Oceano ganha protagonismo histórico na COP30 e impulsiona novos pactos

novembro, 21 2025

Com forte atuação do WWF-Brasil, conferência lança iniciativas, amplia compromissos globais e integra o sistema às metas climáticas
Por Solange Azevedo, do WWF-Brasil, de Belém
 
A COP30 marcou um ponto de inflexão para a agenda oceânica no debate climático global. Durante a conferência em Belém, o tema “oceano-clima” deixou de ser uma pauta periférica para se tornar uma das peças centrais. A partir de múltiplos painéis, anúncios estratégicos e discursos de lideranças, ficou claro: sem soluções baseadas no Oceano, não há ambição climática de fato.
 
No Pavilhão Brasil, na Zona Azul da COP30, o painel “Criando Ondas a partir de Belém: Acelerando a Implementação das Ações Oceano-Clima” reuniu autoridades e especialistas. Entre os destaques, Ana Paula Prates, diretora de Oceano e Gestão Costeira do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), sublinhou a dimensão estratégica dos mares. 
 
“Não podemos ter ambições climáticas sem o Oceano. Soluções baseadas no Oceano são essenciais para mitigação, adaptação e resiliência”, declarou. Logo depois, ela reforçou a dificuldade política de institucionalizar o tema: “Parece simples, mas é ambicioso aumentar as decisões que incluem o Oceano.” 
 
Para Ana Paula, o Oceano não é apenas um recurso ambiental, mas uma infraestrutura natural vital, especialmente no Brasil, onde ecossistemas costeiros e marinhos, como recifes de coral e manguezais desempenham papel-chave. Em entrevista à TV Brasil, ela reforçou essa conexão: “A gente está no coração da Amazônia. Onde a Amazônia encontra o mar. Aqui a gente tem uma das maiores extensões do mundo de manguezais, que são um instrumento excelente para combate à mudança do clima.”
 
A terceira parte do debate, “Mutirão Azul: uma responsabilidade coletiva”, teve mediação de Pauli Merriman, diretora de Oceanos do WWF Internacional, e presenças de Ana-Marie Laura, diretora da Ocean Conservancy; Gillian Sawyer, gerente sênior da Conservation Internacional; Gabriel Muswali, especialista da Earfish; e Nabil Kadri, superintendente de Meio Ambiente do BNDES.
 
O “Pacote Azul”: ambição e financiamento para soluções oceânicas
 
Um dos anúncios mais importantes em Belém veio da enviada especial para os oceanos da COP30, Marinez Scherer. Ela apresentou o chamado Blue Package (“Pacote Azul”), composto por cerca de 70 soluções oceânicas para enfrentar a crise climática — entre elas, conservação e restauração de ecossistemas costeiros e marinhos, energia renovável oceânica, descarbonização do transporte marítimo e turismo. De acordo com Marinez, esse pacote poderia contribuir para uma redução de até 35% das emissões globais de gases de efeito estufa até 2050.
 
A proposta, liderada pela presidência da COP30 em articulação com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima do Brasil e com atores não governamentais, como o WWF-Brasil, também serve como estrutura para destravar investimentos. “Destravar esse capital depende de condições adequadas: regulamentações certas, instrumentos de redução de risco e abordagens de financiamento misto. A implementação também exige responsabilização”, disse Marinez, apontando para a necessidade de modelos financeiros inovadores que combinem capitais públicos e privados.
 
Diplomacia azul: NDCs Azuis e a força-tarefa global
 
A COP30 também consolidou avanços diplomáticos. Em evento ministerial de alto nível, continuação do lançamento do Desafio das NDCs azuis pelo Brasil e pela França na 3 Conferência da ONU pelos Oceanos, o governo brasileiro, representado pelo secretário nacional de Mudança do Clima do MMA, Aloísio Melo, anunciou a criação de uma Força-Tarefa para a Implementação das NDCs Azuis (contribuições nacionalmente determinadas que incluem soluções climáticas baseadas no oceano). 
 
Durante sua fala, Melo enfatizou a importância de recursos financeiros acessíveis para que países costeiros e pequenas nações vulneráveis façam a transição: “Para transformar nossa ambição em impacto é crucial um financiamento mais robusto e acessível… mobilizem investimentos privados e garantam que os fundos climáticos abordem explicitamente as prioridades oceânicas.”
 
Esse anúncio reforça que o Brasil pretende liderar internacionalmente a agenda de Oceano-Clima, ao lado de outros países comprometidos com soluções climáticas baseadas no mar.
Lançamento da Coalizão Corais do Brasil
 
Além de apoiar o Desafio das NDCs Azuis e a elaboração do Blue Package, durante toda a COP30, o WWF-Brasil promoveu e apoiou a realização de 13 eventos voltados à agenda de Oceano. Entre as contribuições da organização, uma das mais celebradas foi o lançamento da Coalizão Corais do Brasil, idealizada em parceria com a Fundação Grupo Boticário. O anúncio ocorreu no evento “Do Brasil para o Mundo: Avançando a Agenda de Conservação Marinha na COP30”, que lotou a Casa Vozes do Oceano em Belém, na noite de 17 de novembro.
 
A iniciativa reúne empresas, comunidades tradicionais, academia e organizações socioambientais para restaurar, monitorar e proteger recifes de coral — ecossistemas que estão entre os mais ameaçados do planeta. 
 
