Na Serra do Mar, restauração florestal impulsiona a volta da fauna ameaçada e fortalece comunidade

janeiro, 07 2026

Em São Francisco Xavier (SP), WWF-Brasil e SAVE Brasil unem esforços para restaurar a Mata atlântica e ampliar população de jacutingas

Por Ana Maria Barbour, especial para o WWF-Brasil

Entre 2021 e 2025, um projeto de restauração florestal desenvolvido em São Francisco Xavier, distrito de São José dos Campos, no estado de São Paulo, mostrou como a recuperação da vegetação nativa pode caminhar junto com a conservação da fauna e o engajamento comunitário. A iniciativa, fruto da parceria entre o WWF-Brasil e a SAVE Brasil, foi realizada em uma área estratégica da Ecorregião da Serra do Mar e combinou técnicas de restauração ecológica com ações voltadas à proteção da jacutinga (Aburria jacutinga), espécie ameaçada que se tornou símbolo da região.

A experiência local se insere em um contexto mais amplo de desafios enfrentados pela Mata Atlântica, um dos biomas mais biodiversos do planeta. Estima-se que a floresta concentre cerca de 7% de todas as espécies de plantas do mundo — mais de 20 mil — e aproximadamente 5% das espécies de vertebrados, incluindo anfíbios, répteis, aves e mamíferos. Apesar dessa riqueza, a Mata Atlântica está em estado crítico de conservação: apenas 12,4% de sua cobertura original permanece preservada, em sua maioria fragmentada em áreas pequenas, sendo que cerca de 97% dos remanescentes têm menos de 50 hectares.

Na ecorregião da Serra do Mar, onde está São Francisco Xavier, esse cenário é ainda mais sensível. Trata-se da área mais densamente povoada e economicamente dinâmica do país, onde a pressão sobre as florestas se intensifica pela presença de grandes centros urbanos, infraestrutura e atividades produtivas. Embora existam remanescentes florestais estratégicos, como o Parque Estadual da Serra do Mar, a região foi profundamente impactada por sucessivos ciclos históricos de uso do solo ligados à agropecuária e à urbanização.

Diante desse contexto, a restauração da vegetação nativa e a reconexão de fragmentos florestais tornaram-se prioridades estratégicas. “Restaurar a vegetação na ecorregião da Serra do Mar é uma prioridade para o WWF-Brasil. Para isso, apostamos em uma abordagem integrada, que envolve múltiplos coinvestimentos e esforços coletivos com parceiros locais. Os resultados têm sido muito positivos”, afirma Leda Tavares, especialista em Conservação do WWF-Brasil. Ela destaca que o sucesso da restauração vai além do plantio de árvores e depende de uma rede de organizações locais fortalecidas, além do trabalho conjunto com comunidades locais, proprietários rurais, governos e setor privado.

É nesse modelo que se insere a parceria com a SAVE Brasil em São Francisco Xavier. Desde 2016, a organização já atuava na conservação da jacutinga e em ações de reintrodução da espécie na região. Estudos anteriores também haviam identificado as espécies de frutos consumidas pela ave e pelo muriqui. Com o apoio da Área de Proteção Ambiental (APA) São Francisco Xavier, foi possível estruturar um projeto de restauração que atendesse também às necessidades da fauna, utilizando espécies nativas consumidas na alimentação desses animais, que, ao mesmo tempo, atuam como importantes dispersores de sementes. Ou seja, uma via de mão dupla entre a restauração da vegetação e a conservação da fauna.

Ao longo de quatro anos, o projeto enriqueceu 51,77 hectares de florestas com sementes de palmito-juçara, hoje em fase de monitoramento, e apoiou a soltura de 41 jacutingas na natureza, das quais 23 seguem sendo acompanhadas por meio de telemetria e atividades de campo, com participação da comunidade local. “O monitoramento da espécie tornou-se um indicador central do sucesso da restauração, revelando a estrutura florestal, a disponibilidade de alimento e a recuperação populacional da ave”, explica Alecsandra Tassoni, coordenadora de projetos da SAVE Brasil.

Entre as técnicas de restauração adotadas, além do plantio de enriquecimento com palmeira-juçara (Euterpe edulis) — espécie essencial para a alimentação da jacutinga e para a qualidade do habitat —, também adotou-se plantio de mudas. Foi implantado, ainda, quase um hectare de corredor de biodiversidade no bairro do Guaxindiba, área marcada pela fragmentação florestal. “Os moradores da região colaboraram muito com esse projeto, e esperamos que ele inspire os bairros vizinhos”, afirma Renato Lorza, gestor da APA São Francisco Xavier.

