novembro, 28 2025
Por Observatório do Clima, com apoio do WWF-Brasil
A Petrobras apresenta hoje seu novo Plano de Negócios para 2026-2030 com uma queda de 20% nos investimentos previstos em transição energética para os próximos cinco anos. O corte vem depois de uma intensa campanha publicitária em que a empresa se coloca como “líder da transição energética justa”.
O anúncio chega menos de uma semana após o fim da COP30 de Belém, onde o presidente Lula fez um chamado global pela construção de um mapa do caminho para o fim dos combustíveis fósseis. O novo Plano de Negócios vai na direção contrária à urgência de descarbonização da matriz energética brasileira. A estratégia de futuro da Petrobras também está descolada dos compromissos globais já assinados e dos próprios objetivos de redução de emissões de carbono do Brasil.
De acordo com o documento, a Petrobras pretende reduzir em 1,8% os investimentos totais nos próximos cinco anos, na comparação com o último plano (2025-2029), passando de 111 bilhões de dólares (R$ 595 bi), para 109 bilhões de dólares (R$ 585 bi). O segmento mais afetado foi o de transição energética, que agora passa a corresponder por 11,9% do orçamento total, enquanto no plano anterior a participação era de 14,6%.
Na área de transição, os investimentos em energias de baixo carbono tiveram a maior perda, uma redução de 45,6%, com corte de 58% na previsão de aplicações financeiras em energias Eólicas Onshore e Solar Fotovoltaica. Os investimentos previstos em hidrogênio encolheram 20%. O Fundo de Descarbonização das Operações também foi afetado, com redução de 23% na projeção de investimentos.
Dentro da rubrica de transição energética, o único segmento com aumento foi o de Biodiesel e biometano. A previsão de investimentos passou de 600 milhões de dólares (R$ 3,2 bilhões), para 1,1 bilhão de dólares (R$ 5,3 bi).
A Petrobras manteve inalteradas as previsões de investimentos em etanol e biorrefino. No entanto, a empresa destaca que essas aplicações se darão com foco em parcerias com a iniciativa privada.
Em exploração, mesmo reduzindo o valor previsto para buscar petróleo e gás na Margem Equatorial, de US$ 3 bilhões para US$ 2,5 bilhões, a Petrobras manteve a quantidade de poços que pretende perfurar na região - 15 no total. O que reforça a aposta da empresa na Foz do Amazonas, apesar da altíssima sensibilidade ambiental da região.
Novo plano não dialoga com a sociedade civil
Apesar de decepcionante, o PN 26-30 não surpreende. Há poucos dias a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, novamente afirmou que a prioridade da empresa é explorar combustíveis fósseis cada vez mais, deixando investimentos mais significativos em transição energética para 2035 e desconsiderando, como sempre, a gravidade da crise climática.
Para Ricardo Fujii, especialista em conservação e líder de transição energética no WWF-Brasil: “A manutenção do foco no petróleo limita a capacidade da Petrobras de responder às transformações do mercado energético. Ao reduzir investimentos em combustíveis alternativos, a empresa amplia sua exposição a riscos financeiros associados à desaceleração da demanda por petróleo e reduz seu potencial de criar valor em áreas emergentes da economia.”
"O novo plano de investimentos da Petrobras nasce velho, com olhar para o passado. No lugar de intensificar os investimentos em renováveis, consolida a lógica petroleira”, afirma Suely Araújo, Coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima. “A atual presidente da empresa fala em reforçar os esforços em renováveis em 2035. Infelizmente, não temos esse tempo. A crise climática necessita ser conjugada com verbos no presente".
Em setembro deste ano o Observatório do Clima lançou o posicionamento "A Petrobras de Que Precisamos”, onde detalha as medidas necessárias para que a Petrobras lidere uma transição justa de verdade. Entre as recomendações estão a priorização de investimentos em fontes de baixo carbono, a realocação de investimentos planejados em novas refinarias para ampliar a participação de combustíveis de baixo carbono em sua linha de produtos e ampliação nos investimentos em biocombustíveis, sobretudo os de segunda e terceira geração, diesel verde (HVO) e SAF. O contrário do que foi apresentado no novo plano.
“Apesar do discurso de transição energética justa, o novo plano de negócios da Petrobras mostra que, na prática, a empresa não está comprometida com uma transição justa e real”, destaca Délcio Rodrigues, diretor executivo do ClimaInfo. “Ao reduzir investimentos em descarbonização e reforçar a velha aposta nos fósseis, a Petrobras enfraquece o setor de renováveis e coloca o Brasil na contramão das tendências globais. A empresa perde, assim, uma oportunidade histórica de liderar a transformação energética que o país e o mundo precisam urgentemente.”
Sobre o Observatório do Clima e o WWF-Brasil
Fundado em 2002, o Observatório do Clima é a principal rede da sociedade civil brasileira com atuação na agenda climática. Reúne hoje 162 integrantes, entre organizações socioambientais, institutos de pesquisa e movimentos sociais. Seu objetivo é ajudar a construir um Brasil descarbonizado, igualitário, próspero e sustentável. O OC publica desde 2013 o SEEG, estimativa anual das emissões de gases de efeito estufa no país.
O WWF-Brasil atua como membro ativo no Observatório do Clima. Nosso papel é produzir e compartilhar evidências científicas, análises e propostas de políticas públicas relacionadas ao clima, além de articular parceiros e engajar governos e empresas para ampliar a ambição na agenda climática. Em conjunto com as demais organizações da rede, o WWF-Brasil contribui para influenciar políticas nacionais e internacionais de redução de emissões e adaptação às mudanças climáticas.