COP15: Corredores azuis ganham força para a conservação da vida marinha

março, 29 2026

Conferência da ONU impulsiona a criação de rotas seguras no Atlântico Sul, conectando habitats e valorizando a biodiversidade dos oceanos

Por Fábio de Castro e Solange Azevedo, de Campo Grande (MS) 

Os oceanos enfrentam intensa pressão no planeta, com aumento das temperaturas, acidificação, sobrepesca e perda de biodiversidade – e o Brasil também sente esses impactos em seus ecossistemas marinhos e costeiros. Por isso, após consolidar sua liderança nessa agenda na COP30, o país colocou a preservação das águas e a criação de áreas marinhas protegidas no centro das discussões de mais um evento global: a 15ª Reunião da Conferência das Partes (COP15) da Convenção sobre a Conservação de Espécies Migratórias (CMS), realizada de 23 a 29 de março em Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul. 

Baleias, tartarugas e tubarões são exemplos de animais marinhos que integram o grupo de espécies que precisam percorrer longas distâncias para cumprir seus ciclos de vida. Pesquisas recentes mostram que conservar e recuperar essas populações é essencial não apenas para a saúde dos oceanos, mas também para manter serviços ecossistêmicos que beneficiam outras formas de vida marinha e a própria vida humana. 

Em suas longas jornadas pelo planeta, esses indivíduos cruzam fronteiras – o que torna impossível protegê-los sem cooperação entre diferentes países. Por isso, uma das principais questões debatidas na COP15 da CMS foi a criação de corredores ecológicas marinhos, conhecidos como “corredores azuis”, conectando áreas protegidas e garantindo a segurança das rotas dessas espécies.  

O WWF-Brasil organizou dois painéis sobre o tema na conferência, e apoiou as propostas do governo brasileiro, que se destaca entre os outros países pela liderança nessa agenda. “Espécies migratórias marinhas não conhecem fronteiras políticas. Preservá-las exige cooperação internacional e a criação de corredores que garantam segurança em toda a sua rota de migração”, destacou Marina Corrêa, analista de conservação e ponto focal do WWF-Brasil para a agenda de oceanos. 

CONECTANDO HABITATS ESSENCIAIS 

A criação de corredores ecológicos marinhos não é uma tarefa trivial, especialmente por conta da complexidade da governança dos oceanos. Na COP15, especialistas destacaram a importância de negociações coordenadas entre países, políticas públicas integradas e colaboração entre cientistas, comunidades locais e ONGs.  

Os corredores azuis são rotas migratórias vitais que conectam habitats essenciais para alimentação, reprodução e descanso das espécies marinhas. As baleias jubarte da costa brasileira, por exemplo, passam o verão nas frias águas do oceano Antártico, onde se alimentam, e percorrem mais de 4 mil quilômetros até regiões como o arquipélago dos Abrolhos e o litoral da Bahia. 

No entanto, qualquer ameaça ao longo desse percurso coloca em risco a conservação da espécie. No Brasil, a moratória da caça às baleias é respeitada, mas não é suficiente para proteger esses animais de perigos como a caça em águas internacionais ou o aumento da temperatura na região da Antártica. 

Na COP15 da CMS, há uma forte movimentação para a criação de corredores azuis para baleias, tubarões, tartarugas e outras espécies marinhas. Com a conferência sendo realizada sob a presidência brasileira, as baleias recebem atenção especial, sobretudo na região de Abrolhos, berçário da espécie e um dos principais hotspots de biodiversidade marinha do Atlântico Sul. Espera-se que o governo brasileiro avance na criação de um corredor azul em Abrolhos, reforçando sua importância não apenas para o Brasil, mas para o mundo. 

Os progressos na implementação do Plano de Ação para as Baleias do Atlântico Sul, por sinal, foram tema de um dos painéis organizados pelo WWF-Brasil. “As baleias são indicadores vitais da saúde dos oceanos. Garantir que elas possam migrar livremente entre áreas protegidas é também uma forma de proteger a biodiversidade marinha e a própria resiliência dos ecossistemas”, reforça Marina Corrêa. 

O evento teve a participação da ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), Marina Silva, que destacou os avanços recentes do Brasil na proteção dos oceanos, mencionando o Planejamento Espacial Marinho, o Plano Temático de Oceano e Zona Costeira, que integra o Plano Clima Adaptação, e a criação de áreas protegidas como o Parque Nacional Marinho de Albardão. 

“Precisamos passar dos compromissos à ação e, por isso, estamos aqui discutindo a implementação do Plano de Ação para as Baleias do Atlântico Sul. Todos esses avanços já fazem parte da implementação do compromisso, mas sabemos que há muito mais a fazer. Criar santuários é fundamental e transformar Abrolhos em Patrimônio da Humanidade é algo que também converge nessa direção”, declarou a ministra. 