A escassez de viveiros capazes de fornecer mudas nativas da Mata Atlântica em grande escala levou o projeto a investir na coleta de sementes como estratégia essencial. Além de garantir a matéria-prima para a produção de mudas, a prática assegurou a diversidade genética das áreas restauradas. Para isso, foi capacitada uma rede de coletores locais, que passou a fornecer sementes para viveiros da região, ampliando o conhecimento técnico e a autonomia local.

Como a coleta direta na mata é lenta e complexa, o projeto adotou como diferencial metodológico a implantação de pomares de espécies nativas em propriedades particulares parceiras. Ao todo, foram implantados três pomares com espécies de interesse da jacutinga e do muriqui, entre elas a laranja-de-macaco (Posoqueria latifolia), a azedinha (Tovomitopsis paniculata) e a canjarana (Cabralea cajerana),  além da coleta de outras espécies destinadas à restauração em geral.

Gabriela França, analista de projetos da SAVE Brasil, guia de ecoturismo e coletora de sementes treinada pela organização, destaca que o trabalho exige critérios técnicos rigorosos, como a identificação das árvores matrizes e a distância mínima entre indivíduos da mesma espécie para evitar consanguinidade. “Antes do projeto, nenhum de nós tinha esse conhecimento e não atuávamos como coletores; esse trabalho simplesmente não existia para nós. A iniciativa abriu uma nova possibilidade de emprego”, relata. Para ela, o impacto se estendeu “desde os coletores de sementes até os proprietários das áreas onde essa coleta acontece”. 

Outro elemento central foi a participação multissetorial, envolvendo órgãos públicos, organizações da sociedade civil, empresas privadas e a comunidade. Mais de 20 propriedades rurais participaram das ações, seja abrindo áreas para plantio e coleta de sementes, seja recebendo pomares.

Um desses proprietários é Thiago Trevisan. Há 11 anos, quando a família adquiriu o sítio em São Francisco Xavier, a área era bastante degradada, com nascentes assoreadas e pouca vegetação. “Quando cheguei à região, percebi que já existia um envolvimento forte da comunidade com a regeneração da Mata Atlântica. Com o apoio da APA e de outros projetos, a propriedade foi indicada para receber um dos pomares de sementes”, conta. Hoje, ele observa a recuperação das nascentes e o aumento da presença de aves e outros animais.

Além dos ganhos ambientais, o projeto gerou impactos socioeconômicos relevantes, com a criação de dez empregos diretos e o fortalecimento da cadeia local da restauração, por exemplo, por meio da contratação de mão de obra local para o trabalho de campo e da compra de mudas em viveiros da região. Para Alecsandra Tassoni, o apoio do WWF-Brasil foi decisivo. “A chancela institucional abriu portas, facilitou a aproximação com proprietários e com a comunidade, além de trazer para a SAVE Brasil uma nova frente de atuação em São Francisco Xavier, a da restauração, que já vínhamos praticando em outra localidade”, afirma.

Com a fase de implantação concluída, as áreas restauradas seguirão sob manutenção e monitoramento. A expectativa é dar continuidade à reintrodução de jacutingas por mais alguns anos, até que a população atinja viabilidade reprodutiva.
 
O trabalho desenvolvido pelo WWF-Brasil em parceria com a SAVE Brasil em São Francisco Xavier integra uma estratégia mais ampla de atuação baseada em coinvestimento e colaboração multissetorial, viabilizada por parcerias corporativas, neste caso com a empresa HP. Por meio desse modelo, recursos financeiros, conhecimento técnico e capacidades institucionais são combinados para potencializar impactos no território, fortalecer organizações locais e promover soluções de restauração florestal que vão além da implantação em campo, contribuindo para a conservação da biodiversidade, a conectividade de paisagens e o engajamento das comunidades.

Jacutinga reintroduzida na natureza pelo projeto
© Márcio Sanches / WWF-Brasil
Muriqui-do-sul, espécie ameaçada de extinção e beneficiada pelo projeto
© Márcio Sanches / WWF-Brasil
Atividade de escalada para coleta de sementes
© Márcio Sanches / WWF-Brasil
Da esquerda para a direita, Marcelo Wor da Fonseca, Thiago Trevisan, Gabriela França, Alecsandra Tassoni e Renato Lorza. Na ocasião, Thiago recebeu uma placa de reconhecimento pela parceria no projeto
© Márcio Sanches / WWF-Brasil
DOE AGORA
DOE AGORA