Áreas desmatadas são descobertas após curso de drones

Parceria do WWF-Brasil com a Kanindé visa proteger o território mais biodiverso de Rondônia e que abriga nascentes de 17 rios: a Terra Indígena Uru-eu-wau-wau

© Marizilda Cruppe / WWF
19 de maio de 2020

 

O uso de drones na Amazônia é tão promissor que, em 15 de dezembro de 2019, durante a primeira ronda que a equipe Uru-Eu-Wau-Wau fez em seu território após um curso sobre essa tecnologia ser ministrado pelo WWF-Brasil, foi descoberta uma área desmatada de 1,4 hectare. Cinco dias depois, numa nova vigilância, os indígenas flagraram e fotografaram um helicóptero jogando sementes de grama no mesmo local - indicando que os invasores pretendiam fazer um pasto. A devastação naquele ponto da Terra Indígena ocorreu sete meses antes, de acordo com análise de Mariana Napolitano, gerente de Ciências do WWF-Brasil, com base em dados do sistema Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Awapy Uru-Eu-Wau-Wau, que participou do curso de drones e coordena a equipe de vigilância de seu povo, acredita que o equipamento vai fortalecer o trabalho de proteção realizado pelos indígenas. “Essa parceria (com o WWF-Brasil) vai ajudar muito na vigilância, a combater as queimadas e a descobrir se o pessoal está armado ou não. Invasão aqui é forte: grileiro, garimpeiro, caçador… essas pessoas que gostam de desmatar”, diz. A Terra Indígena Uru-eu-wau-wau é considerada a mais importante de Rondônia, tanto por conta da rica biodiversidade quanto pelo abastecimento de água na região. O território, que tem 1.867.117 hectares de extensão, abriga as nascentes de 17 rios. Cerca de 600 pessoas moram lá.

Israel Vale, coordenador de projetos da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé, que trabalha com os Uru-Eu-Wau-Wau, relata  que costuma acompanhar em sites especializados os focos de calor na Amazônia e que, no auge das queimadas de 2019, chegou algumas vezes a ir de carro tentar checar a extensão do fogo. “A gente queria ver se era na floresta ou em pastos. Mas o acesso, muitas vezes, não era possível. Agora, com o drone, vai ficar mais fácil. Vamos usá-lo para monitorar queimadas, mas também para combater outros ilícitos ambientais, como garimpo, ajudando a polícia e a Funai”, salienta. 

COMPARTILHANDO CONHECIMENTO

Vale, que também participou do curso de drones oferecido pelo WWF-Brasil em dezembro, replicou o conhecimento adquirido. Em fevereiro de 2020, ensinou 15 indígenas Uru-Eu-Wau-Wau a operar a ferramenta, incrementando o trabalho do grupo de vigilância que foi criado há pelo menos 10 anos no território. Mais empoderada, a equipe de Awapy fez novas ações de inspeção, detectou invasões bem maiores e denunciou tudo à Funai. “Segundo os cálculos da Sedam (Secretaria Estadual de Desenvolvimento Ambiental de Rondônia), o desmatamento ultrapassa 1.000 hectares”, frisa Ivaneide Bandeira Cardozo, cofundadora da Kanindé. Ela afirma que pelo menos um homem foi preso, responsabilizado pelo crime, e que foi aplicada uma multa de cerca de R$ 1 milhão.

O projeto “Floresta Sem Fogo”, fruto da parceria entre o WWF-Brasil e a Kanindé, envolve as 7 aldeias mais vulneráveis da Terra Indígena Uru-eu-wau-wau, ​​pois estão em limites de fazendas e mais expostas ao desmatamento e à grilagem. As outras 4 aldeias, que ficam em beiradas de rios ou na divisa de Unidades de Conservação, estão mais protegidas. Embora as ações da Kanindé ocorram  em 1,5 milhão de hectares, elas protegem todo o território. Atividades de vigilância e monitoramento têm sido feitas constantemente neste período de intensa pressão. Além da aquisição de um drone e outros equipamentos, como GPS e câmera, a parceria com o WWF-Brasil também contempla itens como manutenção de barcos e carros - fundamentais para a continuidade das ações na TI.

VEJA MAIS IMAGENS