Entrevista - José Cândido Primo, líder comunitário e sociólogo



23 agosto 2011    
José Cândido Primo, líder comunitário e sociólogo. Expedição Guariba-Roosevelt 2010.
José Cândido Primo, líder comunitário e sociólogo. Expedição Guariba-Roosevelt 2010.
© WWF-Brasil/Juvenal Pereira
"Precisamos fazer com que os jovens se orgulhem das tradições e possam preservá-las para o futuro"

Por Jorge Eduardo Dantas de Oliveira


Goiano de Iporá, José Cândido Primo, 56, assumiu em 2010 a gerência da Reserva Extrativista (resex) Guariba-Roosevelt. Educador, sindicalista e mobilizador social, “professor Cândido”, como é conhecido, já foi preso e ameaçado de morte diversas vezes por defender os direitos dos menos favorecidos – normalmente ribeirinhos e trabalhadores da zona rural. Cândido também acumula trabalhos autônomos em Goiânia e inimigos políticos nos municípios mato-grossenses de Nova Brasilândia, Aripuanã e Castanheiras. Neste último, chegou a ser Secretário de Agricultura. Desde 2005, mora na Vila Guariba. Após abandonar os estudos de Contabilidade e o Magistério em anos anteriores, recentemente concluiu sua graduação em Sociologia por meio de um pólo de Educação à Distância que a Universidade Luterana do Brasil (Ulbra) mantém na Vila Guariba.

1- Qual é o trabalho de um gerente de reserva extrativista (resex)?

José Cândido: Basicamente, cuidar da reserva e garantir que ela seja bem utilizada. Para isso, eu represento os interesses das comunidades locais dentro e fora da resex. Faço solicitações e participo de reuniões com o Ministério Público, com organizações não governamentais, com instituições de pesquisa, com a Secretaria de Meio Ambiente do Mato Grosso (Sema). Também tenho uma atuação fiscalizadora para garantir que a legislação ambiental seja cumprida, ou seja, eu notifico, prendo e chamo atenção na ocorrência de crimes ambientais. Mas também ajudo as populações menos favorecidas, que geralmente são os ribeirinhos e os moradores das comunidades. Meu trabalho tem muito de prevenção e articulação, buscando quem possa ajudar a resolver as necessidades das famílias e das comunidades tradicionais.

2- Quais as maiores dificuldades deste trabalho?

José Cândido: É a falta de estrutura para exercer essas atividades. Faz quatro meses que estou na gerência, mas só agora chegaram um barco, um motor e um carro. Antes, eu fazia tudo na minha motocicleta. Fiz várias ações com gasolina minha mesmo. O telefone do escritório, por exemplo, é o da minha casa. Outro problema é a falta de limites e demarcações na resex. Não temos placas ou indicadores que identifiquem onde começam e terminam os limites da reserva. Isso me atrapalha na hora de conversar com as pessoas e de fazer as fiscalizações. Eu mostro mapas, indico os pontos de GPS, mas as pessoas dizem “ah, não tem placas aí”, “cadê a demarcação?” e eu fico com dificuldades de fazer com que a legislação seja cumprida.

3 - A função de agente fiscalizador gera muita antipatia dentro de pequenas comunidades. O senhor já foi hostilizado alguma vez?

José Cândido: Sim, várias vezes. Sou alvo de ameaças. Na resex, há quem me considere “aquele que perturba”, “o petulante”, “o chato”. Quando a Sema ou o Instituto Brasileiro para o Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) fazem suas fiscalizações, alguns dizem “foi o Cândido quem chamou”. Já fui ameaçado em diversas ocasiões. Mas nunca é agressivo ou ostensivo. Sempre são coisas indiretas. Já me mandaram recados para “me cuidar”, já recebi telefonemas suspeitos. As ameaças me incomodam, lógico, mas não me inibem. Acho que faço um trabalho digno e não deixo que isso me atrapalhe.

4 – O senhor tem participado dos processos de elaboração do plano de manejo da reserva extrativista. Como o senhor vê esta “caminhada” e que importância o senhor atribui ao Plano de Manejo?

José Cândido: Tenho participado muito e, até agora, tenho aprendido bastante. À medida que os eventos e oficinas vão acontecendo, vou conhecendo pontos que ignorava, vou tomando ciência de questões que eu desconhecia. Isso vai me ajudar a ter mais cuidado com os bichos e as plantas da reserva. Quando o plano de manejo estiver pronto, os comunitários vão ver que este trabalho de conservação faz parte de um processo mais amplo e abrangente. Já fui agricultor, sei por experiência própria que o uso indiscriminado dos recursos acaba com tudo, te deixa sem opção de vida. Eu vivi isso, então sei da importância que é levar essas informações para os comunitários, para que eles evitem o pior.

5 – A resex possui 320 ribeirinhos e 30 famílias de fazendeiros. Essas pessoas têm se envolvido nesses processos relativos ao plano de manejo?

José Cândido: Acredito que temos tido uma boa representatividade, mas ainda estamos longe do ideal. As comunidades mais importantes sofrem com o êxodo. Os adolescentes e jovens não vêem perspectivas de vida e saem daqui, geralmente rumo a grandes cidades. Então ficam os velhos, que têm mais dificuldades de se fazer presentes neste tipo de discussão e são resistentes a novas idéias. Uma das minhas propostas no sentido de envolver as comunidades é fazer com que os mais velhos retomem tradições antigas e possam mostrá-las aos mais novos. Precisamos fazer com que os jovens conheçam as tradições, se orgulhem delas e possam preservá-las para o futuro.
José Cândido Primo, líder comunitário e sociólogo. Expedição Guariba-Roosevelt 2010.
José Cândido Primo, líder comunitário e sociólogo. Expedição Guariba-Roosevelt 2010.
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