Refugiados Ambientais: uma nova expressão nas negociações sobre clima



14 novembro 2006
Uma movimentada estrada no Quênia
© Mauro Armelin / WWF-Brasil

Por Karen Suassuna

Em várias conversas aparece um tema (ou expressão) que ainda não estamos acostumados: refugiados ambientais. As mudanças climáticas podem ter várias caras: secas duradouras, enchentes sobre a que falei ontem por aqui, furacões... Estes são os que os cientistas chamam de eventos extremos do clima, que de uma maneira ou outra sempre existiram, mas agora estão se intensificando de maneira considerável.

Aqui no Quênia eles estão lidando com um problema cuja causa é ambiental, mas que perpassa diferentes aspectos da vida cotidiana. As secas ao norte da Somália e a falta de estabilidade no país faz que a capital do Quênia, Nairóbi, receba uma grande quantidade de refugiados vindos de lá. Problemas como a falta de sistema de saúde no país vizinho, causam aqui muita preocupação, pois sem sistema de saúde, as crianças não são vacinadas contra poliomielite, sarampo e outras doenças infantis. E quando os pais chegam ao Quênia, trazem junto com seus filhos os vírus que podem ser espalhados por aqui. As autoridades tentam trabalhar em conjunto nas fronteiras, mas os problemas políticos e a pressão feita pelas mudanças climáticas são um forte fator das migrações destas populações.

Mas o que isso tem a ver conosco, no Brasil? Somos um país continental, que pode sofrer as mudanças climáticas de maneira muito diversificada. Uma seca mais demorada na área de caatinga pode colaborar ou ser uma força vetora da migração dos moradores da caatinga para as grandes cidades. Ao mesmo tempo, nossas capitais como Fortaleza, Recife, João Pessoa, Natal e Rio de Janeiro ficam todas em áreas costeiras, onde provavelmente teríamos problemas com ventos, chuvas fortes, alagamentos....

Tudo isso para dizer que, assim como na África, quaisquer populações estão sujeitas aos impactos das mudanças climáticas e os pobres são os mais vulneráveis. Não tendo condições suficientes para lidar com o problema do clima, são impulsionados a migrarem e, em condições de vulnerabilidade, se instalam nas grandes cidades. É o impacto ambiental gerando uma série de conseqüências sociais.

Temos de estar preparados para as mudanças do clima. Portanto, as discussões de hoje sobre o Fundo de Adaptação e o Programa de cinco anos de Adaptação são fundamentais para os países em desenvolvimento. O trio Estados Unidos, Canadá e Austrália receberá em minutos o “premio” Fóssil do Dia de hoje por atravancar e barrar as negociações nestes tópicos!

Merecidíssimo!!! Os mais desfavorecidos têm o direito de se adequar e de terem os recursos necessários para tal.

Mais tarde, ainda hoje, acontecerá uma série de reuniões fechadas para definição de texto para o artigo 3.9 do Protocolo de Quioto, aquele que determina a maneira como serão cortadas e quanto será o declínio das emissões dos países desenvolvidos. Serão textos para todos os lados e uma nova disputa entre G77 e países desenvolvidos. Nem precisa falar qual, né? Uns querem pressa e profundidade nos novos compromissos para além de 2012, outros querem que o processo seja mais lento e que inclua cortes nos países em desenvolvimento.

Então, depois dessa explicação já dá para perceber que tenho de correr... Quem sabe a gente consegue melhorar o trato com o clima e evitar mais essa pressão nas comunidades desse mundão!

Uma movimentada estrada no Quênia
© Mauro Armelin / WWF-Brasil Enlarge
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