Exemplo de resistência

Anos depois de quase ser extinto, o povo Jiahui continua lutando para manter vivas sua cultura e suas terras, trabalhando também na prevenção de queimadas

© APIJ / WWF-Brasil
01 de junho de 2020

 

Os Jiahui são um exemplo de resistência. Por muito pouco essa etnia não foi extinta depois do contato com o “homem branco”. A construção da BR-230, a Rodovia Transamazônica, pelo regime militar brasileiro (1964-1985), que tinha como promessa levar “desenvolvimento” para o Norte do país, causou muita destruição tanto para o meio ambiente quanto para os povos originários.

Com 4.260 quilômetros de extensão, a BR-230 é a terceira maior rodovia do país, passando por sete estados, da Paraíba ao Amazonas. Durante a construção dessa obra, restaram apenas seis Jiahui na região de Humaitá. “Muitos de nossos parentes mais velhos morreram por conta de doenças, outros fugiram para a mata”, recorda Elton Diarroi, coordenador-geral da Associação do Povo Indígena Jiahui (APIJ).

Após se reagruparem e reconstruirem laços, os Jiahui buscaram refúgio nas aldeias de seus vizinhos da etnia Tenharim. Até que, no final da década de 1990, a Fundação Nacional do Índio (Funai) iniciou o processo de reconhecimento do território Jiahui. Em outubro de 2004, foi assinado o decreto presidencial que homologou a Terra Indígena Diahui, com 47 mil hectares.  De lá para cá, esse povo vem resgatando seu modo de vida e sua cultura. 

© APIJ / WWF-Brasil
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A TI está localizada no município de Humaitá, no Sul do Amazonas, um dos mais impactados por ações de madeireiros, grileiros e garimpeiros. Ela é cortada pela Transamazônica, o que facilita muito a ação de invasores, que pressionam cada vez mais tentando se apossar de terras e colocar bois no lugar de floresta.

PODER PÚBLICO AUSENTE

A distância da área mais sagrada do território Jiahui, acessível apenas pelo rio Maici numa viagem de quase um dia, não a livra da ação de criminosos em busca de madeira e animais para a caça. Há uma base da Funai no local, mas, por conta do sucateamento do órgão, não há fiscalização. São os próprios indígenas que fazem o monitoramento. O problema é que os custos para chegar e permanecer lá são altos, salienta Elton, tornando inviável a presença constante.

Hoje, os Jiahui somam cerca de 150 indivíduos distribuídos em três aldeias. Apesar de o território ser vizinho de duas Unidades de Conservação e da Terra Indígena Tenharim/Marmelos, o que em tese o deixaria mais protegido, ele está sob constante pressão de grileiros, latifundiários, pecuaristas e madeireiros.

Ainda restam pastos dos tempos em que o território indígena estava invadido por fazendeiros de gado. No período seco, essas áreas se tornam combustível para a proliferação do fogo. Como a pastagem fica às margens da rodovia, é fácil uma queimada se iniciar pela simples ponta de um cigarro de quem por ali trafega. Além disso, os próprios indígenas fazem uso do fogo para limpar os seus roçados. Mas, sem as técnicas de manejo, às vezes as chamas podem escapar do controle, causando danos em áreas mais preservadas.

PREVENÇÃO E COMBATE A QUEIMADAS

Buscando reduzir o impacto dessas ameaças, o WWF-Brasil firmou parceria com a Associação do Povo Indígena Jiahui (APIJ) para desenvolver ações de conscientização do uso do fogo dentro das aldeias e de monitoramento para garantir a proteção do território.

Entre 15 e 20 de março de 2020, os Jiahui se reuniram na aldeia Paranã Pukahü em um curso de capacitação de agentes ambientais indígenas voltado para a prevenção e combate às queimadas. Também foram repassadas noções de operação de GPS e outras tecnologias para a gestão e monitoramento territorial.

Como a agricultura é uma das principais fontes de subsistência dos Jiahui, foram ensinadas técnicas de manejo do fogo para a limpeza dos roçados para evitar incêndios florestais nos períodos mais secos do chamado “verão amazônico”. Na região, o fogo é usado para limpar as áreas que já tiveram a colheita realizada, preparando o solo para a próxima safra.

Os Jiahui produzem alimentos no sistema agroflorestal (SAF), conciliando cultivo de espécies não-nativas com as mais comuns da Amazônia. Se o fogo nos roçados abertos ocorrer sem controle, toda a safra pode ser consumida pelas chamas.

© APIJ / WWF-Brasil
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Ao todo, 82 indígenas participaram do curso, mas os envolvidos diretamente na capacitação foram 35. Para garantir maior engajamento dos Jiahuí, os instrutores adotaram uma metodologia diferenciada, que não ficou restrita ao professor, aos alunos e a uma sala de aula. Houve interação com a comunidade.

“Começava na sala de aula, depois eles iam para a casa de alguém, uma coisa mais de conversa de parente para parente, mais comunitária e interativa”, explica Cleiton Jiahuí, coordenador financeiro da APIJ. “Como as reuniões ficavam muito prolongadas e cansativas, mudamos a metodologia para algo mais leve. Após o almoço, íamos para a casa de alguma liderança para os assuntos começarem a entrar dentro de casa, e todos se questionarem e discutirem melhor as questões que envolvem o nosso povo”.

Durante o curso, os Jiahui também coletaram sementes nas áreas de floresta preservada para o reflorestamento daquelas que foram atingidas pelas queimadas durante o ano passado.

Além dessa capacitação, a parceria com o WWF financiou a aquisição de itens como drone, computadores, câmeras, impressora, mesas, cadeiras, terçados e equipamentos de proteção individual, como luvas e botas. A ideia é fortalecer tanto os trabalhos de articulação da APIJ quanto as ações dos indígenas em campo.