novembro, 20 2025
Por Fábio de Castro, especial para o WWF-Brasil
O WWF-Brasil promoveu o “Dia de Ação pela Floresta” na COP30, com uma série de debates sobre cadeias de suprimentos livres de desmatamento e conversão na última segunda-feira. No Pavilhão WWF, especialistas apresentaram soluções comprovadas e escaláveis, destacando oportunidades de colaboração e alinhamento entre setores, além dos principais desafios e avanços na implementação desse tipo de iniciativa.
A programação foi aberta com o painel “Hora de agir: apresentando, incentivando e ampliando o DCF”, com mediação de Pablo Majer, líder de Conversão Zero do WWF-Brasil. DCF é a sigla em inglês para “Livre de Desmatamento e Conversão”, expressão que emergiu dentro da agenda internacional de sustentabilidade, especialmente a partir de padrões e compromissos corporativos relacionados a commodities agrícolas.
“A ideia desse conjunto de eventos é demonstrar que implementar iniciativas DCF em grandes cadeias de commodities é possível, é factível e que é o melhor para os negócios e para a natureza, acelerando o combate à mudança climática”, destacou Mauricio Voivodic, diretor executivo do WWF-Brasil. “Agora, na COP30, não é mais o momento de apresentar compromissos a longo prazo. É hora de agir e de passar das promessas à ação.”
“Nós, do WWF, estamos totalmente engajados nisso. O que estamos discutindo aqui tem a mesma linha das negociações formais. Um Roteiro para as Florestas nas negociações pode ser muito importante para demonstrar qual é o caminho nos próximos anos para chegarmos a reverter o desmatamento, como foi decidido na COP28 em Dubai”, afirmou Voivodic.
Ele destacou um caso de sucesso, fruto de um trabalho em conjunto com o WWF-Brasil: o primeiro carregamento da história de carne bovina DCF para a China, com verificação e critérios rígidos, que foi vendida pela MBRF, uma das maiores produtoras e exportadoras de carne brasileira, empresa que tem avançado na direção do desmatamento zero em sua cadeia.
“Essa venda para a China é realmente simbólica. Por anos, acreditou-se que a China não estava interessada em critérios de sustentabilidade. Mas, agora, o país está realmente interessado em obter bens DCF, não só do Brasil - e isso pode ser um ponto de virada em toda a discussão”, salientou Voivodic.
Paulo Pianez, diretor Global de Sustentabilidade e Assuntos Corporativos da MBRF, ressaltou que o “embarque mostra que é totalmente possível entregar carne DCF com verificação independente”. De acordo com ele, a empresa “já opera uma cadeia de suprimentos livre de desmatamento e conversão, auditada e com controles rigorosos sobre fornecedores diretos e indiretos. Escalar essa agenda requer apoiar os produtores — não há produção sustentável se ela não for economicamente viável para eles”.
O executivo acrescentou ainda que “a confirmação do embarque para a China reforça a importância crescente da responsabilidade socioambiental e prova que produção e conservação podem avançar juntas. Para ampliar a escala, a rastreabilidade precisa se tornar uma política pública obrigatória vinculada a incentivos.”
Jean-François Timmers, líder de Políticas Públicas para Cadeias de Suprimentos DCF no WWF, lembrou que esse foi o primeiro resultado concreto de um esforço que vem sendo feito desde 2016 para criar a Declaração de Carne Sustentável da China. “A agricultura e a mudança no uso da terra são responsáveis por 15% a 20% das emissões, mas três commodities são responsáveis por até metade delas: pecuária, soja e óleo de palma. Então, temos uma meta clara de como podemos fazer uma diferença drástica. E provamos que isso é fundamental para atingir a meta de 1,5 °C da agenda climática”, declarou.
Jeff Milder, diretor da Accountability Framework Initiative, afirmou que, em 2016, as empresas já haviam começado a assumir compromissos com o desmatamento zero e o respeito aos direitos humanos em suas cadeias de suprimentos de commodities. Mas ainda faltava definir métricas e caminhos de implementação.
“Criamos um grupo, do qual Mauricio Voivodic fez parte, que definiu um conjunto de regras globais comuns sobre como estabelecer compromissos sólidos, tomar medidas e relatar o progresso nessa transição para eliminar o desmatamento e as violações dos direitos humanos nas cadeias de suprimentos. Essa estrutura tem sido usada por centenas de empresas”, disse.
Luís Meneses, líder da Global Canopy no Brasil, explicou como a organização trabalha para mudar as forças de mercado que estão destruindo a natureza a partir do fornecimento de dados, ferramentas e orientações de acesso aberto para empresas, instituições financeiras, governos e sociedade civil, a fim de construir cadeias de suprimentos DCF.
