WWF-Brasil e parceiros atuam em mutirão de serviços para povo Munduruku

junho, 15 2026

Iniciativa facilitada pelo WWF-Brasil estrutura atendimentos de serviços sociais e de saúde como fortalecimento de processos de pós desintrusão na TI Munduruku, na região do Alto Tapajós (PA)

Por Jamille Nunes, do WWF-Brasil

Entre os dias 18 e 22 de maio, dezoito instituições parceiras estiveram engajadas na realização do mutirão de serviços sociais e de saúde voltado ao povo indígena Munduruku, no Alto Tapajós, no Pará.

A ação foi resultado de uma ampla articulação, envolvendo órgãos de governo, sociedade civil e organizações indígenas. Cerca de 1.000 pessoas receberam algum tipo de atendimento, de 58 aldeias.

Os atendimentos sociais  foram de emissão e retificação de documentos (como certidão de nascimento, Carteira de Identidade Nacional, Cartão SUS, Carteira de Trabalho) a serviços de cartório; informação de acesso a programas e benefícios sociais; além de atendimentos médicos e oftalmológicos, distribuição de óculos, entre outros.

Importância da articulação

A iniciativa nasce para fortalecer o processo de desintrusão da TI Munduruku. “Além dos danos ambientais, o garimpo ilegal deixa um legado de contaminação por mercúrio, pressões sobre os modos de vida tradicionais, problemas de saúde e fragilização das estruturas comunitárias”, explica Ariene Cerqueira, especialista de conservação do WWF-Brasil e liderança da área de Redução de Impactos do Garimpo.

“Em áreas que passaram por processos de desintrusão, o desafio não termina com a retirada dos invasores. É preciso apoiar a reconstrução das condições necessárias para que as comunidades possam viver com dignidade, segurança e perspectivas de futuro em seus territórios”, afirma Cerqueira.

Clarissa Tavares, liderança da estratégia de direito de povos e comunidades tradicionais, explica que “ações como essa conectam duas dimensões muitas vezes tratadas como separadas, mas que, na prática, são inseparáveis: a conservação dos territórios e a garantia de direitos dos povos que neles vivem e que historicamente os protegem”.

A coordenadora da Associação Wakoborũn, Ediene Kixiri Munduruku, conta que o mutirão acontece a partir da dificuldade dos povos indígenas de acessar esses serviços na cidade, por conta de distância e custos. “As pessoas que estão aqui vêm de outras aldeias, em busca de atendimento”, declara. Ediene ressalta que a iniciativa nasce de um diálogo entre as lideranças Munduruku da região e o WWF-Brasil, e que “o WWF fez a articulação com diversos órgãos”.

Léo Ferreira, liderança da estratégia do WWF-Brasil na bacia do Tapajós, afirma que para a ação ser realizada, foram necessários meses de preparação, com participação ativa das associações Munduruku envolvidas. “Nós recebemos essa demanda das organizações que compõem o Movimento de Resistência Munduruku Ipereg Ayu, em setembro de 2025. Foram meses de planejamento, e a ção só foi possível pelo engajamento de todos”, afirma Ferreira.

Impactos do garimpo na saúde de povos indígenas

A Fiocruz apresentou os resultados preliminares de estudos de concentração de mercúrio desenvolvidos com os Munduruku da região. Os níveis de mercúrio encontrados são significativamente superiores aos parâmetros de segurança.

Até maio de 2026, foram realizadas 941 análises de mercúrio em populações Munduruku do Rio Tapajós, incluindo 476 gestantes e 339 bebês.

Entre as gestantes, a concentração média de mercúrio no cabelo foi de 8,7 µg/g, enquanto entre os recém-nascidos a média foi de 4,4 µg/g. Para efeito de comparação, os valores de referência adotados internacionalmente para proteção da saúde variam entre 1 e 2 µg/g.

Esses dados alarmantes reforçam a necessidade de ações para reduzir a exposição ao mercúrio associada ao garimpo na Amazônia e fortalecer a vigilância em saúde dessas populações.

O papel do WWF-Brasil

Essa é a segunda vez que o WWF-Brasil estrutura uma articulação dessa ordem, em parceria com o povo Munduruku; a primeira aconteceu em 2022. A participação do WWF-Brasil potencializou o diálogo entre órgãos e articulações interinstitucionais, envolvendo entes municipais, estaduais e federais, além de organizações da sociedade civil.  A ação abrangeu esforços das áreas de Redução de Impactos do Garimpo e de Direito dos Povos.

A iniciativa é fruto de diálogo com a Defensora Pública da União (DPU), a partir da atuação do Observatório do Garimpo e dos Efeitos Socioambientais (OGES), e tem o objetivo de facilitar o acesso dos Munduruku a direitos sociais, para fortalecer o processo de desinstrusão do território.

A participação do WWF-Brasil foi fundamental na articulação e mobilização junto aos indígenas e potencializou o diálogo entre órgãos em articulações interinstitucionais, envolvendo entes municipais, estaduais e federais, além de organizações da sociedade civil.

Ação coletiva

O mutirão foi uma realização do WWF-Brasil, Defensoria Pública da União (DPU), Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Ministério dos Povos Indígenas (MPI), Secretaria de Saúde Indígena (SESAI - Ministério da Saúde), Ministério Público do Estado do Pará (MPPA), Tribunal de Justiça do Estado do Pará (TJ-PA), Polícia Civil do Pará, Prefeitura de Jacareacanga e Cartório de Jacareacanga.

Com parceria do Projeto Saúde e Alegria (PSA) e Custódia São Benedito da Amazônia, além das organizações indígenas Associação Wakoborũn, Associação Coletivo Poy, Coletivo de audiovisual Da'Uk, Associação Indígena dos Educadores Munduruku do Alto Tapajós - Arikico e Movimento Ipereg Ayu.

Destaques em números

  • 4 dias de atendimentos, com cerca de 1.000 pessoas atendidas na TI Munduruku; 
  • 58 aldeias participantes; 
  • 18 parceiros envolvidos; 
  • 356 pessoas atendidas pela Polícia Civil para emissão de carteira nacional de identidade; 
  • 276 atendimentos oftalmológicos com cerca de 1.000 exames/procedimentos realizados; 
  • 180 atendimentos pelo MPE; 
  • 91 atendimentos referentes a 102 procedimentos realizados pela DPU; 
  • 22 sentenças proferidas (processos iniciados e terminados) durante o mutirão; 
  • 12 registros civis lavrados, além de duas segundas-vias de certidões de nascimento a menores de idade, entregues em mãos aos pais e responsáveis.
Atendimentos no mutirão de serviços sociais e de saúde na TI Munduruku contaram com articulação interinstitucional
© João Albuquerque / WWF-Brasil
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