda em 2021. O nosso grupo de brigadistas ficou muito bem equipado e as ações de monitoramento ficaram mais eficazes. Estamos utilizando o drone para fazer monitoramentos diários", contou.

Localizada inteiramente no Maranhão, a TI Rio Pindaré tem cerca de 1,7 mil habitantes do povo Guajajara. De acordo com Arlete, além dos incêndios, o território é historicamente pressionado por conflitos fundiários e ameaças de invasão de madeireiros e caçadores. "Essas invasões foram bastante reduzidas desde que começamos a integrar os trabalhos dos nossos três grupos: os Guardiões, que fazem a vigilância territorial, a brigada de combate ao fogo e o Conselho de Mulheres. O projeto com o WWF-Brasil foi útil para essas três frentes, pois os equipamentos são utilizados pelos três grupos. Portanto, foi muito importante também para a nossa proteção territorial", destaca.

© Genilson Guajajara