Milhares de indígenas se preparam para tomar as ruas de Brasília no ATL 2026

abril, 06 2026

Com o tema “Nosso Futuro Não Está à Venda: a Resposta Somos Nós” e demarcação de terras e resistência às ameaças a direitos em foco, 22ª edição do Acampamento Terra Livre começa neste domingo (5/4)

Por WWF-Brasil

Maior mobilização indígena da América Latina, o Acampamento Terra Livre (ATL) 2026 começa neste domingo (5/4), em Brasília. Com o tema “Nosso Futuro Não Está à Venda: a Resposta Somos Nós”, o evento reúne milhares de indígenas de todo o país para discutir o direito à demarcação de terras, políticas públicas, saúde, educação e a defesa dos territórios diante das ameaças ambientais e legislativas aos direitos dos povos indígenas.

Organizado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) e suas organizações regionais de base, o ATL chega à sua 22ª edição e transforma o Eixo Cultural Ibero Americano, no centro da capital federal, em um grande espaço de articulação e incidência política dos povos indígenas, que lotam as ruas e marcam presença no Congresso Nacional, além de realizar assembleias, debates e celebrações da cultura indígena.

“Vamos ocupar Brasília para dialogar com a sociedade, pressionar os poderes e apresentar nossas próprias respostas para a crise ambiental e democrática, porque seguimos vivos, organizados e certos de que defender nossos direitos é defender o futuro de todos”, afirma Dinamam Tuxá, coordenador executivo da APIB pela Apoinme.

Segundo Dinamam, o tema do ATL 2026 remete à construção coletiva da luta indígena e à resistência a pressões econômicas constantes que violam direitos dos povos tradicionais. “Nesse espaço de denúncia, reafirmamos com clareza que os territórios indígenas não estão à venda para a mineração, os créditos de carbono, o agronegócio, as grandes obras, as empresas ou para os interesses do próprio Estado brasileiro quando estes violam nossos direitos”, diz.

De acordo com a APIB, em 2025, após pressão do movimento indígena, cerca de 20 processos de demarcação foram destravados durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, em Belém (PA). No ATL 2026, a expectativa é que a demarcação e a proteção de Terras Indígenas sigam no centro do debate e ganhe novos encaminhamentos.

“Vamos relembrar as lutas já travadas e nos preparar para as lutas que estão por vir. Reunidas no ATL 2026, as lideranças irão debater as estratégias do movimento indígena, para continuar lutando pelo território, por direitos e por educação. Nosso foco é impulsionar a demarcação de mais territórios indígenas, que é essencial para a autonomia, para a sobrevivência e a existência dos nossos povos indígenas”, explica Alcebias Sabará, vice-coordenador da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB).

Para Alcebias, a mobilização em Brasília serve para cobrar o poder público e denunciar toda a injustiça e violência a que os povos indígenas têm sido submetidos, incluindo assassinatos de lideranças, invasão nos territórios e a impunidade dos agressores. “Do nosso ponto de vista, esses crimes estão sendo normalizados. Por isso vamos cobrar o governo e marcar posição contra os retrocessos legislativos no Congresso Nacional, que é formado em sua maioria por parlamentares que são contrários aos direitos indígenas”, conclui.

Outros destaques

Os ataques do Congresso Nacional aos direitos indígenas, portanto, são também temas centrais do ATL 2026, assim como as Eleições de 2026. Segundo a APIB, em 2025, mais de 20 propostas anti-indígenas e anti-ambientais tramitaram na Câmara dos Deputados e no Senado Federal. Para as lideranças indígenas, esses projetos formam um “Pacote da Destruição” que coloca em risco vidas indígenas. 

Outra pauta que deve ser tratada no ATL 2026 é a luta pelo aldeamento da política, conectando mobilização territorial e participação institucional. Em fevereiro, a APIB mostrou o caminho para essa ocupação de espaços democráticos ao contribuir em audiência pública no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre as resoluções das eleições. Na ocasião, a organização apresentou propostas para aperfeiçoar as normas eleitorais a partir das realidades indígenas - incluindo a contabilização dos votos das urnas em territórios indígenas junto aos municípios de referência.

Os locais e horários exatos das marchas e manifestações culturais, além da programação detalhada dos debates do ATL 2026, vão ser divulgados em breve pela APIB.

Histórico da mobilização

Em 2025, com o tema “APIB Somos Todos Nós: em Defesa da Constituição e da Vida”, o ATL reuniu mais de 7 mil indígenas em Brasília, celebrando os 20 anos de luta e conquistas da APIB. Realizada no contexto da preparação para a COP30, a mobilização reforçou, em seu documento final, o protagonismo indígena na agenda climática global, além da defesa dos direitos constitucionais dos povos tradicionais.

O ATL é organizado pela APIB e suas sete organizações regionais de base: COIAB, Apoinme, ArpinSudeste, ArpinSul, Aty Guasu, Conselho Terena e Comissão Guarani Yvyrupa. A APIB foi criada em 2005 a partir de uma demanda feita na primeira edição do ATL, quando lideranças indígenas estabeleceram que precisavam ter uma representação nacional.

22ª edição do Acampamento Terra Livre acontece em Brasília
© Jacqueline Lisboa / WWF-Brasil
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