Monitoramento da biodiversidade em Territórios Indígenas é tema de oficina

julho, 22 2026

Realizado pelo WWF-Brasil, o encontro, em Brasília, proporcionou troca de experiências e a construção de um plano de ações conjuntas

Por WWF-Brasil

Unir conhecimentos ancestrais às mais sofisticadas tecnologias é uma das iniciativas mais eficazes para monitorar biodiversidade em terras indígenas. Assim como a troca de experiências de diferentes territórios pode ajudar a construir um plano de ação conjunto. Foi pensando nessa construção coletiva que o WWF-Brasil realizou, nos dias 30 de junho e 1º e 2 de julho, uma oficina de Monitoramento da Biodiversidade em Territórios Indígenas (Tis), que contou com a participação de organizações indígenas e indigenistas, instituições acadêmicas, organizações da sociedade civil e órgãos de governo.

Como conclusão foi criado um plano de ações, que inclui um diagnóstico das experiências de monitoramento já existentes e a realização de um seminário com representantes indígenas e parceiros para compartilhamento das experiências, desafios e oportunidades. “Essas atividades fornecerão subsídios para a construção participativa do Programa de Monitoramento da Biodiversidade em Terras Indígenas, proposto pela Funai, fortalecendo as iniciativas já existentes e potencializando a gestão ambiental e territorial nas TIs”, explica Nathali Germano dos Santos, coordenadora de Conservação da Biodiversidade e Recuperação Ambiental da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), que participou da oficina.

Os territórios indígenas sempre desempenharam um papel estratégico para a conservação da biodiversidade, a manutenção de serviços ecossistêmicos e o enfrentamento das mudanças climáticas. Diversos estudos demonstram que essas áreas concentram elevados níveis de integridade ambiental e representam espaços fundamentais para a proteção de espécies, ecossistemas e modos de vida tradicionais.

Nesse sentido, cresce o reconhecimento da importância dos saberes tradicionais e das iniciativas locais de monitoramento territorial e ambiental como componentes essenciais para estratégias mais efetivas de conservação. A ideia, na oficina, foi criar um intercâmbio entre iniciativas que vem sendo realizadas em todo o território com metodologias, ferramentas e arranjos colaborativos voltados ao monitoramento da biodiversidade, vigilância territorial e geração de informações para apoiar a gestão territorial e ambiental.

“Grande parte de toda a biodiversidade está dentro das terras indígenas. Então, a ideia de a gente ajudar a comprovar cientificamente a importância de ter aquelas áreas preservadas serve também para a demarcação de terra indígena, para a autodemarcação e para a ampliação dessas terras”, explica Thiago Castellano, indígena Parintintin, técnico na Gerência de Monitoramento Territorial Indígena da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), um dos participantes do encontro. “Queremos comprovar que estamos fazendo um bem não só pra gente ali, para o nosso modo de vida, mas também para a população como um todo, inclusive as populações que moram nas áreas urbanas”.

Outra participante, Jarine Rodrigues Reis, analista ambiental do Imazon, conta que houve, nos últimos anos, uma aproximação dos povos indígenas que vivem nas imediações das Unidades de Conservação (UCs) monitoradas pelo Instituto. “A gente começou a perceber que eles estavam bastante interessados em tudo que a gente estava fazendo. Com isso, percebemos que o mais importante não era ter o apoio deles, mas que eles, capacitados e instrumentalizados, consigam fazer o monitoramento no território deles, de forma autônoma.”

Segundo a analista, um dos povos que procuraram o Imazon foi o Zo’é, que vive no norte do Pará e é de recente contato. Em outro caso citado por Jarine, o povo Tumucumaque, cujo território fica entre os estados do Amapá e do Pará, sinalizou preocupação com a diminuição da população de jabutis, usado como alimento por eles. “Eles não sabem se é por conta da tradição de fazerem queimadas ou se tem algum outro tipo de pressão em cima dos bichos, como a mudança do clima, mas eles estão propondo até de abrir mão da tradição por conta da sobrevivência da espécie, porque é um alimento para eles também.”

Tracajás e pirarucus

O agente ambiental e cacique Lázaro de Túlio Santos, da aldeia Kumarumã, localizada na Terra Indígena Uaçá, no Oiapoque (AP), conta que ao fazerem o monitoramento de fiscalização e de invasões em seu território (só a sua aldeia tem mais de duas mil pessoas), eles perceberam que também estavam observando os recursos naturais. Por meio de diversos projetos, foi formado um grupo de 25 agentes ambientais, capacitados em diversas frentes, incluindo no monitoramento da andiroba e das madeiras de lei. Outra frente é a do monitoramento dos tracajás, quelônio típico da Amazônia, feito desde o início da década de 2000.

“Iniciamos marcando os tracajás, vendo que distância migravam, onde podiam ser encontrados. Hoje a gente tem esse controle e dá para fazer o manejo dos animais, do transplante dos ovos para ter esse cuidado de não perdê-los e, ao contrário, multiplicá-los. Isso porque, na nossa cultura, ele é o nosso remédio, o nosso alimento, o nosso sustento”, explica Lázaro. Outro cuidado citado por ele é o da pesca na época certa. “A gente tem um acordo de como pescar. Por exemplo, pirarucu, não pode pescar o ano todo, só de junho a novembro.”

O trabalho com os quelônios amazônicos é um dos principais projetos de monitoramento de biodiversidade apoiados pela Funai, segundo Nathali. “No entanto, sabemos que há várias outras iniciativas em curso e a intenção é nos aproximar dessas iniciativas a fim de qualificarmos a atuação da Funai nessa agenda”, explica. Outra preocupação da Fundação é garantir a complementaridade entre a ciência indígena e a não indígena, assegurando que esses povos tradicionais participem de todas as etapas dos projetos – e não apenas como coletores de dados para as instituições envolvidas.

O Escritório do WWF-Brasil sediou a Oficina de Monitoramento da Biodiversidade em Territórios Indígenas (TIs)
© Marina Pereira
Foram três dias de debates, reflexões e construções em conjunto
© Marina Pereira
Encontro reuniu lideranças indígenas, membros de governos e de organizações da sociedade civil
© Marina Pereira
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