De acordo com o relatório Floresta 500 de 2025, da Global Canopy, que avaliou 500 empresas, apenas 3% delas têm compromissos sólidos de desmatamento zero para todas as commodities de alto risco. Cerca de 40% das instituições que financiam essas empresas têm políticas de desmatamento zero. Mas, no setor pecuário brasileiro, esse número cai para apenas 19%.
“Embora o crédito rural no Brasil tenha requisitos socioambientais rigorosos estabelecidos pelo Banco Central, o que foi decisivo na redução do desmatamento na Amazônia desde 2008, os instrumentos do mercado de capitais são amplamente desregulamentados. E as evidências mostram que parte desse financiamento ainda está apoiando o desmatamento e violações de direitos humanos na Amazônia e no Cerrado”, disse Meneses.
Agnete Schønau Winther, do WWF Dinamarca, explicou que os esforços do país para combater o desmatamento por meio de suas grandes indústrias de carne suína e laticínios envolvem o estabelecimento de metas para importações de soja livre de desmatamento e o trabalho conjunto com os produtores para alcançar rastreabilidade e cadeias de suprimentos verificadas.
Segundo ela, a dinamarquesa Arla, maior produtora de laticínios do mundo, estabeleceu metas para produção de soja 100% livre de desmatamento até 2025. E a Danish Crown, a maior produtora europeia de carne suína processada, também estabeleceu metas para soja 100% livre de desmatamento até 2028.
“Há progresso e bastante ambição. Acho que o próximo passo é garantir que seja possível para eles atingirem as metas estabelecidas. Com o progresso atual em termos de rastreabilidade, vemos que pode haver uma oportunidade de avançar para uma mudança que garanta que a importação seja verificada”, disse Agnete.
Já o painel “Parceria Sul-Sul sobre Mudanças Climáticas – Promovendo Cadeias de Valor Verdes”, abordou a colaboração entre países como o Brasil, a Indonésia e a China pode acelerar a transição para cadeias DCF. O evento reuniu líderes governamentais, empresariais e da sociedade civil, apresentando parcerias emergentes e lições aprendidas com iniciativas em andamento para construir cadeias de valor sustentáveis, transparentes e resilientes.
A moderadora da sessão, Daniela Teston, diretora de Relações Corporativas do WWF-Brasil, convidou os participantes a comentarem os desafios e oportunidades de aumento da escala dessas iniciativas. “Essa é a COP da Natureza e a COP da implementação. É um momento histórico para ouvir sobre casos de sucesso e sobre o embarque de carregamentos DCF de carne brasileira e óleo de palma da Indonésia para a China”, disse Daniela.
Roberta Cantinho, diretora do Departamento de Políticas de Controle do Desmatamento e Incêndios do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), salientou o desmatamento recuou 50% no Brasil entre 2022 e 2025 graças a planos nacionais em cada bioma. “Cerca de 70% das emissões do Brasil estão relacionadas à agricultura e à pecuária. Se quisermos cumprir nossa NDC, vamos ter que continuar traçando instrumentos para lidar com a rastreabilidade das commodities”, afirmou.
Silverius Oscar Unggul, conselheiro-chefe do Ministro das Florestas da Indonésia, destacou o interesse no Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em inglês) e afirmou que o país está comprometido com o reflorestamento por meio de sistemas agroflorestais regenerativos, capacitando comunidades indígenas e promovendo a colaboração internacional para produtos livres de desmatamento. “Temos o compromisso de reconhecer 1,4 milhão de hectares de terras tradicionais, terras de povos indígenas. Isso faz parte do reconhecimento de 8,3 milhões de hectares como área de reflorestamento social para comunidades locais”, relatou.
Fan Shenggen, reitor da Academia de Economia Alimentar Global da Universidade Agrícola da China, afirmou que China, Brasil e Indonésia podem colaborar em agricultura, padrões, investimentos, apoio a pequenos agricultores, reflorestamento, mudanças na dieta e compartilhamento de conhecimento para promover práticas sustentáveis e reduzir o impacto ambiental.
“A China tem uma longa tradição em ajudar os pequenos agricultores a aumentar a produtividade sem precisar expandir suas terras. Acho que, aqui no Brasil, muitos pequenos agricultores na região amazônica — se não tiverem uma boa estratégia de subsistência — certamente acabarão desmatando. Se cooperarmos, podemos contribuir muito”, disse.
A sessão “Navegando pelos Direitos Humanos nas Cadeias de Abastecimento de Commodities: um Chamado à Ação” abriu espaço para vozes de comunidades indígenas e tradicionais diretamente afetadas pela expansão das commodities, apontando maneiras concretas de garantir o respeito os direitos humanos e à justiça social.
