Tecnologia e gestão de dados impulsionam turismo de natureza e de base comunitária no Sul da Bahia

novembro, 26 2025

Iniciativa une saberes tradicionais e inovação para fortalecer a conservação e o desenvolvimento local, enquanto protege os últimos remanescentes de Mata Atlântica na região

Por Leonardo Azevedo, do WWF-Brasil, de Porto Seguro (BA) 

Entre paisagens exuberantes da Mata Atlântica e o encontro da biodiversidade com saberes locais e povos originários, o litoral do extremo Sul da Bahia está avançando na construção de um novo modelo de turismo de natureza e de base comunitária. A valorização das Unidades de Conservação (UCs) como motores de desenvolvimento sustentável está no centro dessa transformação. No território que se estende de Canavieiras a Alcobaça, incluindo os Parques Nacionais: Histórico do Monte Pascoal, Pau Brasil e Descobrimento, comunidades, pesquisadoras, gestoras públicas e organizações da sociedade civil trabalham juntas para integrar conservação da natureza, renda para populações locais e experiências transformadoras para visitantes. 

Uma das iniciativas mais promissoras é o Parks Design (metodologia de planejamento participativa que une o design thinking e métodos ágeis de inovação) – que deu origem, em 2022, ao roteiro de ecoturismo cocriado com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), empreendedores da região, apoiado pelo WWF-Brasil. O itinerário convida visitantes a vivenciar rios, manguezais, falésias e praias com atividades de aventura e imersões culturais ao longo de oito reservas, parques e refúgios. São experiências criadas por quem vive na região: indígenas, extrativistas, guias, artesãs e servidoras públicas. Cada parada do percurso representa um encontro com a sociobiodiversidade local. 

Nesse contexto, o turismo de base comunitária se consolida como ferramenta de conservação ambiental. Como lembra Aline Polli, chefe do Parque Nacional do Pau Brasil, “o cicloturismo, por exemplo, é uma forma de fiscalização cidadã: os ciclistas percorrem áreas onde a equipe do parque não consegue chegar com frequência, e isso inibe atividades ilegais”. Aline reforça ainda que o turismo sustentável estruturado tem sido essencial para manter o engajamento da comunidade e a integridade do território. Ela destaca: “Este parque recebe cerca de 80 crianças por semana com atividades de educação ambiental. É um orgulho ver que a unidade se tornou um laboratório vivo de aprendizagem.” 

Para consolidar e perpetuar esse modelo de turismo sustentável, a produção de informação, a partir de dados sobre a experiência, perfil dos visitantes e informações sobre as estruturas de uso público nas UCs se tornou uma necessidade estratégica. Em março deste ano, no centro de visitantes do Parque Nacional do Pau Brasil, em Porto Seguro, foi realizado um treinamento para implementação do SIMVUC (Sistema de Monitoramento da Visitação em Unidades de Conservação), que desde então está em funcionamento. Trata-se de uma plataforma gratuita e de código aberto que permite coletar dados em campo, mesmo offline, sobre o monitoramento da visitação nas unidades da região. A atividade foi facilitada e planejada a partir da Estratégia de Uso Público em APs do WWF-Brasil. 

O uso dessa tecnologia e de outras ferramentas inovadoras, faz parte da estratégia de turismo sustentável do WWF-Brasil, com apoio da HP, que busca integrar inovação tecnológica à conservação e à restauração florestal em territórios prioritários do Corredor Central da Mata Atlântica, como o Sul da Bahia.  “A parceria entre as organizações tem como foco fortalecer a governança territorial, impulsionar cadeias de valor sustentáveis, promover o uso público das Unidades de Conservação e apoiar comunidades locais que atuam na proteção da sociobiodiversidade”, explica Anna Carolina Lobo, líder de uso público de áreas protegidas do WWF-Brasil.  

Com essa abordagem, o uso de dados qualificados se torna um componente central para a tomada de decisões que conciliem proteção ambiental, geração de renda e desenvolvimento inclusivo. “Queremos proporcionar experiências de visitação em áreas protegidas que sejam inesquecíveis para os visitantes, construídas em parceria com as comunidades locais e aliadas à conservação da natureza. Para isso, adotamos uma abordagem inovadora e participativa, em que a produção de conhecimento - por meio do uso de dados qualificados - se torna um pilar estratégico para fortalecer o planejamento do turismo e a governança territorial”, explica a líder do WWF-Brasil.