O secretário-executivo do MMA e presidente da COP15 da CMS, João Paulo Capobianco, mencionou outros avanços do governo federal na agenda. "Aprovamos a Lei do Mar em 2025, depois de 12 anos de tramitação, a criação de um Programa Nacional de Conservação Sustentável para os manguezais e as estratégias nacionais do Oceano sem Plástico e de Conservação de Recifes de Corais. Acredito que, realmente, estamos avançando muito nessa agenda tão importante.” 

“Há populações de baleias em risco, mas há um número bem maior de pequenos cetáceos que precisam de proteção. Acho que devemos considerar essa iniciativa como um plano de ação para cetáceos, de modo geral, para que sejam incluídos grupos que estão em perigo maior do que muitas baleias”, acrescentou o biólogo brasileiro Alexandre Zerbini, pesquisador da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA), dos Estados Unidos.  

Em outro debate, os participantes abordaram a colaboração global para a criação de corredores azuis no hemisfério Sul, analisando como essas iniciativas estão sendo aplicadas na prática por meio de parcerias criativas com comunidades locais, cientistas, ONGs, indústria e governos. 

Foram destacadas medidas concretas para integrar as rotas migratórias das baleias à gestão da navegação, à redução da captura acidental, ao planejamento de Áreas Marinhas Protegidas e às políticas nacionais e regionais para proteger melhor as populações. 

Para fortalecer essa vertente, nos últimos cinco anos, o WWF e parceiros mapearam migrações globais, produziram relatórios sobre riscos e oportunidades regionais e desenvolveram o BlueCorridors.org – uma plataforma aberta e colaborativa com a comunidade científica marinha que visualiza ameaças e prioriza medidas para orientar o planejamento espacial marinho e ações transfronteiriças. 

Embora os trabalhos voltados aos oceanos tenham sido intensos durante a COP15, não param por aí. No segundo semestre de 2026, o WWF-Brasil realizará uma oficina sobre os corredores azuis no Atlântico Sul, para que os países da região atualizem diagnósticos e desenvolvam estratégias colaborativas para a conservação de baleias e de outras espécies marinhas. 

“Proteger as baleias e os corredores azuis não é apenas uma ação pelo Brasil, é um compromisso com a saúde de todo o Atlântico Sul. Garantir que esses animais possam migrar livremente entre habitats conectados fortalece a biodiversidade, a resiliência dos oceanos e a vida marinha como um todo”, conclui Marina Corrêa, do WWF-Brasil. 

COMO O WWF-BRASIL ATUA 

O WWF-Brasil tem o compromisso de contribuir para a construção de um futuro sustentável, em que o país avance rumo à neutralidade de emissões, com sua biodiversidade conservada e impulsionado por um modelo de desenvolvimento justo, inclusivo e responsável. Nossa estratégia está estruturada em quatro pilares: 

 • Zerar o desmatamento e fomentar Soluções Baseadas na Natureza. 

• Fortalecer a conservação da biodiversidade. 

• Proteger direitos e promover o bem-estar de povos e comunidades tradicionais. 

• Promover um desenvolvimento de baixo impacto. 

O Brasil colocou a preservação das águas e a criação de áreas marinhas protegidas no centro das discussões de mais um evento global: a 15ª Reunião da Conferência das Partes (COP15) da Convenção sobre a Conservação de Espécies Migratórias (CMS), realizada de 23 a 29 de março em Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul.
© Marco Antônio Teixeira / WWF-Brasil
O secretário-executivo do MMA e presidente da COP15 da CMS, João Paulo Capobianco, mencionou outros avanços do governo federal na agenda. "Aprovamos a Lei do Mar em 2025, depois de 12 anos de tramitação, a criação de um Programa Nacional de Conservação Sustentável para os manguezais e as estratégias nacionais do Oceano sem Plástico e de Conservação de Recifes de Corais. Acredito que, realmente, estamos avançando muito nessa agenda tão importante.”
© Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
A criação de corredores ecológicos marinhos não é uma tarefa trivial, especialmente por conta da complexidade da governança dos oceanos. Na COP15, especialistas destacaram a importância de negociações coordenadas entre países, políticas públicas integradas e colaboração entre cientistas, comunidades locais e ONGs.
© Marco Antônio Teixeira / WWF-Brasil
“Proteger as baleias e os corredores azuis não é apenas uma ação pelo Brasil, é um compromisso com a saúde de todo o Atlântico Sul. Garantir que esses animais possam migrar livremente entre habitats conectados fortalece a biodiversidade, a resiliência dos oceanos e a vida marinha como um todo”, conclui Marina Corrêa, do WWF-Brasil.
© Jacqueline Lisboa / WWF-Brasil
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