Ana Carolina Crisostomo, líder de Incidência Política do WWF-Brasil, destacou que vários painéis do dia apresentaram avanços concretos na redução do desmatamento nas cadeias de produção de commodities, mas ressaltou a necessidade de incluir na agenda do desmatamento zero a dimensão da “violação zero de direitos humanos”.
Ela destacou duas publicações importantes do WWF - um guia de devida diligência de direitos humanos em cadeias de commodities e um relatório sobre a importância da rastreabilidade para defender os direitos humanos nas unidades de produção. “A rastreabilidade dos produtos é fundamental para que possamos monitorar também os direitos humanos”, disse.
Jaime Siqueira, coordenador da Rede Cerrado, lembrou que, tanto para comunidades tradicionais quanto para populações indígenas, a questão central que gera violações de direitos humanos é a luta pela terra. Segundo ele, o relatório Violência no Campo, do CIMI, registra mais de 420 violações de direitos no Brasil em 2024, das quais mais de 210 correspondem a assassinatos de indígenas.
“A maioria dos casos está ligada à expansão do agronegócio por territórios indígenas. Mas as principais organizações de produtores são refratárias às questões ambientais e humanitárias. Por isso, a demarcação de terras indígenas e o fim do Marco Temporal são fundamentais para combater as violações de direitos humanos associadas à produção de commodities”, afirmou Siqueira.
Com base no Relatório Pegada Amazônica 2025, lançado na COP30 pelo WWF, o painel “A Amazônia em Risco: Desmatamento Impulsionado por Commodities e seu Impacto” debateu soluções para evitar um ponto de não-retorno no bioma, incluindo cadeias produtivas sustentáveis, fortalecimento de políticas e apoio aos povos indígenas e comunidades tradicionais. O relatório é a primeira avaliação regional que conecta dados subnacionais de desmatamento com padrões de produção e consumo agrícola.
No painel “NDCs 3.0: Reduzindo a Lacuna de Ambição Florestal”, representantes de países com florestas tropicais e especialistas discutiram como a terceira geração de Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) — as metas submetidas pelos países para redução de emissões — pode aumentar a ambição florestal, reduzir a lacuna de implementação e acelerar o progresso, cumprindo o objetivo definido no Balanço Global de reverter o desmatamento até 2030, em linha com as metas do Acordo de Paris.
Casos inspiradores de sucesso na produção e comércio DCF foram o foco do painel “Viabilizando Cadeias de Suprimentos Livres de Desmatamento e Conversão: Lições, Incentivos e Facilitadores para a Mudança”. Os especialistas mostraram como iniciativas multissetoriais, mecanismos de financiamento e programas de rastreabilidade, tanto públicos quanto privados, protegem as florestas e geram recompensas concretas e novas oportunidades para produtores, empresas e comunidades, impulsionando a transição para cadeias produtivas sustentáveis.
O WWF-Brasil tem o compromisso de contribuir para a construção de um futuro sustentável, em que o país avance rumo à neutralidade de emissões, com sua biodiversidade conservada e impulsionado por um modelo de desenvolvimento justo, inclusivo e responsável. Nossa estratégia está estruturada em quatro pilares:
- Zerar o desmatamento e fomentar Soluções Baseadas na Natureza.
- Fortalecer a conservação da biodiversidade.
- Proteger direitos e promover o bem-estar de povos e comunidades tradicionais.
- Promover um desenvolvimento de baixo impacto.
O WWF-Brasil atua em parceria com diversos setores e partes interessadas para alcançar a meta de desmatamento zero nos ecossistemas naturais — um passo fundamental para manter a temperatura global abaixo do limite crítico de 1,5°C. Para isso, além de incentivarmos a criação de Unidades de Conservação e a demarcação de Terras Indígenas, fomentamos o engajamento do setor privado, pois a crescente demanda por alimentos e a expansão das áreas agrícolas e de pastagens são alguns dos principais motores do desmatamento e conversão de ecossistemas naturais.
Baseamos nosso trabalho na ciência para substituir o desmatamento e conversão por estratégias eficazes de recuperação de pastagens degradadas, promovendo uma agropecuária sustentável e responsável. Também apoiamos o desenvolvimento das chamadas “finanças verdes”, buscando influenciar positivamente o mercado financeiro ao evidenciar os impactos econômicos, sociais e ambientais do desmatamento e conversão.
Outra frente estratégica é fortalecer a agenda de cadeias produtivas livres de desmatamento e conversão (DFC), para destravar o potencial de todos os atores da cadeia de valor na contribuição à agenda climática, eliminando o desmatamento e conversão em suas cadeias de suprimentos de commodities.