Aventura na selva



26 junho 2006
Acampamento da SDS-AM
© WWF-Alemanha / Michael EVERS

Por Cláudio C. Maretti

Vida errante... Por erro de cálculo, ou melhor estimativa, de uns outros, o tempo não tem costumado ser suficiente, ou o combustível é justo e, ainda por cima, a comunicação não funciona sequer entre as equipes, que agora foram divididas em três: os que estão em Apuí, os de Terra Preta e os da Serra do Sucunduri, ou Serra do Biquíni, como muitos chamam.

Isso sim é uma expedição, onde nada é sabido de antemão. Não, não é uma gincana. É que pelo fato de estarmos atravessando lugares muitas vezes desconhecidos, em condições similares às de uma aventura e de maneiras diferentes de outras situações que já vivemos antes, nada pode ser previsto com exatidão. Eu definiria a situação como ‘navegando pelo desconhecido’.

Mesmo com a vontade de todos de ir o quanto antes a campo, as equipes foram se dividindo aos poucos por conta da limitação de espaço e carga do helicóptero, curiosamente, um dos pontos considerados mais positivos na organização logística da expedição que acabou se revelando o principal gargalo para o avanço de dois dos três grupos.

Ana Cíntia e alguns colegas já estavam em Terra Preta. A segunda equipe, composta principalmente por representantes da Secretaria de Desenvolvimento Sustentado do Estado do Amazonas saiu cedo no dia 24. No dia seguinte pela manhã partiram a equipe da VoxTV, incluindo nosso colega Michael Evers, do WWF-Alemanha, e finalmente, na tarde de hoje iremos Francisco Livino do Ibama e eu, Cláudio C. Maretti, do WWF-Brasil.

No dia 24 à noite, mesmo cansados, Michael, Zig e eu fomos a uma lojinha chamada “Inter.Net”. Para nossa tristeza, o sinal não era bom e, para piorar, o atendente nos explicou que nos períodos da tarde e da noite, havia um problema maior no sistema de transmissão por rádio que só seria resolvido na segunda-feira. Por horas tentei abrir meu programa de e-mails para enviar os relatos e as fotos da expedição sobre o dia. Tentei de tudo: mudar de computador, conectar via telefone, nada funcionava. Finalmente, com muita paciência, depois de eu e Zig inventarmos diferentes maneiras de enviar os dados, Michael conseguiu passar as informações por um sistema particular de e-mails.

Só no dia seguinte fiquei sabendo que, além da lentidão na conexão, o meu sistema de e-mails não abria porque o correio eletrônico do WWF-Brasil estava fora do ar em Brasília e só seria reparado na segunda-feira! Imaginem que ficamos pensando que as dificuldades todas ocorriam por conta da organização da expedição, dos nossos problemas de logística, do nosso cansaço ou das dificuldades de comunicação a partir do campo... E, mesmo cansados, muito cansados, nunca deixamos de enviar mensagens. No final das contas, acabamos falhando nos boletins diários justamente por conta de dificuldades em cidades –Apuí e Brasília! E o pior é que, ao que tudo indica, teremos problemas na logística e nas comunicações no campo nos próximos dias!

Dificuldades na comunicação

As informações que chegavam durante o dia eram desencontradas e sempre por intermédio do piloto do helicóptero, comandante Carlos Hoffmann. Mais tarde, já de noite, Marcos Pinheiro conseguiu, de alguma forma milagrosa, conexão com o telefone celular por satélite e tentamos conversar. Ele em Terra Preta, no meio da floresta, e eu na cidade de Apuí. A situação era cômica, pois a conexão para Apuí só funciona de vez em quando e se usássemos a operadora ‘certa’. Ainda por cima, havia uma certeza: quando se usa esse equipamento, a ligação dura, no máximo, dois minutos. Portanto, em cerca de duas horas e meia, até mais de meia-noite, nos falamos por mais ou menos dez 10 minutos.

De qualquer forma, quando o Marcos desistiu de insistir no picado e parcial diálogo, fui dormir tarde e acordei cedo para passar os recados à turma que viajaria já logo cedo no dia 25.

Serra do Sucunduri

Já no acampamento da SDS-AM, com pesquisadores do Inpa, a situação não era fácil. Esperava-se que pudéssemos conversar com eles pelo celular via satélite, mas não tinham o aparelho. As mensagens enviadas pela maleta de comunicação do Sipam (que já havia nos tirado do enrosco em outra expedição, a do ParNa M. Tumucumaque, pelo rio Jari, nunca recebiam resposta confirmando recebimento. O equipamento para conexão de Internet via satélite, cuja parte de telefone funciona sensivelmente melhor que o celular por satélite, mas também é muito maior, principalmente por causa da antena, estava com a Ana Cíntia, um pouco depois de Terra Preta. O nosso telefone celular via satélite estava com o Marcos em outro local.

