novembro, 18 2025
Por Débora Rubin, especial para o WWF-Brasil
Em evento disputado e marcado por discursos emocionados, o governo brasileiro, representado pela ministra Marina Silva, junto a parceiros como o WWF-Brasil e o Funbio, lançou nesta segunda (17) o ARPA Comunidades. Parte do ARPA, Programa de Áreas Protegidas da Região Amazônica, maior iniciativa de proteção de florestas tropicais do mundo, o novo projeto tem como objetivo ampliar as áreas protegidas, mas, desta vez, tendo como protagonistas as organizações comunitárias locais. O que significa que o dinheiro aportado pelos parceiros chegará na ponta, fortalecendo quem de fato protege a floresta amazônica.
Ao longo de 15 anos, o ARPA Comunidades beneficiará mais de 130 mil pessoas ao mesmo tempo em que fortalecerá a conservação de 60 áreas protegidas de uso sustentável, abrangendo 23,6 milhões de hectares. Ele se baseia nas duas décadas de implementação do ARPA, que apoiou a criação de 27 milhões de hectares em mais de duas décadas e fortaleceu a gestão de 120 unidades de conservação, resultando em cerca de 104 milhões de toneladas de emissões de CO₂ evitadas entre 2008 e 2020.
O evento, que foi conduzido por Rodrigo Vieira, do Ministério do Meio Ambiente, teve a participação de João Paulo Capobianco, secretário executivo do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), que abriu o evento de forma emocionada ao recordar que o lançamento do dia tem origem no primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva, ainda em 2002, quando foi lançado o ARPA. E que, agora, nesse segundo momento, o programa foi costurado junto às comunidades tradicionais, ouvindo essas pessoas para que ele fosse construído da melhor forma possível.
Mauricio Voivodic, diretor executivo do WWF-Brasil, começou lembrando que tudo o que ameaça a Amazônia, ameaça a todos. “E conforme estamos vendo aqui na COP30, por meio de diversos estudos, o que beneficia a Amazônia, beneficia a todos nós”, afirmou Maurício, no Pavilhão Brasil, na Zona Verde da COP30.
Em seguida, citou os cinco componentes do ARPA Comunidades: fortalecimento das organizações comunitárias locais; a promoção da sociobioeconomia; a expansão da energia elétrica e da internet, a criação e implementação das novas Unidades de Conservação (UC) e, por fim, o monitoramento e intercâmbio de conhecimento entre as comunidades envolvidas.
A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, que falou em seguida, celebrou o momento e parabenizou todos os envolvidos no lançamento do programa que dá um segundo passo importante ao levar os benefícios às comunidades. “A proteção só é possível com esse processo de retroalimentação: após a implementação das unidades, com a parceria das comunidades do entorno e as de manejo sustentável, como as das reservas extrativistas (Resex)”, disse Marina Silva. Ela lembrou que Chico Mendes, há quatro décadas, foi pioneiro ao criar um novo conceito de unidade de conservação que, depois, virou o modelo atual das Resex.
Marina falou ainda da importância dos esforços da filantropia. “Às vezes a gente consegue fazer as coisas mais rápido com o dinheiro da filantropia, fazendo florescer os frutos das iniciativas. E aí, depois, é obrigação dos governos dar continuidade”, disse.
Rosa Lemos de Sá, secretária-geral e CEO do FUNBIO - a Fundação que faz a gestão dos recursos destinados ao programa -, lembrou que o ARPA já é referência para outros países da América Latina e inspirou programas semelhantes na África e na Ásia. “Hoje estamos lançando um fundo de US$120 milhões que impulsionará investimentos para pessoas e naturezas”, destacou. Ela acrescentou que, para além dos números promissores já citados pelos demais, o projeto deve tirar mais de cem mil pessoas da pobreza.
