Garimpeiros surpresos com criação do parque



24 junho 2006
Comunidade Barra de São Manoel
© WWF-Brasil / Marcos PINHEIRO

Por Ana Cíntia Guazzelli

Os moradores da Comunidade da Barra de São Manoel, localizada na confluência dos rios Juruena e Teles Pires, onde inicia o rio Tapajós, demonstraram surpresa com a notícia da criação do Parque Nacional Juruena, revelada durante nossa visita hoje pela manhã àquela localidade. Com uma cópia do Diário Oficial da União, de 23 de dezembro de 2005, em mãos, eles garantiram que antes da assinatura do decreto da criação do parque nacional, o então Superintendente do Incra do Amazonas, João Pedro Gonçalves da Costa, havia criado o Projeto Agroextrativista – PAE São Benedito, através da portaria no. 47.

Conforme a publicação, o assentamento estaria localizado nos municípios de Apuí e Maués, no estado do Amazonas, com área total de 627.822,6154 hectares e atenderia 80 famílias agroextrativistas daquela região. “Então este parque pegou toda a área que a gente já tinha conquistado”, lamentou o presidente da comunidade, Luiz Carlos de Albuquerque Mendes.

Atualmente, 45 famílias moram na Comunidade da Barra de São Manoel. A principal atividade econômica do local é o garimpo de rio. Todos ilegais, eles sabem. “A gente quer trabalhar na legalidade, mas falta informação”, afirmou.

Luiz Carlos nasceu na comunidade. Seu pai, também. Os avós chegaram há aproximadamente 70 anos. Antes, trabalhavam com seringa. Depois, viraram garimpeiros “por força da circunstância e pela falta de melhor opção”, disse Luiz. Hoje, buscam novas alternativas de renda e uma área de floresta para ser explorada.

Por isso, da surpresa e desânimo com a criação do parque nacional. Eles sabem que nesta categoria de unidade de conservação não é permitida a presença de moradores, nem a exploração dos recursos naturais. “Então, como a gente vai ficar? Não vamos mais poder fazer nada”, disse Simar do Rosário Correa, morador.
No dia 30 de junho, uma comissão de moradores da comunidade deve ir até Apuí, quando acontecerá uma reunião de alguns integrantes da Expedição Juruena-Apuí com o poder público local. Na mesma ocasião, eles pretendem conversar com o Secretário Municipal do Meio Ambiente de Apuí, Domingos Serra, sobre a situação.

Deslocamentos

Hoje foi dia de deslocamentos e hoje também que iniciamos a terceira fase da expedição: a do rio Sucunduri, no Mosaico do Apuí.
Pela manhã, eu, o Marcos Pinheiro e o Lúcio, cinegrafista, viajamos seis horas de voadeira para conversarmos com os garimpeiros da Barra. Na volta, fomos resgatados pelo helicóptero do Ibama, que já tinha deslocado toda a equipe que estava no rio Juruena, no Mato Grosso, até o rio Sucunduri, no Amazonas.

Zig Koch e Robson Maia, fotógrafo e cinegrafista, já estão conosco novamente. Eles se deslocaram de avião até a pousada Jurumé, no rio Juruena e de helicóptero o restante do trajeto até o rio Sucunduri. Eles estavam com Cláudio Maretti e Francisco Livino, do Ibama, acompanhando a Vox TV, da Alemanha. Zig não nos acompanhou até a comunidade. Por isso e infelizmente, não temos muitas fotos do local. A Marisete Catapan, do Programa de Áreas Protegidas e Apoio ao Arpa do WWF-Brasil, se integrou à equipe.

Hoje deixamos a bacia do rio Tapajós e entramos na bacia do rio Madeira. Do alto, é nítida a visão de uma serra que cruzamos. Ela, segundo Marcos Pinheiro, pode ser uma barreira geográfica natural para algumas espécies. Isso significa que “esperamos aqui no rio Sucunduri encontrar animais e plantas diferentes das até agora encontrados pelos pesquisadores da expedição”, garantiu.

Comunidade Barra de São Manoel
© WWF-Brasil / Marcos PINHEIRO Enlarge
Balsa de garimpo
© WWF-Brasil / Marcos PINHEIRO Enlarge
Helicóptero deixa equipe em Terra Preta
© Zig KOCH Enlarge
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