Entrevista - Gustavo Vasconcelos Irgang, geógrafo e chefe da expedição



23 agosto 2011    
Gustavo Vasconcelos Irgang, geógrafo e chefe da expedição. Expedição Guariba-Roosevelt 2010.
Gustavo Vasconcelos Irgang, geógrafo e chefe da expedição. Expedição Guariba-Roosevelt 2010.
© WWF-Brasil/Juvenal Pereira
"Estudando o solo, é possível saber os fenômenos que já ocorreram na área como queimadas e existência de garimpo"

Por Jorge Eduardo Dantas de Oliveira


Geógrafo e Mestre em Ecologia, Gustavo Vasconcelos Irgang, 36, foi também o chefe da Expedição Guariba-Roosevelt. Fã de fotografia, o especialista foi responsável pelos estudos do Meio Físico e coordenou os trabalhos no noroeste do Mato Grosso. Gustavo já trabalhou na Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul (FZB/RS), foi professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e chefe do programa de conservação do Instituto Centro de Vida (ICV). Hoje, é um dos sócios da Mapsmut, que presta serviços especializadas na área ambiental. Gustavo trabalha com conservação desde o final da década de 90 e já realizou trabalhos em outras áreas protegidas da Amazônia Meridional como o Parque Nacional do Juruena, o Parque Nacional dos Campos Amazônicos e o Parque Estadual do Cristalino.

1- Qual é o trabalho de um “estudioso de Meio Físico”?

Gustavo Irgang: Minha tarefa na expedição é descrever o solo desta região sob o ponto de vista da geologia. Estudo questões como as rochas que encontramos por aqui e assuntos como geomorfologia, relevo, altimetria, declividades, hidrografia e clima. Por meio de informações que levantamos sobre essas temáticas, é possível identificar, por exemplo, a idade do solo e os fenômenos que já ocorreram na área como grandes queimadas e existência ou não de garimpo, por exemplo.

2 – Como são obtidas essas informações?

Gustavo Irgang: Hoje em dia, por meio de fotos de satélites, já é possível saber muito sobre um determinado terreno. Nós, da Mapsmut, trabalhamos com um software específico que nos permite uma leitura bem detalhada das condições de determinado local. Aplicando filtros específicos nessas fotos de satélites, podemos saber quais são as áreas mais elevadas, onde estão os maiores rios da região e as condições climáticas desses espaços. Então hoje nós vamos pra campo já com muitas informações sobre determinado local e sobre o que podemos encontrar lá. Em campo, tiro fotos e marco com GPS os tipos de solos diferentes que vou encontrando, como porções arenosas, chão de pedra e coisas do tipo. 

3- Um de seus trabalhos na expedição foi o planejamento das sete trilhas utilizadas para as pesquisas. Como foi feito este trabalho?

Gustavo Irgang: É preciso ficar claro que, nesta expedição, teríamos que visitar quatro unidades de conservação e andaríamos bastante. Mas, obviamente, não seria possível percorrer toda a extensão dessas áreas protegidas. O que fizemos: para que nossos estudos representassem com fidelidade estes espaços, decidimos trabalhar com base em “unidades de paisagem”, que são especificamente cenários e ambientes diferentes. Nosso entendimento é que, estudando paisagens diferentes, vamos ter contato com solos diferentes, vegetações diferentes e faunas distintas em cada paisagem.

A partir de um trabalho de mapeamento das unidades de paisagem da Amazônia, feito anteriomente por um grupo de especialistas, do qual participei, chegamos a conclusão de que a Amazônia Legal possui 13 unidades de paisagem distintas. Nas unidades de conservação que vamos visitar, são 6. Logo, temos seis trilhas.

4 – Como são definidas essas “unidades de paisagem”?

Gustavo Irgang: Por meio das fotos de satélites. Como te disse, é possível aplicar filtros e obter muitas informações sobre determinado terreno. Somente no computador, analisando esse material, já existe muita informação disponível sobre uma área.

5 - Quais são as dificuldades em coordenar uma expedição como esta?

Gustavo Irgang:
A grande dificuldade é que temos muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Você tem uma equipe abrindo uma trilha, outra explorando uma trilha aberta. Há pesquisadores nos rios, outros envolvidos em trabalhos de planejamento no acampamento. O maior desafio que temos é fazer com que tudo saia conforme o planejado e programado anteriormente. Temos um calendário de atividades e para que ele seja seguido é preciso que todos saibam os horários em que devem estar a postos, preciso saber se estão todos bem, se as refeições estão sendo preparadas nos momentos combinados etc. Outra tarefa é dar estrutura para que os pesquisadores possam desempenhar seu trabalho da melhor forma possível: por isso, em alguns momentos somos obrigados a voltar em certas trilhas que já havíamos deixado para trás, temos que nos deslocar carregando grande quantidade de equipamento.
Gustavo Vasconcelos Irgang, geógrafo e chefe da expedição. Expedição Guariba-Roosevelt 2010.
Gustavo Vasconcelos Irgang, geógrafo e chefe da expedição. Expedição Guariba-Roosevelt 2010.
© WWF-Brasil/Juvenal Pereira Enlarge
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