Marina Corrêa, ponto focal para a agenda de Oceano no WWF-Brasil, destacou o caráter estratégico da iniciativa: “A Coalizão Corais do Brasil nasce para unir esforços, destravar recursos e ampliar resultados de conservação onde o país mais precisa.” O lançamento foi considerado um marco na agenda de ação da conferência, alinhando o Brasil ao movimento internacional “Coral Breakthrough”, liderada por 45 países e outras organizações que fazem parte da International Coral Reef Initiative (ICRI).
Legado e cobrança para ações concretas
 
No coração da Amazônia, Belém ofereceu um palco simbólico e estratégico para a COP30 reforçar a ligação entre clima, biodiversidade e oceanos. A cúpula não só elevou o Oceano à condição de protagonista, como também deu passos para tornar as promessas tangíveis. A criação da Força-Tarefa de NDCs Azuis, o anúncio do Pacote Azul e a plataforma de monitoramento são marcos concretos.
 
Por outro lado, autoridades e especialistas já alertam que a retórica precisa se converter em implementações efetivas. Marinez e Ana Paula enfatizaram que o financiamento é o nó a ser desatado e que novas regulamentações e instrumentos financeiros são necessários para viabilizar ações.
 
Uma das lideranças comunitárias mais importantes do setor, Carlos Alberto Pinto dos Santos, cofundador da Comissão Nacional de Fortalecimento das Reservas Extrativistas e Povos Tradicionais Extrativistas Costeiros e Marinhos (Confrem), destacou em Belém: “Eu tenho sido questionado sobre como vai ser o nosso futuro a partir da COP30. Mas eu prefiro acreditar que o futuro está acontecendo agora, e que o amanhã pode ser a partir do que a gente fizer hoje. Nós somos parte da solução. E estar aqui tem sido um aprendizado, porque muitas COPs virão e nós vamos estar presentes. Não aceitaremos que decisões sejam tomadas sem a nossa participação”. 
 
Em Belém, a mensagem ficou clara: para avançar na ação climática, o Oceano precisa deixar de ser tratado como coadjuvante. E a COP30 mostrou que essa mudança já está em curso — agora, é fundamental sustentar esse protagonismo com parcerias, dinheiro e governança.
COMO O WWF-BRASIL ATUA  
 
O WWF-Brasil tem o compromisso de contribuir para a construção de um futuro sustentável, em que o país avance rumo à neutralidade de emissões, com sua biodiversidade conservada e impulsionado por um modelo de desenvolvimento justo, inclusivo e responsável. Nossa estratégia está estruturada em quatro pilares:   
 
Zerar o desmatamento e fomentar Soluções Baseadas na Natureza.   
Fortalecer a conservação da biodiversidade.    
Proteger direitos e promover o bem-estar de povos e comunidades tradicionais.    
Promover um desenvolvimento de baixo impacto.   
NOSSAS AÇÕES NA AGENDA DE OCEANOS 
 
Em 2024, o WWF-Brasil reformulou sua estratégia para a proteção dos oceanos, ampliando ações e elevando o tema nas pautas governamentais e em fóruns internacionais. A nova abordagem concentra esforços em quatro frentes principais: criação de áreas protegidas, proteção de espécies, transição energética e incidência em políticas públicas — todas voltadas a enfrentar os impactos da crise climática. 
 
Na criação de novas áreas marinhas protegidas, a organização, em parceria com outras instituições, trabalha nos montes submarinos das cadeias de Fernando de Noronha e Norte Brasileira e na região dos Abrolhos — reconhecida como o ponto de maior biodiversidade do Atlântico Sul. 
 
O WWF-Brasil também atua na conservação e restauração de corais no litoral nordestino, além de fomentar pesquisas científicas em ecossistemas marinhos. Na transição energética, defende o phase-out da exploração de óleo e gás e avanço de fontes renováveis com salvaguardas, apoiando o Planejamento Espacial Marinho, instrumento que organiza as atividades na zona costeira de forma sustentável. 
 
Na frente política, a instituição participou ativamente de eventos globais como o G20, no Rio de Janeiro, a COP29 do Clima, no Azerbaijão, e a COP16 da Biodiversidade, na Colômbia. Ainda em 2024, foi eleita representante da sociedade civil na Comissão Nacional da Biodiversidade (CONABIO), onde acompanhará a implementação das metas do Marco Global da Biodiversidade no Brasil. 
Durante a conferência em Belém, o tema “oceano-clima” deixou de ser uma pauta periférica para se tornar uma das peças centrais
© Jacqueline Lisboa / WWF-Brasil
“Não podemos ter ambições climáticas sem o Oceano. Soluções baseadas no Oceano são essenciais para mitigação, adaptação e resiliência”
© Jacqueline Lisboa / WWF-Brasil
“A Coalizão Corais do Brasil nasce para unir esforços, destravar recursos e ampliar resultados de conservação onde o país mais precisa”
© Nay Jinknss / WWF-Brazil
“Eu tenho sido questionado sobre como vai ser o nosso futuro a partir da COP30. Mas eu prefiro acreditar que o futuro está acontecendo agora, e que o amanhã pode ser a partir do que a gente fizer hoje. Nós somos parte da solução. E estar aqui tem sido um aprendizado, porque muitas COPs virão e nós vamos estar presentes. Não aceitaremos que decisões sejam tomadas sem a nossa participação”
© Jacqueline Lisboa / WWF-Brasil
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