Conheça a cidade de Apuí



25 junho 2006
Rua de comércio em Apuí
© WWF-Brasil / Claudio MARETTI
Por Cláudio C. Maretti

Foi na cidade de Apuí que se instalou a sede da gestão do Mosaico de Unidades de Conservação de Apuí, sob responsabilidade da Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentado do Estado do Amazonas, em parceria com a Secretaria de Meio Ambiente do Município de Apuí e apoio do WWF-Brasil. Retornaremos para cá no dia 30 para uma reunião com o Conselho Municipal de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente e para o encerramento da Expedição Juruena-Apuí.

Apuí é a cidade mais no sudeste do Amazonas. Há basicamente dois tipos de cidades no interior do Amazonas. As mais tradicionais se estabeleceram às margens dos rios principais, representando estágios dos ciclos econômicos regionais, algumas dos primeiros contatos dos portugueses, outras vinculadas às épocas da borracha, várias voltadas à pesca. Certamente os recursos naturais tiveram alguma influência, mas o fator determinante foi o acesso pelos rios - sem desconsiderar que o meio e o espaço também podem ser uma forma de recurso natural. Essas cidades, com freqüência, têm ligação mais importante com os rios, com portos, atividades pesqueiras, etc.

Um outro tipo de cidade é aquele, felizmente ainda muito mais restrito, ligado às estradas. Produto de ciclos ditos 'econômicos' quando já dominava a lógica rodoviária neste país, com destaque para os anos de ditadura e suas mirabolantes teorias e estratégias de ocupação. Eles tinham o lema "integrar (no Brasil) para não entregar (a Amazônia)", quando na verdade abriam estradas, procuravam estabelecer alguma infra-estrutura e oferecer o país e a Amazônia em particular à ocupação, compra ou exploração por potências estrangeiras, direta ou indiretamente. Essas cidades foram tomadas por migrantes, na sua maioria vindos do sul ou do centro-sul do país, trazidos pelos governos ou simples aventureiros, alguns até de vida particular heróica, outros bandidos que mereceriam mas nem sempre tiveram cadeia.

Apuí é uma dessas cidades nascidas a partir das estradas produzidas com a perspectiva integracionista ditatorial. Ela, na verdade, se iniciou como assentamento de reforma agrária, próximo ao rio Juma. Um pequeno comércio se estabelece e cresce, sobretudo potencializado pela rodovia Transamazônica. Esta sim, mesmo com dificuldades de implantação total até hoje, e condições de circulação nas quais não se pode confiar -inclusive atualmente - foi a principal responsável por Apuí existir como cidade. Cidade que hoje deve contar com cerca de 20 mil habitantes. A ocupação 'moderna' se iniciou na década de 1970 e foi emancipada como município em meados da década de 1980.

Sua produção principal é a pecuária. Geralmente o comércio principal se faz com Porto Velho, tanto para compra como para venda. São cerca de 600 Km que podem ser vencidos num dia bem cheio e longo, e no 'verão' (época seca), pois no 'inverno' dependerá muito das chuvas e das condições da estrada, além do próprio veículo utilizado, podendo levar de 2 ou 3 até 6 dias ou até mais.

Atualmente, entretanto, com as funções administrativas aumentando, a relação com Manaus vem ganhando espaço. Há mesmo neste momento mais interesse em 'exportar' o gado para Manaus, de modo a não se misturar com aquelas áreas contaminadas pela brucelose e perder preço. Para Manaus, no entanto, são cerca de 250 Km até Nova Aripuanã, com aproximadamente as mesmas condições ou dificuldades de trajeto. De lá, cerca de três dias de barco até a capital do Amazonas.

Nesta região, ainda que menos que no Pará, Rondônia e outras regiões vizinhas, o conflito é muito presente. Além das levas iniciais de migrantes outros vieram depois com ainda mais ganância e freqüentemente são portadores de conflito, não raro roubando terras. Apropriam-se de terras públicas, federais ou estaduais, expulsam comunidades locais, colonos ou posseiros, pela ameaça ou pela violência física. A resistência pode resultar em perda de pertences, ferimento ou morte.

Normalmente o desmatamento serve a esses objetivos. Há com freqüência um acúmulo de crimes ambientais, ecológicos, fiscais e outros. É a economia do mercado ilegal (ou 'negro') da terra que muitas vezes viabiliza todo o processo degradador, impulsionado pela soja, pelo gado ou outra atividade similar, proporcionado pelos acessos legais ou não, o ciclo de retirada de madeira, desmatamento e ocupação. Esse comércio ilegal é realizado por uma 'banda podre' da sociedade - uma 'banda podre' do empresariado rural, viabilizada por uma 'banda podre' do empresariado, pela parte corrupta dos servidores públicos e, em última análise, pelo consumidor descuidado ou desavisado. Afinal, o gado ou a madeira produzidos ilegal e predatoriamente aqui acabam na mesa ou no assoalho de alguém em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte, Salvador ou Brasília.

Apuí mostra várias faces: uma mais rural, outra mais urbana; uma mais de 'desbravadores', outra dos que 'se deram melhor'; uma mais arcaica, outra mais "moderna" (só mesmo com aspas!).

Neste EXATO momento os últimos colegas estão sendo levados de helicóptero para a floresta, dentro do Mosaico de Apuí! Tenho que correr senão fico para trás...
Rua de comércio em Apuí
© WWF-Brasil / Claudio MARETTI Enlarge
Loja de moto-serras em Apuí
© WWF-Brasil / Claudio MARETTI Enlarge
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