julho, 15 2026
Por Ricardo Fujii, especialista em Transição Energética no WWF-Brasil
O Brasil possui vantagens competitivas claras para capitanear a transição energética global. Já contamos com participação elevada de fontes renováveis, que atingiram 49,5% da matriz energética total e 86,8% da matriz elétrica em 2025. Esses números, que demonstram o potencial do país em eólica, solar, bioenergia e hidroeletricidade, ainda podem aumentar. Nesse contexto, o Plano Nacional de Transição Energética (PLANTE) surge como a oportunidade real de modelar o futuro energético do país.
O plano tem por objetivo orientar novos investimentos, reforçar a segurança do fornecimento de energia e impulsionar a política industrial do Brasil. A proposta atual apresenta avanços em termos de governança, integração de políticas públicas e uma abordagem ampla sobre competitividade, justiça social e segurança energética. A construção desse instrumento, iniciada em agosto de 2024, contou com a participação da sociedade civil no seu desenvolvimento e na consulta pública encerrada em junho deste ano.
Contudo, para que a transição seja eficiente, o país precisa tomar decisões concretas e de longo prazo, que garantam as mudanças estruturais necessárias nas próximas décadas. Nesse sentido, embora o texto atual do PLANTE reconheça a necessidade de diminuir a dependência de combustíveis fósseis, ele ainda carece de objetivos, metas, prazos e ações concretas para viabilizar essa diretriz. A expansão das fontes renováveis isoladamente não consolidará a transição se novas fronteiras de exploração de petróleo e gás continuarem sendo abertas. Uma estratégia clara de redução gradual dos recursos fósseis deve acompanhar o avanço das fontes limpas.
Programar essa transição é fundamental para a estabilidade e o desenvolvimento de nossa economia. À medida em que uma economia limpa amadurecer em todo o mundo, estruturas energéticas baseadas em não renováveis perderão valor de mercado. É necessário, portanto, adotar estratégias que evitem o direcionamento de recursos para ativos destinados a ficarem encalhados, reduzindo os riscos econômicos nacionais e trazendo previsibilidade para governos, empresas e sociedade. Um exemplo dos riscos envolvidos é demonstrado em estudo de custo-benefício sobre a expansão de novas fronteiras de petróleo na Amazônia, que aponta a possibilidade de um saldo social negativo de R$ 42,7 bilhões para o país caso a produção de petróleo na região venha a se concretizar.
Portanto, o componente econômico que orienta as decisões energéticas precisa expandir seu horizonte, integrando critérios climáticos, sociais e de interesse público aos modelos tradicionais de viabilidade. Adotar essa visão integrada na governança do PLANTE é o que garantirá uma transição segura, justa e alinhada à realidade econômica global.
Para alinhar a política energética nacional aos compromissos climáticos firmados pelo país e à liderança internacional do Brasil, são necessários três caminhos. O primeiro é o reconhecimento da necessidade de redução da produção e uso de combustíveis fósseis. Esse é um eixo estruturante - a engrenagem central de toda a transição energética brasileira. O segundo caminho é a própria tradução dessa diretriz em medidas práticas, como a revisão de subsídios aos fósseis, o planejamento para a desativação de ativos poluentes, a reorientação de investimentos públicos e privados e o fomento a alternativas limpas. Esse processo exige também a promoção da eficiência energética, a expansão das alternativas renováveis e o apoio a trabalhadores e comunidades afetadas. O terceiro caminho é o estabelecimento de metas claras, indicadores e mecanismos de acompanhamento contínuo, impedindo que o plano se restrinja a uma declaração de boas intenções.
Uma transição energética bem estruturada depende de escolhas coerentes. O desafio atual do PLANTE, ao consolidar a versão final nas próximas semanas, é responder qual será a rota brasileira para estruturar um sistema compatível com o seu potencial para uma economia limpa. Este é um marco histórico e, justamente por entender que o planejamento energético é um esforço contínuo, a próxima etapa será traduzir essa visão em metas claras, mecanismos de implementação e decisões consistentes ao longo do tempo.
Artigo originalmente publicado no portal eixos em 13 de julho de 2026.
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