Chegamos então os cinco colegas da equipe da VoxTV, o Michael, o Francisco Livino, do Ibama, e eu, ao acampamento 1 da SDS-AM, distante cerca de 30 minutos de vôo de Apuí. Infelizmente, as condições do local não são as melhores. As instalações estão ao lado de um platô, num dos últimos (mais externos) círculos da estrutura geológica aparente do domo de Apuí, mantido mais acima por resistência da rocha quartizítica ao intemperismo, onde se formam trechos de campos, cerrados e campinaranas. Apesar de ser mais fácil o pouso e parecer mais interessante a investigação no local, era preciso caminhar um pouco para atingir uma situação de mínimo abrigo, sobretudo ao sol.

Vegetação

A vegetação é cerrada no local, dominada por arbustos, e é necessário algum esforço para abertura de clareiras ou espaços. A instalação do acampamento foi feita sobre um lajedo, que provavelmente serve de leito de rio na época das chuvas, com um barracão no qual se apinharam redes, houve até “congestionamento”, com algumas barracas ao redor. Em função da localização do platô, não há água corrente por perto. Em razão das dificuldades com o transporte, por meio do helicóptero, não havia água potável, alimento ou gasolina suficientes. A lavagem da louça, a coleta de água para cozinha, e os banhos são feitos em poças ou veios d’água, no meio das rochas, seqüencialmente mais distantes do acampamento.


Segundo Rômulo Fernandes Batista, responsável pela parte de geoprocessamento da Rede de Conservação do Amazonas (‘Rede’), da Seape-SDS-AM, parece haver uma seqüência de solos [uma catena], partindo da rocha [quartzito], caminhando para a parte baixa [o talvegue], com crescimento da serrapilheira, da quantidade de matéria orgânica, tornando-se um solo mais desenvolvido, embora arenoso, até a beira dos cursos d’água, com gradiente altitudinal, saindo de cerca de 230 m de altitude no topo dos platôs, deste lugar específico até 190 m à beira do rio Sucunduri. Segundo ele, há uma seqüência consistente de formações vegetais também saindo do campo aberto herbáceo (com canela-de-ema), no topo do platô, indo para o campo aberto arbustivo, ou a campina, no primeiro degrau (um platô abaixo), para a mata de encosta no 2º degrau (outro platô mais abaixo), e depois a mata de cipós junto aos cursos d’água.

Terra Preta

Com inúmeras conversas, para lá e para cá, com avanços e recuos, consultas e decisões, em português, inglês, alemão, além de alguns toques em espanhol, conseguimos decidir a programação dos dias seguintes, Caê, Michael e eu, mas com participação de todos, da equipe da VoxTV e dos cientistas.

Decidido. Hoje mesmo começamos a nos transferir do acampamento 1 da SDS-AM para Terra Preta. Os motivos são os seguintes: a equipe da SDS-AM e os cientistas têm programado três pontos de observação e coleta, sendo atualmente no próprio acampamento 1, o próximo em Terra Preta, e a seguir junto ao rio Bararati; os planos são que grande parte da equipe do WWF-Brasil, parceiros e da equipe da VoxTV estejam descendo o rio Sucunduri, em dois ou três dias, a partir de Terra Preta; está prevista reunião de integração entre as equipes; e, claro, porque amanhã é dia de jogo do Brasil x Gana. Já mandamos vir (de Manaus e de Apuí) uma televisão e uma antena parabólica, subindo quase três dias pelo rio Sucunduri para não perdermos as emoções da partida!!

O esquema ficou montado de tal forma que, a partir de hoje sairemos gradativamente para Terra Preta, permitindo aos pesquisadores irem fechando seus trabalhos no acampamento 1 e à equipe da VoxTV ir gravando com um pesquisador de cada vez.

Portanto, hoje ficamos prontos, esperando o helicóptero desde antes das 8h00, mas ele só apareceu por volta de 12h30. Nele vieram Ana Cíntia, Zig e Lúcio, ou seja, boa parte da equipe de comunicação do WWF-Brasil. Fizemos uma reunião rápida, ao pé do helicóptero.

Tanto pelos contatos no pouso do helicóptero no acampamento 1, como pelo relato do Robson, Marcos e demais colegas, soube que uma voadeira naufragou no rio Sucunduri, com o Dante Buzzetti nela. Por sorte não aconteceu nada com ele nem com os equipamentos (câmera fotográfica, gravador de cantos de pássaros etc.), nem mesmo com o piloteiro.

Duas voadeiras procuravam subir o rio Sucunduri, em direção à cachoeira do Monte Cristo. As duas equipes chegaram, mas as confusões continuaram. Uma equipe chegou ainda de dia, e outra chegou à noite. Só que uma levava equipamento para outra, e uma chegou numa praia e outra acabou dormindo na outra, deixando a primeira, mais numerosa, sem boas condições de dormir.

Mesmo com as dificuldades, valeu a pena, dizem eles. Além de uma corredeira linda, sobre um lagedo enorme, o local é conhecido como Praia das Antas. Na noite do dia 25 foram avistadas três antas. Na manhã de hoje, mais uma foi avistada. Todas vêm sobre as pedras e areia comer uma certa plantinha especial do seu agrado.

Acampamento da SDS-AM
© WWF-Alemanha / Michael EVERS Enlarge
A canela-de-ema é uma espécie comum do cerrado e foi encontrada em abundância na área do acampamento
© Zig Koch Enlarge
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