junho, 18 2026
Por WWF e WWF-Brasil
As negociações climáticas de junho terminaram nesta quinta-feira (18), em Bonn, na Alemanha, com a já conhecida frustração diante do ritmo lento das discussões e da falta de acordo sobre questões-chave. Ao longo da conferência, porém, um sinal mais forte se destacou: os países estão começando a deslocar o foco da agenda climática das negociações para a implementação.
As iniciativas lideradas pela Presidência da COP30 dominaram os debates, incluindo os esforços para acelerar a transição para o fim dos combustíveis fósseis, acabar com o desmatamento e a degradação florestal, ampliar o financiamento climático e transformar os planos climáticos nacionais em ações concretas. A Agenda de Ação renovada do Brasil ajudou a reforçar essa mudança. A proposta da Presidência da COP31 de uma meta global de eletrificação fortalece ainda mais essas iniciativas, ampliando soluções concretas e reforçando seu foco na Agenda de Ação.
Mas o impulso não pode ficar fora do processo formal. As negociações continuam vitais para o consenso, a legitimidade e a clareza jurídica. No entanto, Bonn mostrou que agora é necessário avançar mais rapidamente para a implementação, de modo que essas duas frentes precisam evoluir em conjunto. As iniciativas lideradas pelas presidências ainda são iniciais e desiguais, com grandes questões sobre governança, financiamento e responsabilização. Ainda assim, o sinal foi claro: a agenda climática está começando a se deslocar, ainda que de forma imperfeita, do discurso para a implementação.
As tensões chegaram ao ponto máximo ontem, levando ao encerramento da conferência próximo da meia-noite. Os debates de alto nível não conseguiram romper os principais impasses, deixando questões importantes – incluindo a Meta Global de Adaptação, o Programa de Trabalho de Mitigação e a Cooperação com Outras Organizações Internacionais – para serem resolvidas na COP31, que será realizada em novembro, na Turquia. O resultado frustrou muitos delegados.
Fernanda de Carvalho, chefe global de política climática e energética do WWF Internacional, disse: “As negociações continuam sendo a espinha dorsal do processo climático global – mas não podem se tornar uma sala de espera para a implementação. Bonn mostrou que a agenda climática está se deslocando das promessas para a implementação. Essa mudança é bem-vinda, mas ainda é lenta, desigual e frágil. As iniciativas lideradas pelas presidências sobre combustíveis fósseis, florestas, financiamento e planos climáticos nacionais agora precisam de contornos mais definidos: governança clara, dinheiro real e forte responsabilização. Os governos devem chegar à COP31 prontos para transformar esse impulso em um pacote de implementação crível – que acelere a transição para longe dos combustíveis fósseis, interrompa e reverta o desmatamento e a degradação e coloque financiamento à disposição dos países e comunidades que já estão na linha de frente.”
Em que pese o resultado final das negociações, o papel da Presidência brasileira da COP30 nesse momento não pode ser subestimado, diz Alexandre Prado, líder de mudanças climáticas do WWF-Brasil. “A ousadia em trazer temas urgentes para a conversa climática definiu parte do cenário que vimos em Bonn. O sucesso – ou não – dessas iniciativas talvez só venha a ficar evidente no próximo Balanço Global, mas elas nos colocaram debatendo sobre implementação real todos os dias, em todas as reuniões em Bonn, o que é bastante significativo.”
“Bonn reforçou a importância do multilateralismo como um caminho para enfrentar uma crise que não conhece fronteiras. Em um cenário geopolítico cada vez mais complexo e difícil, ter 184 países, de um total de 194 Partes, presentes e engajados no processo é um sinal positivo de que existe disposição para construir soluções coletivas. No entanto, nesse contexto desafiador ainda precisamos transformar esse engajamento político em resultados concretos, especialmente quando falamos de financiamento climático ou medidas de comércio, dois assuntos que infelizmente se tornaram polêmicos demais para permitir a formação de consensos”, destacou Tatiana Oliveira, líder de estratégia internacional do WWF-Brasil.
A agenda de adaptação esteve no centro dos debates em Bonn, em um momento em que os impactos da crise climática se tornam cada vez mais intensos e evidentes. Embora as negociações tenham refinado a Visão Belém-Addis, cujo objetivo é aprimorar os indicadores temáticos da Meta Global de Adaptação (GGA) até a COP32 na Etiópia, houve fortes divergências sobre o financiamento da adaptação e sobre o desenho da força-tarefa responsável pelos indicadores, adiando as negociações para COP31, na Turquia.
“O debate a respeito da composição da força-tarefa que vai refinar os 59 indicadores aprovados em Belém mostra a complexidade do processo de negociação, marcado por divergências de visões entre países sobre esse ponto e sobre financiamento para adaptação, o que levou à falta de consenso, adiando as negociações para a COP31, na Turquia. Financiamento e apoio aos países em desenvolvimento é um debate central para a agenda climática e para a implementação de medidas adaptativas”, afirmou Flávia Martinelli, especialista em mudanças climáticas do WWF-Brasil.
Por outro lado, os oceanos mantiveram relevância política da COP30 durante as negociações em Bonn, impulsionados pelo trabalho desenvolvido ao longo dos últimos anos por muitos governos e pelo forte engajamento da sociedade civil. Embora a agenda oceânica ainda enfrente desafios para ganhar espaço permanente nas negociações formais da UNFCCC, houve avanços no Diálogo sobre Oceanos e Mudanças Climáticas, que continuou mobilizando governos e organizações em torno da necessidade de integrar as soluções baseadas no oceano às estratégias globais de enfrentamento da crise climática e promover sua implementação.
“A liderança do Brasil no último ano foi fundamental para manter os oceanos no centro do debate climático. O esforço conjunto da sociedade civil ampliou esse espaço na vontade política da UNFCCC, e vimos esse impulso se refletir em Bonn nas sinalizações dadas pelas presidências da COP31. Agora, o desafio é garantir integração nas negociações e financiamento climático adequado para fortalecer soluções baseadas no oceano para mitigação, adaptação, resiliência e transição justa para as populações costeiras. Esperamos que as Presidências da COP31 transformem seu apoio em uma iniciativa de alto nível que incorpore o oceano de forma transversal às discussões com um caminho claro para a implementação”, frisou Marina Corrêa, líder da agenda de Oceanos do WWF-Brasil.