Júlio Barbosa, presidente do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), disse que o lançamento é a celebração de um processo muito longo e profundo de conversas e decisões coletivas. E, como representante de uma comunidade diretamente beneficiado pelo ARPA, agradeceu: “Não posso deixar de registrar a nossa satisfação em relação ao ARPA no desenvolvimento das nossas Unidades de Conservação (UC), tanto em seu processo de criação como na viabilização da estrutura de governança desses territórios - com os conselhos deliberativos e os planos de manejo. Isso resultou em milhões de hectares de terra, floresta e água que podemos dizer que são nossos. Hoje, nós somos populações reconhecidas com direito de usufruir desses territórios.”
“Esse é o momento em que o bebê está nascendo”, celebrou Carter Roberts, Presidente do WWF-EUA, que recordou o momento em que esteve com Marina Silva pela primeira vez, quando se comprometeu com o projeto. Roberts manifestou sua emoção com a presença de Júlio Barbosa, que afirmou ser a personificação das comunidades que serão impactadas pelo novo fundo. “A conservação só perdura quando as populações locais prosperam junto com a natureza. O modelo de Financiamento de Projetos para Permanência, por trás do ARPA Comunidades, reúne todos os setores da sociedade para criar um futuro em que tanto a Amazônia quanto seus povos prosperem”, disse. Em seguida, Carter convidou todos os envolvidos no projeto para assinar o compromisso.
O lançamento do ARPA Comunidades reflete os esforços de vários parceiros em colaboração com MMA, o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO) e o WWF-Brasil: o WWF-EUA, o Ministério da Cooperação Econômica e Desenvolvimento (BMZ) da República Federal da Alemanha, por meio do KfW, Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Bezos Earth Fund, Banco Mundial, Global Environment Facility, além das organizações Zoma Lab, Gordon and Betty Moore Foundation, Rainforest Trust, Walmart Foundation, Bobolink Foundation, Andes Amazon Fund, Enduring Earth e The Nature Conservancy.
“O ARPA, criado em 2002, atravessou governos – até os piores, sendo testado em fogo e água – e se mostrou fundamental para a proteção da Amazônia. Agora, esse segundo passo vai chegar nas comunidades e a quem, como o Júlio (Barbosa, presidente do Conselho Nacional das Populações Extrativistas, CNS), tem toda uma vida dedicada à Amazônia. Parabéns a todos, estou muito feliz em ver que aquilo que era só uma ideia hoje já é fruto plantado e colhido.”
Marina Silva, Ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima
“No WWF, sabemos que ao valorizar o papel das lideranças comunitárias, podemos alcançar benefícios mais amplos para protegermos os ecossistemas dos quais dependemos. O ARPA Comunidades concretiza essa visão ao abordar as causas do desmatamento e construir resiliência para a vida e subsistência dessas pessoas.”
Mauricio Voivodic, diretor executivo do WWF-Brasil
“O ARPA Comunidades valoriza a importância das organizações comunitárias e também o fortalecimento da bioeconomia com a cara da nossa população, e não com a cara empresarial. Uma bioeconomia que valoriza a tradição dos povos, nossa forma de vida, nossa cultura, que não esteja focada somente no capital, no lucro, mas em como essa exploração possa gerar renda e qualidade de vida, e protegendo os territórios e recursos naturais.”
Júlio Barbosa – presidente do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS).
“O ARPA Comunidades começou a ser sonhado antes mesmo de o governo tomar posse, quando o presidente convidou Marina Silva a assumir o ministério. É o resultado de um processo que envolve muitos atores, que contou com muitas consultas públicas, reuniões, e que não seria possível sem o apoio inestimável do WWF e a parceria estratégica do Funbio.”
João Paulo Capobianco, secretário executivo do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima
“É um projeto de longo prazo, com benefícios intergeracionais, que não se baseia em esperança e otimismo, mas se fundamenta em mais de 20 anos do sucesso do ARPA, que já evitou a emissão de 104 milhões de toneladas de dióxido de carbono.”
Rosa Lemos de Sá, Secretária-geral no Funbio (Fundo Brasileiro para a Biodiversidade)