Lendas e mitos da região



23 junho 2006
Alguns moradores da região ainda guardam peles de onças em casa
© WWF / Michel GUNTHER
Histórias incríveis de peixes que podem engolir um homem, da "vertigem" causada pela floresta, de onças ferozes e monstros mitológicos, povoam o imaginário dos moradores do Pontal do Apiacás. As lendas e mitos que cercam as belezas do encontro dos rios Juruena e Teles Pires - na fronteira dos Estados do Amazonas, Mato Grosso e Pará -, são mais uma das muitas surpresas encontradas na região.

"Cuidado com a floresta tem gente que vai e volta com a cabeça virada", é o aviso dos ribeirinhos aos visitantes recém-chegados. Mas história de que a mata pode enlouquecer um homem, parece ser apenas uma forma encontrada pela população local para evitar a invasão de madeireiros, garimpeiros e caçadores ilegais.

Outro defensor da floresta muito popular nas conversas mais animadas da região é o mapinguari. Descrito quase sempre como um animal de mais de dois metros, peludo, com garras gigantescas, dentes enormes e que adora alimentar-se de "caçadores". Segundo a lenda, a temida fera ataca de dia e emite sons iguais aos feitos em troncos de sapupema, árvore típica da região utilizada para a comunicação entre quem está na mata, para confundir e atrair as pessoas. Muitos juram terem visto o bicho e alguns até lutaram com ele. Os relatos são tão constantes entre ribeirinhos e seringueiros, que uma equipe de pesquisadores do museu Paraense Emílio Goeldi, chegou a fazer uma expedição na Amazônia em busca do animal.

A suspeita dos cientistas era que o mapinguaria fosse uma preguiça gigante (Megatherium america). Espécie considerada extinta há milhares de anos, possivelmente refugiada na floresta. Algumas pegadas e marcas em árvores foram registradas, muitas histórias contadas, mas nada de concreto ficou comprovado. Apesar das incertezas da ciência, o monstro continua sendo muito real no imaginário dos moradores do Pontal do Apiacás. E ninguém arrisca entrar desacompanhado na mata para caçar, ou pescar.

A existência do temido monstro também é comum entre os povos indígenas. Para eles, depois um feitiço, um velho pajé transformou-se no mapinguari para proteger a natureza de todos aqueles que a desrespeitarem. Alguns antropólogos acreditam que a lenda tem origem similar ao de outro defensor da floresta, o curupira, o famoso indiozinho de cabelos vermelhos e pés virados que vive para assombrar caçadores.

Se em terra firme é o mapinguari que aterroriza os homens, nas águas profundas e misteriosas do Juruena, são as piraíbas (Brachyplathystoma filamentosum) as responsáveis pelos "causos" mais fantásticos. O peixe é uma das maiores espécies de água doce do mundo, e por isso foi apelidada de o tubarão dos rios. Uma piraíba adulta pode ultrapassar os dois metros de comprimento e chegar até 300 quilos. Para ter uma dimensão da grandiosidade da espécie, basta saber que os indivíduos com até 60 quilos ainda são chamados de "filhotes".

Esse peixe de couro gosta das profundezas dos leitos de rios, mas ao contrário dos jaús (Paulicea lutkeni e Zungaro zungaro), não é de ficar em poços ou tocas de pedras. E o Juruena, com suas águas claras e correntes, é um de seus locais preferidos na Amazônia.

Todo ribeirinho da região que se preze tem algo a contar sobre a piraíba. Afinal, um peixe tão grande é o protagonista perfeito para ilustrar uma história de pescador. Mas, apesar da fama de poder engolir um homem adulto, os pesquisadores são unânimes em afirmar que a piraíba é muito mais vítima da ação humana do que vilã. Suas populações estão cada vez mais reduzidas devido à destruição das matas ciliares e à poluição dos rios. Com isso, captura de indivíduos de grande porte é cada vez mais rara.

As onças pintadas (Panthera onca) são um capítulo à parte nas matas do Jurena e sua existência são uma das poucas certezas protegidas pela floresta. Na década de 60, quando as peles ainda podiam ser comercializadas abertamente, o Pontal do Apiacás era um dos locais preferidos para a caça desses felinos. Alguns moradores ainda guardam escondidas em suas casas enormes "fantasias", como chamam a tão cobiçada pele. Com a caça proibida, hoje, as onças são mais uma das muitas espécies que se refugiam no Parque Nacional do Juruena. Fator que somado a megadiversidade e beleza das suas paisagens, o torna uma das mais importantes áreas de proteção do Brasil.
Alguns moradores da região ainda guardam peles de onças em casa
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