Antes de ampliar a exploração de petróleo, o Brasil precisa saber: vale a pena?

agosto, 19 2026

Investir hoje em novos campos aumenta o risco de comprometer recursos públicos e privados com uma economia que precisa reduzir sua dependência dos fósseis

Por WWF-Brasil

Em 14 de agosto, a Petrobras anunciou a identificação de indícios de hidrocarbonetos – ou seja: petróleo e/ou gás natural – no poço Morpho, no bloco FZA-M-59, a cerca de 175 quilômetros da costa do Amapá. A descoberta, porém, não responde a uma pergunta crucial que deveria orientar qualquer decisão pública: caso exista uma reserva comercialmente viável, sua exploração gera benefício líquido para a sociedade brasileira? 

Essa resposta exige avaliar, de forma integrada, os custos econômicos, sociais, climáticos e ambientais do projeto. E o Brasil já possui a ferramenta para isso. O Guia de Análise Socioeconômica de Custo-Benefício do Governo Federal estabelece que grandes decisões públicas devem considerar não apenas retornos financeiros, mas também seus impactos sobre toda a sociedade.  

Aplicada à Foz do Amazonas em estudo realizado pelo WWF-Brasil, essa metodologia indica que os custos sociais da exploração superam seus benefícios. Mesmo em um cenário favorável, com 884 milhões de barris recuperáveis e produção de 120 mil barris por dia, o resultado socioeconômico é negativo. 

Na média das simulações, o projeto apresenta resultado financeiro positivo de R$ 8 bilhões, mas resultado socioeconômico negativo de R$ 23 bilhões. Investir no petróleo da Foz do Amazonas pode gerar um prejuízo médio de R$ 22,2 bilhões para a sociedade, enquanto colocar o mesmo volume de recursos em energia renovável traz um benefício líquido de R$ 24,8 bilhões.  

Na prática, optar pelo petróleo significa deixar de gerar uma riqueza líquida de R$ 47 bilhões para o Brasil. Ou seja: o que pode ser rentável para a Petrobras pode representar prejuízo para o país. Em uma empresa controlada pelo Estado, esse risco pode se transformar em menor arrecadação, redução de dividendos para a União e eventual necessidade de apoio público. 

O Brasil também não precisa da Foz do Amazonas para garantir seu abastecimento. O país é exportador líquido de petróleo, e a produção projetada para os próximos anos, baseada em recursos já descobertos, é suficiente para atender à demanda interna. A expansão de uma nova fronteira, portanto, não se justifica pela segurança energética

Há ainda o custo de adiar a transição. Projetos de petróleo exigem anos entre exploração e produção e podem entrar em operação justamente quando a demanda global por combustíveis fósseis estiver em declínio. Investir hoje em novos campos aumenta o risco de ativos encalhados e de recursos públicos e privados comprometidos com uma economia que precisa reduzir sua dependência dos fósseis

A identificação de hidrocarbonetos também não reduz os riscos ambientais da exploração. A Foz do Amazonas é uma região de elevada importância ecológica e sociocultural, marcada pela presença de povos e comunidades tradicionais e uma dinâmica oceanográfica que torna os riscos de um eventual acidente especialmente complexos. Permanecem as ameaças ao Grande Sistema Recifal Amazônico, aos manguezais e aos ecossistemas costeiros, além da complexa dinâmica de correntes que dificulta a contenção de um eventual vazamento e dos impactos que podem atravessar fronteiras e atingir as Guianas e o Caribe. 

A licença atualmente em discussão autoriza pesquisa, não produção. Uma eventual exploração comercial exigirá novo processo de licenciamento e estudos específicos. Portanto, a identificação de hidrocarbonetos não autoriza, por si só, a produção nem encerra o debate sobre seus impactos

Uma eventual decisão de avançar para novas etapas no FZA-M-59 também poderá criar um precedente para a expansão da exploração petrolífera em toda a Margem Equatorial. Por isso, os critérios utilizados neste caso terão consequências que vão muito além de um único bloco

O momento exige justamente o contrário: ampliar a análise antes de avançar. O Brasil está construindo, internacionalmente, um roteiro para a transição para o fim dos combustíveis fósseis, enquanto sua estratégia nacional ainda não foi concluída. Não faz sentido abrir novas fronteiras petrolíferas antes de definir como o país pretende reduzir sua dependência econômica, fiscal e energética do petróleo

Há uma oportunidade concreta que o Brasil ainda pode aproveitar. A metodologia aplicada à Foz do Amazonas é do próprio governo brasileiro e pode orientar decisões sobre a expansão dos combustíveis fósseis. Ao considerá-la antes de autorizar novas fronteiras, o país pode chegar à COP31 – 31ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que acontecerá na Turquia, em novembro de 2026 – não apenas com compromissos de transição, mas com um critério concreto para orientar decisões de investimento e políticas públicas. Para isso, precisa começar em casa. 

Nesse contexto, o WWF-Brasil defende que: 

  • o CNPE (Conselho Nacional de Política Energética) e a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis): suspendam a oferta de novos blocos na Foz do Amazonas até a conclusão e publicação do mapa do caminho nacional para a transição.  
  • o TCU (Tribunal de Contas da União) e os tribunais de contas estaduais: incorporem o risco de ativos encalhados à análise de investimentos públicos e de empresas estatais em novas fronteiras exploratórias.  
  • a Petrobras: divulgue teste de estresse dos ativos da Margem Equatorial nos cenários APS e NZE da Agência Internacional de Energia - cenários globais de energia que podem ser usados para avaliar a resiliência de portfólio frente a restrições de mercado e preços de carbono - e redirecione investimentos para soluções compatíveis com uma economia de baixo carbono.  
  • o Ibama: condicione a licença dos três poços contingentes à atualização da modelagem hidrodinâmica e à realização dos componentes indígena e quilombola.  
  • o Ibama e o MMA (Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima): exijam, em eventual licenciamento da fase de produção, uma análise socioeconômica de custo-benefício conforme o Guia ACB do Governo Federal, incorporando as externalidades climáticas de todo o ciclo de vida do petróleo a ser produzido. 

A questão agora não é apenas se há petróleo. É se faz sentido produzi-lo. Antes de avançar, o Brasil precisa demonstrar que uma nova fronteira exploratória gera benefício líquido para a sociedade, considerando todos os seus custos e riscos – algo que os dados já provam não acontecer na Foz do Amazonas. A ferramenta de análise recomendada pelo próprio governo federal já foi aplicada, mostrando que a conta não fecha. É hora de tomadores de decisão considerarem esses dados e evitarem perdas bilionárias para o país.

Investir no petróleo da Foz do Amazonas pode gerar um prejuízo médio de R$ 22,2 bilhões para a sociedade
© Renato Meireles / Shutterstock
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