Como funciona

Na prática, os tablets configurados com o aplicativo funcionam como ponto de coleta de informações básicas sobre o visitante no momento da sua entrada (identificação, planejamento, contato de emergência) e na ocasião da sua saída, colhendo a percepção do visitante sobre toda a experiência na unidade, desde os acessos até os atrativos. Além disso, são coletadas informações adicionais que apoiarão o ICMBio no estudo do perfil dos visitantes que visitam parques (gênero, profissão, motivo da visita etc). O trabalho de coleta, nestes casos, pode ser realizado por funcionários dos parques, guias credenciados ou pelo próprio visitante, acessando a plataforma pelos QR Codes afixados nas principais saídas de cada Unidade de Conservação, e também por equipamentos de coleta local (tablets e smartphones) para preenchimento offline. 

A tecnologia chegou para preencher lacunas estruturais e acelerar a gestão das UCs. “Hoje, ainda fazemos registros em cadernos. É um trabalho enorme transformar isso em informação útil. A nova ferramenta está gerando dados mais precisos, com menos tempo e esforço da equipe, e está podendo se dedicar a ações mais estratégicas”, explica Danúbia Melo, responsável pela área de uso público no Parque Nacional e Histórico do Monte Pascoal. Segundo ela, os dados sobre perfil e satisfação dos visitantes já têm mostrado impactos concretos: “Ao demonstrar que temos mais de 300 mil visitas por ano, conseguimos justificar a ampliação da equipe. Também usamos essas informações para dialogar com secretarias de educação, mostrar a importância das visitas escolares e buscar mais articulação com o entorno.” 

Em plena operação, o SIMVUC está ampliando o acesso a dados qualificados sobre quem visita as UCs, quais atrativos são mais procurados e como as pessoas avaliam a sua experiência. “Isso vai nos permitir tomar decisões com base em evidências, entender melhor os públicos e planejar ações de manejo que melhorem a infraestrutura e o acolhimento”, reforça Vinícius Freitas da Silva, agente temporário ambiental do Pau Brasil. “Até então, a gente se baseava em percepções nossas. Agora estamos tendo dados reais.” 

Mais do que números, o avanço da tecnologia nas UCs do sul da Bahia representa um passo eficaz em direção a uma gestão mais conectada com as pessoas e com o território. E um recado claro: cuidar da sociobiodiversidade também é oferecer experiências transformadoras para quem visita e condições dignas para quem protege. Como sintetiza Aline: “Estamos no apocalipse climático, e esse parque é o que sobrou da Mata Atlântica aqui. Se não tiver gente junto para proteger, a gente não dá conta. O uso público [turismo sustentável] é uma das nossas maiores ferramentas de conservação.”

Nosso impacto

O WWF-Brasil atua na agenda de turismo regenerativo e sustentável (uso público) com o objetivo valorizar as Unidades de Conservação (UCs), como principal ativo de desenvolvimento dos territórios, gerando emprego e renda, e reduzindo as pressões e as ameaças às Áreas Naturais Protegidas. Fortalecido, o turismo de base comunitária é um indutor da sociobiodiversidade e de fontes de renda para as populações locais, contribuindo para um novo modelo de economia de base florestal para diversos biomas. 

Esse projeto no sul da Bahia tem o intuito de fazer com que essas áreas sejam reconhecidas como promotoras do desenvolvimento sustentável e da resiliência climática. Ele conta com o trabalho da equipe de Áreas Protegidas do WWF-Brasil, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), e dezenas de parceiros locais.

Sobre o WWF-Brasil

O WWF-Brasil é uma ONG brasileira que há 28 anos atua coletivamente com parceiros da sociedade civil, academia, governos e empresas em todo país para combater a degradação socioambiental e defender a vida das pessoas e da natureza. Estamos conectados numa rede interdependente que busca soluções urgentes para a emergência climática. Conheça: wwf.org.br.

Aplicativo do ICMBio, que teve apoio do WWF Brasil vai contribuir para melhorar a gestão de UCs federais como o Parque Nacional do Descobrimento, no Sul da Bahia
© Adriano Gambarini / WWF-Brasil
Apoio do WWF Brasil melhora gestão da informação para o uso público de UCs no Sul da Bahia
© Adriano Gambarini / WWF-Brasil
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