Existe espaço para gênero e clima nas eleições?



11 novembro 2020    
Webinar realizado pelo Observatório do Clima no dia 6/11/20 promoveu discussão sobre gênero e clima
© Observatório do Clima
Webinar realizado pelo Observatório do Clima promoveu a discussão sobre gênero e clima nas eleições municipais de 2020

Por Taís Meireles


Não basta conhecer a relação entre clima e gênero, é fundamental que essa intersecção seja considerada na prática, principalmente através da política. E o período eleitoral nos municípios, quando as campanhas estão de verdade discutindo os problemas e anseios que as pessoas vivem na prática, é o momento ideal para trazer luz a estes temas. Com este intuito, o Grupo de Trabalho (GT) Gênero e Clima do Observatório do Clima realizou um webinar na última sexta (6) intitulado “Existe espaço para gênero e clima nas eleições?”.

“Esse encontro foi fruto de um processo de diálogo de diferentes organizações com candidatas e candidatos sobre como inserir as pautas de clima e gênero no debate público. É, mais do que tudo, um processo de conhecimento coletivo sobre esses assuntos. O GT se coloca, assim, como um espaço de articulação e formação coletiva”, explica Joana Amaral, coordenadora-executiva do Observatório do Clima. 

Joci Aguiar, uma das criadoras do GT, explicou o contexto do coletivo e como a incidência política é um caminho fundamental para o avanço no tema. “Enxergamos os espaços de tomada de decisão e as políticas públicas como elementos essenciais para a redução das desigualdades de gênero e promoção da equidade em um cenário de mudança climática”, disse.

O papel da mulher na crise climática

O webinar foi, antes de tudo, um espaço para trocas emocionantes, como nos depoimentos das líderes comunitárias Danielle Lins, do Coletivo Caranguejo Tabaiares Resiste de Recife (PE), e de Xica da Silva, representante do Fórum Brasileiro de Economia Solidária e do GT Agenda 2030. Nas falas de ambas, palavras sobre a realidade e o sofrimento das mulheres periféricas que superaram a violência e o abuso doméstico e continuaram na luta pelo coletivo. 

Elas deixaram evidente o quanto as políticas públicas acolhedoras são fundamentais nos municípios para que as mulheres conheçam seus direitos e sigam em frente. Mostraram ainda como a mudança no clima afeta a vida localmente. “Quando a fome chega é a mãe quem sofre mais”, lamentou Danielle. 

Para mostrar como é possível trazer temas tão significativos para a pauta pública, Lígia Galbiati, doutoranda em Ambiente e Sociedade, mostrou como a relação entre gênero e clima decorre de uma maneira de pensar o mundo e as relações sociais. E que é nos municípios que são sentidos os efeitos climáticos, sobretudo pelas mulheres. “As exclusões atualmente materializadas em segregação urbana, menor acesso a saneamento, água potável, moradia digna, entre outros efeitos, serão amplificadas pelos efeitos da mudança climática”.

Exemplos práticos de mudança

Nesse sentido, como os gestores públicos nos municípios podem perceber essas necessidades e se anteciparem em políticas públicas para mitigação e adaptação dos efeitos do clima? Uma das apostas são programas municipais, com ampla participação da sociedade, definindo ações, bem como os meios para realizá-las. 

Julia Campos, do Imaflora, apresentou como vem sendo construído o Pira no Clima, no município de Piracicaba (SP). O viés de gênero é um dos pilares do Plano Municipal Participativo, incluindo todas as regiões do município, por meio de atividades formativas e culturais, trazendo a riqueza representativa local. 

E para que ações como esta se tornem políticas públicas, precisam passar pelas Câmaras de Vereadores e ter a aprovação de quem é titular nas prefeituras. Assim, Rayana Burgos, cientista política e membro da rede Youth Climate Leaders, reforçou o papel de vereadores e prefeitos nesse contexto, apresentando o resultado de sua pesquisa sobre como o clima é tratado em gestões municipais.

Segundo ela, menos de 25% dos municípios pesquisados tinham qualquer lei ou ação com a agenda climática. E se não há lei, também não existem recursos municipais para realizar as ações necessárias. Por isso, é importante conhecer os orçamentos públicos, os planos diretores e como os prefeitos e vereadores podem incluir ações climáticas quando definem as políticas públicas de educação, saúde, saneamento, moradia, assistência social, cultura e todas as ações que serão diretamente sentidas pela população local.

O debate foi bastante rico e trouxe bons temas para discutir com candidatos e, depois com os eleitos, pois terão quatro anos para desenvolver ações que façam a diferença também nesta agenda climática. Para assistir à íntegra do webinar, acesse o canal do Youtube do Observatório do Clima.
Webinar realizado pelo Observatório do Clima no dia 6/11/20 promoveu discussão sobre gênero e clima
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