Tecnologia testada no Tapajós pode reduzir em até 40% conflitos entre pescadores ribeirinhos e botos

outubro, 24 2024

Dispositivos emitem sinais sonoros que afastam os botos das malhadeiras, evitando que as destruam, comam os peixes, se emalhem ou sofram retaliação dos pescadores.
Por Ana Barbour, especial para o WWF-Brasil

A degradação dos rios e a sobrepesca prejudica as condições naturais para os botos se alimentarem, já que resulta na diminuição da quantidade de peixes. Para contornar a dificuldade, eles recorrem às malhadeiras (redes fixas de pesca) das comunidades ribeirinhas, que também vivem da pesca como atividade de subsistência e fonte principal de renda. Nessa situação, se enroscam nas redes e, impossibilitados de subir à superfície para respirar, morrem afogados. Há ainda situações em que o pescador, descontente com o prejuízo gerado pelo animal, ao rasgar a malhadeira e comer o pescado, acaba matando-o por retaliação. Essa realidade tem se mostrado um grande desafio para a conservação dos botos e a sobrevivência de muitas famílias na região amazônica.

Para contornar o problema, e promover uma coexistência harmoniosa entre esses animais e seres humanos, o WWF-Brasil, em parceria com a Sociedade para a Pesquisa e Proteção do Meio Ambiente (Sapopema), testou entre junho de 2023 e junho de 2024, um equipamento inédito no Brasil, chamado pinger. O aparelho, instalado nas redes de pesca, emite ondas sonoras de alta frequência, sobrepondo-se à faixa de comunicação das espécies, gerando um alerta de não aproximação. “Esses dispositivos já são utilizados nos rios do Camboja, Indonésia e Índia desde 2021, e mostraram ótimos resultados na redução dos emalhes e bycatch (morte por afogamento, por não conseguir voltar à superfície para respirar), aumentando ainda o número de peixes capturados", explica Mariana Paschoalini Frias, analista de conservação do WWF-Brasil.

A experiência foi feita na comunidade de Prainha I, localizada no Pará, na Floresta Nacional do Tapajós, onde são frequentes os conflitos com boto-cor-de-rosa (Inia geoffrensis) e os emalhes acidentais do tucuxi (Sotalia fluviatilis). “Desde 2014 fizemos três estimativas populacionais de botos amazônicos no Rio Tapajós, e constatamos que ambas as populações de botos estão em declínio”. De acordo com Neriane Nascimento, bióloga da Sapopema, são várias as ameaças à espécie, passando pelo conflito com a pesca; a contaminação dos rios por mercúrio proveniente da mineração ilegal de ouro; o desmatamento; além das barragens das hidrelétricas, que isolam e prejudicam a alimentação e reprodução dos animais. “Dentro dessa preocupação com a conservação ambiental, a gente tem a preocupação com as pessoas que estão nos territórios. Porque se o ambiente é degradado, elas são as primeiras que sofrem”, completa Neriane.
 

Escuta, formação, prática e resultados



No início do projeto, a comunidade de Prainha I apresentava uma percepção muito negativa em relação aos botos. Conforme relatou um pescador local, Dionildo Farias, “o sentimento de

centenas de pessoas é de acabar com os animais, porque dão muito prejuízo. O peixe entra na rede, ele rasga e leva. Às vezes a gente passa fome”.

Nesse cenário, o primeiro passo foi a realização de uma oficina sobre conflito e promoção de ferramentas de coexistência, para conscientizar os moradores sobre a presença do animal, as ameaças à sua sobrevivência e sua relevância para a saúde do rio, da floresta e das pessoas. “Agora eu estou reconhecendo que o boto é importante para o rio. Onde ele está, a gente sabe que lá tem peixe. Todos os moradores estão com grande expectativa que esse projeto dê certo, pois queremos pescar sem machucar o boto.”, afirmou a pescadora Juliana Sousa após a formação. Dando sequência à oficina, o pinger foi apresentado como possível alternativa para redução dos danos às redes e à baixa produtividade pesqueira. “Demonstramos como o dispositivo funciona e a forma correta de instalação nas redes, já que os próprios pescadores é que manusearam os equipamentos ao longo do projeto”, lembra Mariana Frias.

Em uma primeira fase de testes, os botos se afastaram das redes, havendo 40% de sucesso na redução dos danos às malhadeiras e o aumento, em três vezes, na quantidade de pescado, com potencial impacto na renda e alimentação das famílias. Em uma segunda fase esse resultado caiu, mostrando que os botos começaram a se adaptar ao ruído e buscar novamente alternativas de aproximação às redes. “Eles desviavam do pinger, mergulhando mais fundo ou nadando pela superfície, com a cabeça fora da água”, conta Dionildo Farias.

De acordo com Mariana Frias, essa mudança comportamental, que ocorreu somente nas observações com o boto cor-de-rosa, se explica pelo fato de o tucuxi não ficar em áreas rasas, preferindo o canal central do rio. “Ele tem dificuldade de sair da rede. Então, ao passar perto de uma, percebe imediatamente o sinal do pinger e sabe que deve desviar. Assim, houve redução visível do número de observações de tucuxis próximos às áreas de pesca”. Já o boto cor-de-rosa é o único golfinho de rio que nada de ré, que consegue, com a ponta do bico, tocar a ponta da nadadeira caudal, fazendo um círculo. “Ele aprendeu isso navegando pela floresta alagada, o que o ajuda a pescar na malhadeira, muitas vezes sem se enroscar. Essa é uma habilidade evolutiva importante, que também o beneficiou na adaptação à presença das inúmeras redes de pesca ao longo dos rios”, esclarece.

Apesar dessa dificuldade, a analista de conservação considera o resultado positivo. Isso porque, além de terem afastado os animais, os pingers trouxerem conhecimento sobre as espécies. Durante o projeto, também não houve episódios de botos enroscados nas malhadeiras. Outro grande avanço foi a mudança significativa da percepção negativa da comunidade sobre o boto e da compreensão sobre a necessidade de convivência. “Mas sabemos que é preciso melhorar. Para isso, precisamos adaptar melhor o método às técnicas utilizadas pelos pescadores. Também queremos ampliar o projeto, alcançando mais pescadores na mesma comunidade e em outras dos arredores, com experimentos em maior escala e a longo prazo", salienta Mariana.

Neriane ressalta ainda a necessidade de se estabelecer um acordo de pesca na região. “Ao longo dos anos, a comunidade tem sofrido com a pressão da pesca comercial, que está reduzindo o recurso pesqueiro, e isso afeta toda uma cadeia: o peixe, o boto o pescador", conclui.
O pinger é um aparelho instalado nas redes de pesca que emite ondas sonoras de alta frequência, sobrepondo-se à faixa de comunicação das espécies, gerando um alerta de não aproximação para os botos.
O pinger é um aparelho instalado nas redes de pesca que emite ondas sonoras de alta frequência, sobrepondo-se à faixa de comunicação das espécies, gerando um alerta de não aproximação para os botos.
© Breno Arthur / WWF-Brasil
Outro grande avanço foi a mudança significativa da percepção negativa da comunidade sobre o boto e da compreensão sobre a necessidade de convivência.
Outro grande avanço foi a mudança significativa da percepção negativa da comunidade sobre o boto e da compreensão sobre a necessidade de convivência.
© Pedro Alcântara / WWF-Brasil
"Todos os moradores estão com grande expectativa que esse projeto dê certo, pois queremos pescar sem machucar o boto", afirma a pescadora Juliana Sousa da comunidade Prainha I.
© Pedro Alcântara / WWF-Brasil
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